Cisne Negro Cisne Branco Cisne – Por Daniel Feltrin

Wednesday, March 2nd, 2011

Quando o grotesco chega ao seu extremo ele se torna sublime, e vice e versa, diria Vitor Hugo com palavras mais belas do que estas. Essa lógica perpetuada pelo romancista romântico francês no prefácio para sua peça Cromwell se encaixa perfeitamente na impressão mais básica que temos ao assistir o filme Cisne Negro, de Darren Aronofsky. O filme é uma progressão de cenas belas e horríveis numa dinâmica que só pode ser bem representada mesmo como um balé. Uma dança magnânima de todos envolvidos no projeto para contar esta história de horror e beleza da forma mais sombria e bela ao mesmo tempo.
O uso de duplos adjetivos não é à toa. A própria trama é a clássica psicologia do duplo, o famigerado doppelgänger, que atormenta a pobre e ingênua bailarina Nina para fora dos limites de seu frágil corpo. Acontece que Nina necessita que esta sua contraparte mais sombria se manifeste para que ela possa atender aos desejos mais íntimos do obsessivo diretor da companhia de Balé (o fantástico poliglota Vincent Cassel) e se tornar a Rainha Cisne perfeita.
O balé O Lago dos Cisnes de Tchaikovsky é um ápice da musica romântica e permeia o filme todo com as variações e composições originais do companheiro de Aronofsky, Clint Mansell (o criador do famoso tema de Réquiem para um Sonho, imortalizado pelo quarteto Kronos e as dezenas de usos do tema contagiante), e a música, como não poderia deixar de ser, é um coadjuvante quase protagonista, mas esta tem seu ritmo próprio, mais sombrio que combina com a dualidade do filme.
Personagem dupla, compositores duplos, adjetivos duplos complementam é claro a duplicidade da abordagem do filme. Aronofsky é claro tem o seu estilo todo próprio de escrever e dirigir suas histórias, e em Cisne Negro não é diferente. Está lá a inclinação para a tragédia em cima de personagens que se levarão ao limite em troca do objetivo a alcançar, inclusive a autodestruição. Caso dos personagens de Réquiem para um Sonho e é claro, do Lutador, o The Ram, que para mim é um dos melhores finais de filme de todos os tempos. Essa tendência à tragédia típica de uma dramaticidade tão clássica que se encontra nos personagens do diretor, no entanto é tão individualmente modernizada que nós sabemos de imediato que estamos vendo um filme de Aronofsky.
E esta outra dualidade que é tão bem feita em Cisne Negro. Ela é catártica, clara e não deixa rastros pra dúvidas. O engraçado, e talvez o genial, disso tudo é que a temática do Grotesco/Sublime tão romântica e oitocentista contrastada à visão das câmeras tão introspectivas de Aronofsky que só podem ser pós-Freud, são tão diferentes entre si que combinam de forma clara como um copo dividido entre água e óleo. Dado à trama do filme a raison d’être do filme se completa perfeitamente.
E quem melhor para ajudá-lo nesta tarefa do que Natalie Portman cuja beleza é tão clássica, mas a fragilidade quase andrógina de seu corpo é tão moderna? A dedicação desta atriz se confunde com a de seu personagem a tal ponto que nós perguntamos quem é Natalie e quem é Nina, e de certa forma, por isso, Natalie leva o filme para si e o domina.
Cisne Negro é um filme estético, feito para provocar sensações, e isso é feito da melhor forma romântica. Poe se orgulharia. A película tem uma história simples, até de domínio público, a modernização é puramente circunstancial e o trama é facilmente previsível, mas o que conta é o produto final e é aí que o filme é bem sucedido. Cisne Negro é a realização material e catártica de toda temática Aronofskyana. É a estética dos closes psicológicos, das impecáveis atuações, da edição, da musica e é claro das imagens que nos levam como bonecos de vodu por toda a nossa tessitura sensorial.
Uma experiência altamente recomendável.

