Copa de Literatura 2009 – Jogo 2 – Areia nos Dentes X O Vencedor está só

Monday, September 20th, 2010

Por Fernando de F. L. Torres,

Aproveitando que o livro Areia nos Dentes de Antônio Xerxenesky foi reeditado, agora pela editora Rocco, aproveito para requentar minha resenha da Copa de Literatura Brasileira de 2009.

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Antes de iniciar a leitura dos livros que me foram designados tentei estabelecer alguma relação entre os dois autores. Enquanto Paulo Coelho é uma celebridade midiática, autor de diversos livros traduzidos em diversas línguas, Xerxenesky é autor de primeira viagem, jovem, estudante de letras. Mas, apesar de parecerem absolutamente diversos, existe uma semelhança: são os dois autores mais livres da Copa de Literatura.

O Mago, diante dos seus resultados pregressos, já não precisa provar nada a ninguém: é um grande sucesso de vendas e, apesar de não ter conquistado os críticos, já dispõe de títulos, entre eles o de imortal da Academia Brasileira de Letras. Seu desafiante é sócio da editora que publicou seu livro e tem a vida toda pela frente: um escorregão em sua primeira obra será perdoado se as seguintes forem melhores, o que lhe permite tomar certos riscos e fazer certos experimentos que outros autores talvez não tivessem feito.

O resultado dessa liberdade foram excessos de ambas as partes — cada qual à sua maneira.

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Areia nos dentes é um faroeste com zumbis. Sabemos disso porque, além de estar escrito na orelha do livro (assinada por Daniel Galera, outro concorrente da Copa), o fato é pincelado ao longo da narrativa antes das criaturas aparecerem (e elas demoram). A presença dos zumbis nem é tão importante assim, mas é parte do espírito que rege o livro.

A história, resumidamente, é a de um velho mexicano solitário e alcoólatra que escreve a história de Mavrak, cidade do Oeste selvagem onde viveram seus antepassados. Mavrak é dividida por uma guerra entre duas famílias: os Marlowe e os Ramirez. Por conta do assassinato de um dos Ramirez, é designado um xerife para a cidade antes sem lei. Outros personagens típicos dos antigos westerns, como a cafetina e o dono do saloon, completam a história.

Existe uma clara diferença de estilos entre os momentos atual e passado na narrativa. No plano de Mavrak, simula-se o digitar de um bêbado, muda-se a fonte e cria-se um simulacro de estilo, pertencente ao personagem que no romance escreve a narrativa de Mavrak; como resultado, tem-se a sensação de que não é o próprio autor que redige aquelas páginas, mas seu personagem. A história do velho em seu apartamento é contada em prosa limpa, fluida, mais próxima da de outros textos de Xerxenesky; arrisco dizer que é esse seu estilo natural, em oposição àquele simulado.

Porém, o autor tem bom humor e senso de autocrítica suficientes para brincar com a própria metalinguagem, o que mostra que o rapaz não se leva a sério — qualidade que pouquíssimos escritores possuem. Isso está expresso num trecho da página 88, derramado de ironia:

“Que idéia péssima! Por que alguém escreveria sobre alguém escrevendo?”

“Eu também acho horrível. Teve algum crítico que resumiu exatamente o que eu sinto. Ele disse: ‘Metalinguagem é uma doença juvenil’. Enfim.”

Essas abstrações intelectualoides ele deve ter aprendido na faculdade. De algumas coisas que ele me ensinou na vida eu até gosto, mas tudo tem limite. Para mim o último grande livro foi Ulisses.

Por outro lado, parece que ao escrever Areia nos dentes o autor teve a intenção de demonstrar tudo o que sabia sobre as técnicas e o referencial cultural da literatura e do cinema. Como se fosse essa a sua única oportunidade de mostrar o que sabe. No fim, por excesso de vontade, acaba-se perdendo o impacto de uma prosa mais limpa e coerente.

Esse excesso é mais patente na primeira metade do romance, em que a quantidade de referências e o tipo de humor, semelhante às piadas internas de um grupo de amigos, revelam uma prosa imatura. A segunda metade é mais séria, com um desenvolvimento de temas literários clássicos como, por exemplo, o aprofundamento das questões entre pai e filho. Os zumbis surgem, então, para revelar a complexidade dos personagens do romance. Quanto mais nos aproximamos do desfecho, mais vemos qualidades no autor que Antônio Xerxenesky pode se tornar em seus próximos livros.