Moacyr Scliar

Monday, February 28th, 2011

Por Fernando de F. L. Torres

Estive com Moacyr Scliar quando tinha não mais que 8 ou 9 anos. Em um evento da escola em que estudei ele autografou o livro Navio das Cores, que muito havia me impressionado pelas pinturas de Lasar Segall.

Lembro de Scliar ter sido carinhoso comigo.  Não lembro muito mais que isso. Já mais velho, sempre li seus textos na Folha de São Paulo com especial atenção.

Navio das Cores é um dos livros essenciais da minha formação. Talvez eu ainda entenda arte sobre o prisma infantil de quem se impressionou com este livro.

Fica aqui minha homenagem ao autor.

O problema das Academias de Arte

Thursday, January 27th, 2011

Por Fernando de F. L. Torres,

É chegada a época das nomeações do prêmio popularmente conhecido com Oscar. Porém, o prêmio oficialmente atende pela alcunha de Academy Awards, ou seja, o prêmio da Academia. Mas eu me pergunto: que significa uma academia de artes?

Não quero entrar no mérito da nossa mais conhecida academia de artes no Brasil ser a de Letras, com seus escritores de nenhuma relevância para nossa literatura.

Quero questionar: o que é e para que serve uma Academia de Artes? Os grandes astistas, tal quais Van Gogh nunca tiveram aceitação das academias de artes. Aliás, historicamente as academias rejeitaram a vanguarda sistematicamente.

A Academia que organiza o Oscar não é diferente. Sistematicamente seus membros escolhem filmes que representam a manutenção do enlatamento da indústria cinematográfica norteamericana (com raras exceções) .  Que eu me lembre, o filme estrangeiro mais premiado nos últimos 20 anos foi “A vida é bela”, que é uma exaltação aos valores cinematográficos de Hollywood.

Não acho todo o cinema norteamericano reprovável. Existem bons profissionais comprometido com bons filmes e alguns raros comprometidos com a vanguarda. Do Festival de Sundance eventualmente surge filme interessantes e pessoas como Charlie Kauffman ainda existem. Mas em sua imensa maioria, o enlatamento impera nos filmes.

O Oscar dificilmente premiará o excelente “O Mágico” como melhor animação, como não premiou Fernanda Montenegro quando teve oportunidade. O prêmio de Javier Barden, se vier, terá o mesmo valor que o Cristian Bale, que concorrem mais por serem bonitos que por serem bons atores (um bem mais do que outro).

Sobre esta ou outra Academia de Artes? I’m not there. Que eles fiquem com suas carecas e com suas exaltações, que eu fico com minha vanguarda e com minha juventude.

Auschwitz – A fotografia dos sapatos

Tuesday, January 11th, 2011

Foto: Museu Auschwitz – http://en.auschwitz.org.pl

Por Fernando de F. L. Torres,

Dentre todas fotos do campo de concentração de Auschwitz, as que mais me impressionam são aquelas que mostram os pertences dos executados.

É como se naquelas só pudessemos reparar nas ausências. De um sapato, faltam pés e pernas. E continuamos sentindo falta até percebemos que nas fotos faltam uma multidão de pessoas.

Acho que foi Primo Levi que me fez entender quem foram aquelas pessoas. Ele me deu personagens para aqueles sapatos. Mas nenhum deles pertenceu a ele.

Entre Anne Frank e Primo Levi, fico com o segundo. Seu texto não inspira pena, não te pede compaixão. Os horrores da guerra não são maniqueístas. Muitos alemães são capazes de atos de compaixão, como muitos prisioneiros são tão cruéis como os carcereiros. A história é dura e dela sobraram sapatos.

Alterações Póstumas na obra

Friday, January 7th, 2011

Foto: Museu Auschwitz – http://en.auschwitz.org.pl

Por Fernando de F. L. Torres,

Ontem, no Twitter, o escritor Paulo Coelho reclamou das alterações que uma editora norte americana está implementando no livro Huckleberry Finn, para excluir a palavra “Nigger” do texto (veja notícia sobre o assunto aqui, em inglês).

A mesma discussão ocorreu anos atrás com Ernest Hemingway, quando seu neto alterou sua auto-biografia Paris é uma Festa (veja aqui).

Alguns falam em botar o dedo na obra de Monteiro Lobato, para torná-lo mais adequado.

Os (não mais que três) habituais leitores desse espaço já podem supor que creio ser um crime a prática de alterar uma obra de arte dessa forma. Um livro, um filme, uma pintura etc, são documentos de seu próprio tempo, e como tal, adequá-los é uma forma brutal de tentar mudar a história.

No excelente livro “Lembrar escrever esquecer” Jeanne Marie Gagnebin fala  da delicada tarefa de preservar a história e seus documentos, por mais dolorosos que sejam essas memórias, pois apenas assim é possível refletir sobre os erros do passado sem repeti-los. Muito disso vem da “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimmer.

Em suma, se Tom & Jerry fumavam cigarros, se Han Solo atirou primeiro, se Hemingway revelou passagens constrangedoras da vida de sua ex-esposa, se Monteiro Lobato ou Mark Twain usavam vocabulário racista, é importante lembrar que assim era a obra original, imersa em seu tempo. Acho importante, não apenas manter integralmente a obra original, como acrescenta Notas de Rodapé em cada uma dessas obras quando reeditadas, documentando que, apesar de admiradas em seu conjunto, alguns pontos dela não condizem com os valores do tempo que são reeditadas.

Lembro-me de me contarem a história (ou de ter lido em algum lugar) que quando o exército americano chegou à Auschwitz, o comandante das tropas ordenou que nada fosse destruído e que cada um dos soldados usassem suas cameras fotográficas para registrar os horrores daquele lugar, que jamais poderia ser esquecido.

Da mesma maneira, Primo Levi, que foi prisioneiro em tal campo de concentração, dedicou boa parte de sua obra à manter viva a memória dos horrores do Nazi-Facismo das décadas de 1930-1940.

Os esforços para manter essa memória até o momento foram bem sucedidos, filmes e livros continuam ser escritos passados 70 anos.

Porém a tendência de “Revisionismo” (Se preferir “Negacionismo”) me preocupa. Sem memória tenderemos ao erro novamente, à opressão. Nunca se esqueçam que o emprego do protagonista de 1984 era exatamente de “corrigir” os jornais antigos, para que eles fossem mais adequados. O autoritarismo caminha de mãos dadas ao esquecimento da história, principalmente dos erros do passado.

Talvez um dia apaguem todo e qualquer registro de preconceito da cultura. Talvez um dia Auschwitz seja completamente esquecido. Nesse dia, provavelmente aparecerá alguém com ideias segregacionistas, e a humanidade não estará preparadas para rejeitá-las.

Copa da Literatura Brasileira – Ausências

Thursday, January 6th, 2011

Por Fernando de F. L. Torres

Como já relatado aqui, a Copa de Literatura Brasileira voltou. Este ano participo como jurado e organizador ao lado de Lucas Murtinho e Lu Thomé.

Assim, que a notícia atingiu a internet, muitas ausências foram notadas. O jornalista e escritor (concorrente ao prêmio neste ano), em seu blog notou a ausência de “Pornopopéia” de Reinaldo Moraes e “Leite Derramado” de Chico Buarque. Outras pessoas notaram também a ausência de “Minha alma é irmã de Deus” de Raimundo Carrero (vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura) e do excelênte “a morte de paula d.” de Brisa Paim.

A resposta oficial da equipe de organizadores e da qual sou signatário foi:

Oi Sérgio!

Teu post sobre a Copa de Literatura carrega muito do espírito do próprio projeto: não buscamos a unanimidade literária, e sim o debate, as discussões e as diferentes opiniões sobre a produção ficcional brasileira contemporânea (e, claro, sobre a Copa também!).

Sobre a escolha dos livros: a comissão organizadora fez uma lista prévia com um grande número de possíveis concorrentes. Essa primeira lista foi submetida à votação de todo o grupo de jurados da edição 2010/2011. Daí saíram os dezesseis romances que vão participar da CLB 2010/2011. “Leite derramado” e “Pornopopeia” entraram na lista prévia mas não ficaram entre os dezesseis mais votados, e cada jurado tem uma explicação diferente para ter votado a favor ou contra esses livros.