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Falar dos clichês e lugares-comuns de O vencedor está só, de Paulo Coelho, é uma tentação que procuro evitar enquanto escrevo esta resenha, porque isso já foi feito à exaustão para cada livro que o autor publicou e por críticos muito mais talentosos do que eu. Por outro lado, esse tipo de resenha não seria mais que um exercício de perseguição a um autor já bastante malhado. Além disso, seria injusto, pois muitos autores de que gosto e que recomendo, como Nick Hornby, escrevem textos cheios de clichês e lugares-comuns, sem deixar de entreter.

O clichê, por si, não é algo abominável. E entretenimento não é sinônimo de falta de qualidade. No cinema, Chaplin utilizou diversos clichês do teatro e compôs personagens caricaturais, mas entreteve as massas. Sua qualidade é inquestionável, sua visão crítica da sociedade americana da primeira metade do século XX é feroz e, acima de tudo, ele é divertidíssimo. Na literatura não é diferente.

Por outro lado, quero ressaltar alguns pontos sobre os quais escolhi refletir depois de ler o prefácio de O vencedor está só, escrito pelo próprio autor e reproduzido abaixo:

O retrato

No momento em que termino de escrever estas páginas, existem vários ditadores no poder. Um país do Oriente Médio foi invadido pela única superpotência mundial. Os terroristas estão ganhando cada vez mais adeptos. Os fundamentalistas cristãos são capazes de eleger presidentes. A busca espiritual é manipulada por várias seitas que alegam deter o “conhecimento absoluto”. Cidades inteiras são riscadas do mapa pela fúria da natureza. O poder do mundo inteiro está concentrado nas mãos de seis mil pessoas, segundo pesquisa de um reputado intelectual americano.

Existem milhares de prisioneiros de consciência em todos os continentes. A tortura volta a ser tolerada como um método de interrogatório. Os países ricos fecham suas fronteiras. Os países pobres assistem a um êxodo sem precedentes de seus habitantes em busca do Eldorado. Os genocídios continuam em pelo menos dois países africanos. O sistema econômico dá mostras de exaustão, e grandes fortunas começam a ruir. O trabalho escravo infantil tornou-se uma constante. Centenas de milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza absoluta. A proliferação nuclear é aceita como irreversível. Surgem novas doenças. Antigas doenças ainda não foram controladas.

Mas é este o retrato do mundo em que vivo?

Claro que não. Quando resolvi fotografar minha época, escrevi este livro.

A ideia de fotografia, de instante, permeia O vencedor está só: além dessa menção no fim do prefácio, fotógrafos ilustram a capa do livro e os títulos dos capítulos se referem a horários específicos do dia em que se passa a história. Vale lembrar que uma fotografia é a captura da luz de um quadro num instante. Em todos os capítulos do romance, porém, há descrições de ações e memórias dos personagens que escapam ao horário que o capítulo pretende narrar. Fica a sensação de que a prosa do livro nada tem de fotográfico. Outros autores trabalharam propostas semelhantes de maneira mais coerente. (Gosto de pensar em Conversa na Sicília, de Elio Vittorini, como um excelente exemplo de “romance enquanto retrato”.)

No mesmo sentido, as digressões constantes do autor não apenas afetam a ideia formal de retrato mas também atrapalham o fluxo de informação. E existe um excesso de informação no texto: ficamos sabendo da trajetória de cada personagem até o dia narrado, o que além de cansativo deixa a sensação de sabermos demais — principalmente quando voltamos à ideia de fotografia, pois saber menos sobre a história pregressa das personagens poderia tornar mais atraente a imagem daquele instante. O excesso de informação acaba tornando excessivamente didáticas as críticas (na minha opinião rasas) acerca dos valores da sociedade de consumo representada pelos personagens inseridos no Festival de Cannes. Muitas conclusões às quais o leitor poderia chegar a partir da narrativa são explicitadas nas palavras e julgamentos do narrador; e, quando o narrador não nos diz o que pensar sobre a situação, os personagens o fazem.

Talvez o sucesso de Paulo Coelho esteja exatamente nesse ponto que critico com tanta veemência: não há necessidade do leitor pensar ou interpretar o romance, a interpretação já está dada. Mas para fazer isso O vencedor está só precisa de quatrocentas páginas, quando a história poderia ser contada de forma muito mais atraente em pouco mais de cem.

Numa fotografia, o quadro que escolhemos pode ser menos importante e dizer menos sobre a imagem retratada do que o que deixamos de enquadrar. Da mesma forma, O vencedor está só é um retrato não da época em que vive o autor mas do mundo que o autor é incapaz de sublimar para ver essa época. Rodeado por celebridades e pela sua própria celebridade, o autor só enxerga o ponto de vista do “vencedor”, do excesso. O retrato que pretende fazer, e que a princípio parece uma crítica sobre um objeto do qual ele quer se afastar, acaba por se tornar um reflexo do próprio autor.

Incomoda-me inclusive a forma como a escolha do título, O vencedor está só, referindo-se aos personagens que de alguma forma “venceram” dentro da concepção em que estão inseridos (acúmulo de fama, dinheiro ou poder), marca a ótica burguesa do romance. Por sinal, a escolha de retratar o seu tempo a partir da história dos vencedores remonta a uma ótica superada sobre o entendimento da sociedade, e famosamente criticada por Brecht:

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Conquistou sozinho?
César bateu os gálicos.
Não tinha ao menos um cozinheiro consigo?
Felipe da Espanha chorou a perda da sua Esquadra.
Só ele chorou?
Frederico II ganhou a guerra dos Sete Anos.
Quem mais ganhou a guerra?

O vencedor está só não é um atentado à literatura nem é pior do que a maioria dos livros que se publica. Mas, sem ser um livro inteiramente ruim, não atingiu as expectativas que eu tenho ao iniciar uma leitura; assim, tampouco posso me referir a ele como um bom livro.

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No fim das contas, O vencedor está só e Areia nos dentes têm bastante em comum. São dois livros que parecem romances de autores iniciantes, com pretensões de demonstrar mais do que é possível ou adequado dadas as características das histórias contadas. Areia nos dentes, porém, leva vantagem em dois fatores: Xerxenesky é realmente um autor iniciante, e tecnicamente seu romance é mais coerente.

Vencedor

Areia nos dentes

Post scriptum: Passado um mês de eu ter escrito essa crítica, Xerxenesky postou em seu blog a história de um capítulo perdido. Um capítulo meramente explicativo. Pensando bem, e relendo meu artigo, o capitulo era essencial. Mas tão somente necessário para ser cortado. Se foi acaso, se foi ato terrorista do Daniel Galera, se foi mancada do diagramador… foi muito bom. Aquele capítulo, de apenas um parágrafo, talvez igualasse Areia nos dentes a O vencedor está só na minha leitura. Esse “talvez” não existe e não sou afeito à crítica genética, o importante é o texto que foi publicado. Enfim, o privelegiado pelo inexplicável, quiçá chamemos de magia, foi Antônio Xerxenesky, o vencedor do jogo 2 da Copa de Literatura Brasileira de 2009. Que se cuide seu próximo adversário, quem sabe zumbis apareçam antes do próximo jogo.

Os Pequenos Deuses da Trapaça

Friday, September 17th, 2010

Por Fernando de F. L. Torres,

(texto originalmente publicado no Aguarrás, número 27,  edição de setembro & outubro de 2010)

De quando em quando recebo e-mails de escritores, que como eu, usam da internet para divulgar suas obras. Algumas vezes temos gratas surpresas, uma delas foi Manuel Carreiro, autor de “Os Pequenos Deuses da Trapaça”. O primeira coisa que notei em seu e-book, foi os pequenos detalhes, que logo me mostraram, de um lado o humor do autor sobre o próprio ofício, de outro a reflexão profunda sobre a forma de se publicar um livro.

Tive vontade, ao escrever estes breves comentários de apenas analisar os aspectos formais da obra do autor, pois valeria à pena me ater a eles, mas não seria justo com o autor não ressaltar o texto. De tal forma, gostaria de de ressaltar a primeira ironia do livro. Quem já comprou algum livro editado na América do Norte, deve ter notado que nas primeiras páginas, derramam-se elogios ao autor, sempre feitos por personalidades de respeito, para Manuel Carneiro quem o recomenda é somente aqueles que jamais poderiam ter lido o livro. Defuntos elogios ou elogios defuntos, os vermes que primeiro roeram as carnes de Brás Cubas, agora homenageiam Manuel Carreiro.

Tenho certa afeição à fábulas. O conto, em sua origem, tem a tradição fabular, e seus fiapos costumam ficar aparentes nos dentes dos escritores com formação filosófica. Desde o título “Pequenos deuses da trapaça” quanto na escolha da narrativa curta e direta, impregnada de metáforas e palavras cuidadosamente escolhidas por seus significados simbólicos a obra me remete à fábula. Talvez pela influência da obra crítica de Italo Calvino, procuro os elementos fabulares que ele escolheu para a literatura que ele esperava (v. Seis Propostas para o próximo milênio – Ed. Cia das Letras). O texto de Manuel Carreiro apresenta todas: 1) leveza, 2) rapidez, 3) exatidão, 4) visibilidade e 5) multiplicidade. Vale lembrar que a sexta, e última (Consistência), nunca foi escrita pelo italiano que faleceu antes de escrever para o ciclo de palestras que faria em Harvard.