Detalhe importante: esta é a primeira Copa em que a comissão se preocupou com o critério de diversidade de editoras. Quando vimos que uma editora estava com muitos livros da Copa, fizemos uma repescagem. A ideia é evitar uma “Copa de Literatura da Editora X”.

Claro, uma ou outra exclusão pode ter sido injusta – assim como o resultado de um ou outro jogo será injusto. Na nossa opinião, faz parte da graça da Copa.

Obrigado!

Equipe Copa de Literatura Brasileira (Lucas Murtinho, Fernando Torres e Lu Thomé)

Porém, gostaria de dissertar um pouco sobre tais ausências, não como organizador, mas como jurado e observador do processo.

Antes de mais nada, gostaria de ressaltar um fato curioso. Ninguém me apontou, até agora a ausência do romance “O Seminarista” de Rubem Fonseca ou “Gonzos e Parafusos” de Paula Parisot (sua apadrinhada). Assim, ficou de fora um figurão da literatura nacional e um dos grandes investimentos de marketing do ano passado, e parecem não fazer falta à ninguém.

A escolha dos livros é feita por seus próprios jurados, de acordo com os livros que querem colocar em discussão. Talvez por muito já ter sido dito dos de “Leite Derramado” e “Pornopopéia”, os jurados podem ter se desinteressado pela discussão.

Da minha parte, acho que para muitos Chico Buarque está acima do bem e do mal. Existe uma verdadeira religião fundamentalista à sua volta, o que torna qualquer discussão sobre seu romance inútil. Sinceramente para que discutir um romance (na minha opinião, muito fraco) que qualquer resultado dos jogos que ele participar será questionado por motivos não literários? Para que bater de frente com uma legião de fãs irracionais, que tem ao seu lado a derramada resenha de Roberto Schwarz? Infelizmente, a celebridade de Chico Buarque impede o debate literário de sua obra. Sinceramente? A Copa de Literatura Brasileira já tem polêmica demais sem o Chico. De certa forma, faço minha as palavras de Ivana Arruda Leite na época do Prêmio São Paulo de Literatura.

Quanto ao Pornopopéia, não sei se ele é a unanimidade que seus defensores pregam. Ao meu ver os jurados não pareceram animados em julgar o calhamaço de trocentas páginas na Copa. Talvez a geração do desbunde esteja saindo de moda, talvez eles tenham se tornado datados ou empoeirados, por mais irônico que isso pareça.

Quanto à Raimundo Carrero, parece um consenso  que o prêmio São Paulo foi dado a ele mais pelo conjunto da obra que pelo romance em si. Passou batido entre os jurados, que sequer discutiram sua inclusão.

Por fim, gostaria de ressaltar que Brisa Paim ficou de fora pelo motivo exatamente contrário de Chico Buarque. Simplesmente muitos dos jurados não a conheciam. A indicação ao prêmio São Paulo ajudou muito a divulgação de seu livro, mas infelizmente não foi o suficiente para os jurados brigarem por sua inclusão na Copa. Fui voto vencido nesta.

E-Reader, primeiras impressões

Tuesday, January 4th, 2011

Por Fernando de F. L. Torres,

Não costumo ser early user de tecnologias. Embora eu goste de gadgets, costumo esperar a terceira ou quarta geração de algum eletrônico antes de adotá-lo. A razão é simples, os usuários de primeira hora geralmente compram aparelhos que ficam obsoletos mais rapidamente e pagam caro por isso.

Muito embora os E-Readers com E-Paper sejam aparelhos com algum tempo de mercado lá fora, foi em 2010 que eles ganharam as prateleiras do mercado brasileiro. O primeiro foi o Cooler, comercializado pela Gato Sabido. Deixei passar a novidade. Achei por bem esperar, as livrarias e editoras ainda não haviam sem manifestado sobre um padrão, e lá fora o Kindle estava com tudo. (Ressalto a questão PAL-M/NSTC, como exemplo, ou mesmo a recente decisão do governo acerca do padrão HD.)