Assim, o conjunto de contos do autor (aqui referidos como contos por apresentarem a forma breve e sem entrar na classificação das formas, que para mim é apenas ilustrativa e acadêmica), formam um pequeno universo de fábulas de nosso tempo. Está lá sua reflexão do (anti) herói moderno, em constante crise com seu mundo. Não vejo como é possível fazer literatura de relevância sem explorar cada aspecto dessa ruptura definitiva.

Não há como ler um dos contos de “Os Pequenos Deuses da Trapaça” sem ao final ter mais dúvidas que certezas. A primeira, talvez única, certeza é que estamos diante de um texto em que nenhuma palavra está fora do lugar, como se cada uma delas fosse resultado de reflexão. Esta é a reflexão que nos gera a exata dúvida que nos leva de volta ao início do conto. A angustia que encontramos no texto está na imagem refletida do leitor sobre o texto buscando não se identificar com cada linha que parece envolvê-lo. Não queremos estar no texto de Carreiro, mas somos levados à releitura exatamente pela dialética Hegeliana dessa busca cíclica.

O impulso cíclico (e reflexivo), não é vicioso, como pode esperar o leitor rasteiro, mas virtuoso. Nas palavras do autor é um livro de resistência e hermético na forma. A leitura fácil das redes sociais é negada. Por certo, ao pensar “que merda é essa?” (como deseja o autor) o leitor precisa abrir mão das facilidades do conteúdo vazio e rasteiro da era da informação e encarar a reflexão com o sabor amargo dos remédios.

Sem entrar na descrição de cada um dos contos, vale ressaltar especialmente o conto “Quero ser outro”. Nesta pequena estória, o autor trabalha com a dualidade do ser humano, sobre aqueles impulsos de admiração e inveja que nos faz querer ter/ser algo que não temos/somos. O conto encerra ao mesmo tempo com uma frase reflexiva mas que dá o ar de “causo à moda antiga”.

Creio que vale a pena, para quem for ler a “Os Pequenos deuses da Trapaça” degustá-lo lenta e pacientemente, pensando a cada conto sobre o que leram e preparados para voltar ao seu início. Como uma boa piada, voltando ao tema do humor, cada sorriso que a obra nos proporciona, mostra nossa capacidade de rirmos de nós mesmos.

Segue abaixo, pequena entrevista que realizei com o autor Manuel Carreiro:

1. Eu notei bastante humor em pequenos detalhes do seu livro. Entre eles os trechos de resenha de autores já falecidos, que não poderiam ter lido seu livro. Qual é a importância do humor em sua prosa?

O humor é importante para abrir caminho pra ironia. Aquela página das resenhas dos autores falecidos é apenas um dos diversos aspectos do livro que visam fazer chacota da indústria cultural e do mercado editorial. Aliás, eu procurei fazer um livro sutil, mas altamente subversivo na sua sutileza. O título desta página das resenhas (International praise for “Os pequenos deuses da trapaça”, by Manuel Carreiro) está em inglês justamente para parecer pomposo e para fazer troça destas páginas ridículas muito comuns aqui na América do Norte, onde os resenhistas dos jornais fazem comparações esdrúxulas como “o novo Elvis da crítica cultural”, “um verdadeiro pop star das letras”, “top da lista do new york times review do caralho a quatro”, apenas para alavancar as vendas de um livro que é, geralmente, muito ruim. Coloquei os comentários na língua original do autor (inglês, português e alemão tosco, porque não sei nada de alemão) no intuito de apontar para a grande bobagem que essas páginas são. E também pra forçar a curiosidade de um leitor atento. O leitor curioso de verdade vai ao dicionário conferir o que tá escrito ali… A citação do Gutemberg, por exemplo, é extremamente irônica e cortante em tempos de e-books e de aparelhos de leitura – mas me pergunto se alguém foi pelo menos ao Google translator pra conferir o que tá escrito ali! Há outras coisas que considero engraçadas no livro. O conto sobre Adão e Eva é na verdade uma piada. O comportamento do personagem número um do conto “Quinta-feira” é patético e triste. Os meninos de “Quero ser outro” são ridículos como nós, querendo sempre ser outra coisa que não nós mesmos. Acho que meu livro possui um humor meio amargo, mas também necessário. Mas é um livro que ri principalmente do autor.

2. Por que a preferência pela forma curta?

Fernando, em determinada altura da minha vida, resolvi assumir a minha incompetência. Eu já havia decidido há alguns anos atrás que eu jamais seria capaz de escrever um romance relevante. Sinceramente acho os meus contos relevantes. Não digo que sejam melhores nem piores do que os de ninguém, mas são relevantes porque são instigantes e abertos. Convidam o leitor atento a pensar um pouco. Claro que escrevo em busca de um leitor ideal. E o meu leitor ideal é lento, preguiçoso, vagaroso. Gosta de ler bem devagar, reler um trecho. Coçar o queixo. Pensar um pouco. Sublinhar. Dobrar a página e maltratar o livro. Desdobrar a página. Retomar a leitura. O livro do meu leitor ideal tem manchas de café e farelo de pão dentro dele, porque ele carrega o livro consigo. Ele não sacraliza o objeto. Ele gosta do que vai lá escrito. E aquilo o influencia. Ele sente o que lê. E a única maneira que encontrei para me expressar foi assim – escrevendo contos. Por ora, não vou mais escrever ficção. Pode ser que daqui a 10, 15 anos, se me for dada a graça de estar vivo, apareça algo. Mas por ora, fico 4 anos escrevendo a minha tese-manifesto de doutorado sobre a crise da educação contemporânea e rascunhando um roteiro de filme.

3. Este é um livro de estórias. como você diferencia Estória e História e porque essa escolha para seu livro?

Na verdade não faço distinção entre Estória e História. Até mesmo porque a História também é uma arte narrativa. Ela é uma Estória. Coloquei “Estória” lá por duas razões: uma é fazer uma espécie de homenagem ao João Guimarães Rosa. A outra é resgatar uma palavra tão bonita que caiu em desuso. Resgatar a palavra também é afrontar o desuso.

4. No livro existe, de maneira recorrente, a decomposição de palavras. em que aspecto foi importante a reflexão sobre a forma na expressão do conteúdo na composição do livro?

Decompus e fundi palavras para dar ritmo à narrativa, para inserir pistas sobre os paradoxos e enigmas presentes no texto. Pensei bastante sobre a forma. Houve um momento em que achei que a decomposição, a fusão, a inversão de palavras, enfim, tudo aquilo estava errado. Daí limpei todo o texto. O livro inteiro. O texto ficou fácil, gostoso, compreensível, amigo do leitor. Daí me senti desonesto. Achei que a melhor forma de ser legal com o leitor é não sendo amigo dele. É fazer algo que perturbe a sua alma sossegada. Daí procurei sujar o texto mais com esses elementos todos. Achei que era mais honesto escrever pra mim. O conto “Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal”, por exemplo, me tomou 3 anos ininterruptos de trabalho. Jamais o abandonei por 3 anos. Reescrevi, tornei-o mais acessível, compliquei novamente, cortei, reescrevi à mão. Achei que era necessário o livro ser formalmente quase hermético assim para manter o seu caráter subversivo. Quando digo que ele é subversivo, quero dizer que ele força o leitor a pensar e a refletir. (Por isso espalhei espelhos pelo texto). Até por isso, sei que pouca gente irá lê-lo. Ele é um livro anti-twitter, anti-mensagem ao celular, anti-falar ao telefone e dirigir, anti-MSN, anti-redes sociais. Gosto de imaginar um leitor imprimindo o e-book em casa, encadernando o livro e levando ele para uma floresta. Ele dá uma banana pra civilização, e fica horas, com um lápis à mão lendo e pensando – “que merda é essa?”

E essa inquietude muda sua vida pra sempre.

Vale Lembrar que o Livro “Os pequenos Deuses da Trapaça” está disponível para download no site do Autor: http://ospequenosdeusesdatrapaca.wordpress.com/

Ensino de Literatura

Thursday, September 16th, 2010

por Fernando de F. L. Torres,

(Antes de mais nada: Não sou educador, tudo que digo aqui é enquanto escritor. Os meus valores podem ser diferente dos seus, mas são meus.)

Existe uma ladainha. Assim como aquela música que faz sucesso e você ouve praticamente qualquer lugar que você anda, eu ouço essa ladainha em eventos ligados à literatura. um escritor apresenta seu novo livro, ou conversa sobre algum assunto relacionado à “nova literatura brasileira”, quando alguém faz uso da ladainha em forma de pergunta: Porque massacrar os alunos com Machado de Assis? Porque não adotar livros mais divertidos? Porque não lemos livros X, Y ou Z na escola, que são mais próximo da realidade do aluno?

Bom, eu estudei numa escola moderninha. Li muitos livros que gostei durante os anos que me formei como leitor. Li também livros que não gostei. Dos Clássicos ou obras “mais próximas da minha realidade”. Ajudou o fato de meus pais serem leitores ainda mais vorazes que eu. Meu acesso ao livro sempre foi muito fácil. Na realidade, tem coisas que nem lembro mais se li para a escola ou por que achei na biblioteca de casa ou num sebo dando sopa.

Feita a ressalva que sou ponto completamente fora da curva, posso desenvolver meu pensamento.

Ninguém nunca me disse que o aprendizado seria fácil. Aliás, o que geralmente ouço é que o aprendizado é doloroso. Uma criança aprende a andar caindo. Aprender é pouco a pouco deixarmos de nos satisfazermos com nos mesmos e começarmos a descobrir os outros e o mundo além de nossas fronteiras.

Não é para um aluno colegial ler Machado de Assis como lê os quadrinhos que o acompanham desde a infância. Não é para entender na primeira leitura. A ignorância dói, mas para isso existe remédio, estudar. Uma palavra ganha significado com um dicionário. Uma referência ganha significado com alguma pesquisa (Google serve para isso). A obra, por sua vez, com seus comentadores, com as aulas.

Recentemente voltei a ler Machado de Assis. Os olhos são outros, mas o trabalho que tenho é infinitamente maior do que tive no final da década de 90 quando eu, aluno colegial, estudei pela primeira vez o realismo. O engraçado é que Memórias Póstumas, de certa forma, fala da mesma coisa (com mais desenvoltura) que tento falar aqui nesse post. Brás Cubas é uma pessoa que pauta sua vida pelo prazer e é praticamente incapaz de aprender ou produzir algo. Ele ainda é o retrato dessa sociedade que evita o esforço, passando pela vida sem deixar qualquer rastro.

Assim, queremos que a escola seja um tanto como a televisão, divertida. Queremos entreter nossos alunos durante 15 ou 16 anos de suas vidas e depois vamos exigir deles que se esforcem para produzir algo, que dêem duro no trabalho. Parece-me um tanto contraditório.

Os adolescentes precisam ler os clássicos. Mas também precisam saber o caminho da biblioteca pública mais próxima. No fundo, o que tento dizer, é que o professor deve ensinar o aluno a aprender, mais do que ensinar a ele a matéria. Assim, quando aprenderem a realizar o processo de aprendizagem, não fará diferença em ler Machado de Assis ou “um livro mais próximo a sua realidade”, de ambos saberá retirar o aprendizado, e poderá escolher por qual caminho seguir.

Não tratemos nossos adolescentes como crianças mimadas. Se possível, tentemos não imbecilizar as próximas gerações. Eles são capazes de mais coisas que imaginamos, afinal são eles que devem ir mais longe que nós.

Lições sobre o ofício de escritor

Thursday, September 9th, 2010

Por Fernando Torres,

Eu uso muito esse espaço para refletir sobre ofício de escritor que me propus. São textos que escrevo quando me “dá na telha”, quase todos absolutamente confessionais.

Certa vez escrevi um texto em que eu dizia ser muito importante o ato de não escrever (V. O mito da inspiração), não enquanto a omissão da produção, mas dos atos de releitura, revisão e reflexão sobre aquilo que já foi escrito. Mas deixei de dizer, naquele momento, o contrário, a importância de escrever como forma de exercício da técnica.

É difícil dizer quando comecei a escrever. Desde que me lembro sou um contador de histórias, apesar da timidez (que pouca gente acredita que tenho) fui uma criança falante. Minha família é marcada por esse tipo de gente que gosta de boas narrativas, meu avô e meu pai que nunca escreveram uma linha de literatura são narradores natos de suas desventuras. Em algum momento passei a gostar de contar histórias na folha branca. Lembro que aos 10 anos escrevi uma redação na escola do Pirata Fernando de Torres, meus pais adoraram. Meu pai gostou tanto que datilografou o pequeno conto, xerocou uma porção e mandou para toda a família. Eu gostei.

Nunca deixei de escrever narrativas desde então. Quando prestei vestibular para a PUC, a redação proposta permitia a narrativa. Arrisquei e fui aprovado no vestibular. (Ainda hoje tento lembrar detalhes do texto apresentado.)

Como sempre gostei de escrever em folhas avulsas, muitas coisas que escrevi de forma imatura se perderam. Quando encontro um ou outro conto adolescente, gosto da sinceridade e das idéias que eu tive. Nunca tentei ressuscitar nenhum daqueles textos.

Atualmente espalho idéias em três cadernos diferentes. Puro exercício. Tenho dificuldade de escrever direto no computador, pois acho a reescrita interessante para a qualidade. Mas esse é meu jeito de produzir, não necessariamente presta para todos escritores.

Achei interessante o texto de Luiz Schwarcz em sua coluna Imprima-se chamado “O romancista que não sou” . Nele o renomado editor fala da necessidade de reflexão sobre o próprio texto, da leitura crítica de pessoas de confiança e, principalmente, da autocrítica criativa. Reescrever é um ato ainda mais doloroso que escrever. É admitir que muita coisa que parecia uma boa idéia não é suficientemente bom. Por outro lado é uma lição que o trabalho inicial pode ser útil para um texto ainda melhor.

Se bem feita, a crítica de um original é pessoal. É um ato de carinho que a pessoa tem a um escritor ou ao trabalho dele. Acima de tudo, é a demonstração de respeito à sua capacidade.  Obviamente quem lê o original tenha de entender essa relação.

Eu mesmo tenho minhas preferências sobre leitores críticos. Meu primeiro livro foi lido previamente pelo meu amigo Eric Novello com uma lupa privilegiada. Embora ele produza uma literatura muito diferente da minha, temos uma base de leituras muito semelhantes e dividimos especial apreço pelos modernistas e neo-realistas Italinos.

Desses meus cadernos e rascunhos está saindo um romance.  Escrevo todo dia um pouco. Reciclo idéias anteriores e as adapto com pretensa coerência à história que quero contar. Cumpro as ordens de um professor de Literatura Brasileira que considero um verdadeiro mestre na minha empreitada literarária. Cada conversa que tenho com ele após as aulas sou incentivado a produzir, mas sempre sob a recomendação de olhar para o texto com outros olhos depois. Assisto como ouvinte suas aulas, discuto suas análises, uso cada anotação para aprender mais sobre minha própria produção. Atualmente ele leciona Machado de Assis e, com as ferramentas de leitura que ele apresenta nas aulas, aprendo com o Bruxo de Cosme Velho mais e mais sobre literatura. Isso se reflete mais sobre o que eu escrevo do que sobre meus conhecimentos sobre o Realismo.

Luiz Schwarcz está sendo involuntariamente um professor desde que iniciou suas colunas. Machado de Assis é o professor de todo bom escritor, assim como tantos outros. Estou escolhendo bons professores e me propondo deveres de casa diariamente. Espero um dia ter algo a ensinar a alguém.

Arbitrariedades

Thursday, September 2nd, 2010

Por Fernando Torres,

Ontem encontrei, por acaso, meu amigo Thiago Cândido, nos corredores da faculdade de Letras da USP. Ele me contou seus planos para a criação de uma revista literária sobre literatura brasileira contemporânea. Na falta de um critério que possa definir contemporaneidade (na USP se estuda como literatura Contemporânea Guimarães Rosa e Clarice Lispector), ele e seus colegas decidiram firmar o marco em 1984, com o início da redemocratização política brasileira.

Ainda, o blog Casmurros, elegeu 20 escritores brasileiros com menos de 40 anos. A lista foi elaborada à partir de nomes de autores que concorrem a prêmios.

Em ambos casos, a determinação é absolutamente arbitrária. Assim como qualquer lista ou marco definido para estudar um objeto. O romantismo não terminou no dia que se apresenta como o marco do início do realismo. Os 20 escritores escolhidos provavelmente conhecem outros tantos de “sua geração” que poderiam estar tranquilamente na lista.

Eu já fui mais afeito a fazer listas. Hoje tenho uma dificuldade tremenda. Recentemente uma professor de Literatura Brasileira me pediu para listar meus três livros favoritos. Foi uma dificuldade impressionante. Acabei escolhendo livros que representam marcos para mim. absolutamente arbitrários.

Salvo engano, a Lista foi:

1. Lavoura Arcaica – Raduan Nassar

2. Haroum e o mar de Histórias – Salman Rushdie

3. Conversa na Sicília – Elio Vittorini

Pálido Colosso – Comentários Breves

Monday, August 30th, 2010

Por Fernando Torres,

Assisti neste sábado a peça Pálido Colosso, montagem do da Cia. do Feijão, e, embora entenda pouco de teatro,achei interessante fazer alguns comentários.

A peça conta, de forma bem humorada e crítica (ao mesmo tragicômico) a história política do poder central Brasileiro. Com referências culturais ricas faço destaque para o momento em que os torturadores em 74 passam dos limites e o regime militar começa a ruir. A metáfora escolhida é a derrota do Brasil para a Holanda (a Laranja Mecânica) na Copa do Mundo do mesmo ano. Na cena, um torturador, quase que acidentalmente torce contra a Seleção Brasileira, vestido como um dos personagens do filme Laranja Mecânica. Como gosto de futebol, consegui ver na cena os lances deste jogo que tenho na memória (que assisti em VT, antes que alguém questione), o descontrole do regime é idêntico ao descontrole daquele time sem líder ou comando.  O futebol brasileiro ruiu ali da mesma maneira que ruiu o regime à partir daquele mesmo ponto. O interessante é que geralmente se associa o futebol com a política em referência à Copa 70′, porém a metáfora parece funcionar ainda melhor na competição seguinte .

PÁLIDO COLOSSO

com Fernanda Haucke, Flávio Pires, Guto Togniazzolo, Patricia Barros, Pedro Pires e Vera Lamy; direção de Pedro Pires e Zernesto Pessoa.

Reestréia: 27 de agosto de 2010 – 21h

Temporada: até 14 de novembro de 2010, sempre de sexta a domingo


Horários: Sextas e sábados às 21h, domingos às 19h


Ingressos: GRÁTIS – mediante senhas retiradas na bilheteria uma hora antes das apresentações


Capacidade: 50 lugares


http://www.companhiadofeijao.com.br/

Conto curto sem título

Thursday, August 19th, 2010

Por Fernando Torres,

Encontrou uma velha agenda que julgava ter perdido antes do casamento. Tinha, naqueles tempos pospúberes  de rabiscá-la enquanto falava no telefone e organizar seu dia naqueles papéis. Folhou desinteressadamente em busca de alguma informação peculiar. Nomes, tarefas, listas, desenhos e rabiscos. Eventualmente, no pé da página, final de dia, um nome de mulher. Variações do mesmo tema, repetições rotineiras. Perto das festas, semanas derradeiras, a novidade, um guardanapo com o nome e telefone de sua esposa.  Naquele natal comprou um palmtop.

Novos Diálogos Curtos

Wednesday, August 18th, 2010

Por Fernando Torres

Dois amigos:

- Apagaram minha conta de Facebook. Sou Homónimo de um jogador de Futebol.

- Quem mandou ter nome igual a ele?

- Ele que tem o nome igual ao meu, sou mais velho.

- Mas ninguém nunca te viu chutar uma bola.

- Nem ele a escrever diálogos curtos.

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Duas senhoras no ônibus:

- Me disseram que eu não tenho pobrema, mas problema.

- Eles não entendem. Problema é o que você resolve na escola. Pobrema é o que você tem na vida.

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- O senhor deixou cair esse papel.

- Não. Joguei no chão mesmo.

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- Mãe, por que você se apaixonou pelo papai?

- Ah… Ele era muito engraçado.

-  Nossa! E o que aconteceu com ele?

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- Aquele Francês falou que feijoada tem aparência de merda.

- Deve ter gostado, para quem só come caramujo e carne de segunda…

Entrevista direto da Bienal do Livro

Sunday, August 15th, 2010

Por Fernando Torres

daqui a pouco vou para à Bienal do Livro de São Paulo. Vou novamente para passear. Porém às 16 horas dou entrevista na Rádio Nova Difusora 1540 AM, ou no site http://www.novadifusora.com.br/, para a jornalista Andrea Barros no programa “Na Rota do Emprego”.

Terça-Feira, dia 17, das 18h às 20h estarei no Estande da Editora Multifoco para autografar meu livro “Estudos sobre a Leveza”. Espero vocês lá.

Diálogos curtos

Saturday, August 14th, 2010

Por Fernando de F. L.  Torres.

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Três professores universitários entram em um elevador:

- Quando eu era pequeno eu  pequeno eu queria me chamar Roberto – disse o professor de sociologia.

- Engraçado, eu queria é ser astronauta – respondeu o professor de direito.

- Eu queria ser Girafa – complementou o professor de filosofia.

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Dois senhores no banco preferencial no vagão do metrô:

- O senhor é idoso? – perguntou o decano.

- Tenho 59 anos – respondeu o outro.

- Cristão?

- Sim

- Machista?

- Também.

- Tem cara.

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Dois colegas de trabalho:

- Você viu a última Playboy?

- Não vi, mas me disseram que a moça está…

- Deslumbrante.

- Isso, foi bem isso que me disseram.

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- Seu pai se animou a casar comigo.

- Hum.

- Acho que foi a nova lei do divórcio. Você não quer falar com sua mãe para resolver isso?

- Não.