Assim que as principais livrarias e editoras resolveram adotar o padrão EPUB para os livros digitais (Livraria Cultura, Saraiva, Cia. das Letras etc) achei seguro comprar um aparelho, o escolhido foi o Positivo Alfa.

Antes de mais nada, a tecnologia E-Paper funciona. Uma vez que não há emissão de luz a leitura não cansa os olhos.  O aparelho é leve e anatômico. Acho importante ressaltar que neste ponto o E-Reader atinge seus objetivos iniciais, que é proporcionar a leitura de livros em versão digital de forma confortável.

Porém, para aqueles que gostam de anotar no livro, grifar e interagir, o Positivo Alfa ainda apresenta uma série de limitações. A escrita não é exatamente seu forte. Quem tiver esse hábito, talvez seja melhor escolher um aparelho com teclado, tal como o iRiver.

Outro detalhe importante é que o Wi-fi funciona muito bem. O que proporciona a possibilidade de ler notícias e feeds com facilidade.

Para quem está acostumado com Smatphones e Handhelds a sincronização parecerá estranha com o Software da Adobe. Mais que estranha, parecerá antiquada. O próprio Software da Adobe deixa a desejar quando comparado aos softwares dos smartphones e Handhelds (comparo por experiência com Blackberry, iPhone, Nokia e Palmone). O aparelho funciona bem com o software Calibre, mas ainda não testei a transferência de livros comparados na internet para o dispositivo via Calibre.

O primeiro livro que comprei foi “Solar” de Ian McEwan. Comprei via Livraria Cultura e não demorou muito para que eu recebesse o e-mail com o link do livro.  A variedade de livros ainda é pequena (a Cia. das Letras disponibilizou 12 títulos até o momento, por exemplo).

A leitura de PDF é um pouco mais complicada. Enquanto o texto do EPUB é adaptável à cada página conforme o tamanho da fonte, o texto em PDF continua a respeitar a paginação em que ele foi gravado, o que por vezes torna a fonte pequena.  A solução é ler com o E-reader  no formato paisagem, o que gasta um pouco mais de bateria, mas garante certo conforto.

A bateria parece ser legal, ainda não tive de recarregar e já li um livro praticamente inteiro.

Enfim. Nos próximos posts, deixarei de lado a tecnologia e voltarei a falar de literatura e artes.

Ciclos

Monday, January 3rd, 2011

Por Fernando de F. L. Torres,

Quando Zeus derrotou seu pai Chronos, este foi aprisionado. Porém Chronos foi preso pelo pé, podendo apenas andar em círculos, o que fez com que o tempo dos mortais fosse pautado assim, em ciclos. As quatro estações do anos, os três momentos da vida de um homem, a maré etc. a vida pautada em ciclos.

O ano é um ciclo arbitrário, uma aproximação mais ou menos precisa das estações do ano (embora para muitos ele represente um ciclo em volta do sol).

Acabado mais um ciclo e começando outro tenho que começar este com novidade.

1. Final do ano produzi 100 exemplares de um plaquete chamado “Fim da Tempestade” e estou distribuindo entre amigos e parentes. Gostei da brincadeira e este ano devo produzir outros títulos de plaquetes, com tiragens menores (entre 30 e 50 exemplares). Todos os exempleres dos meus plaquetes serão numerados.

2. Preparo um texto para a primeira edição da Revista Rinoceronte. O texto é inédito e provavelmente será o primeiro capítulo do livro que estou trabalhando. O texto não foi avaliado pelos editores da revista, mas caso não seja aprovado darei um jeito de publicar em outra revista.

3. Pretendo escrever um texto a cada dois meses para o Aguarrás, já tenho pelo menos três deles em rascunho. Um sobre Lima Barreto e outro sobre Ricardo Lísias, o terceiro ainda não posso divulgar.

4. A Copa de Literatura Brasileira vai começar dia 28 de Fevereiro. Prometo!

5. Na realidade a Copa de Literatura Brasileira já está pegando fogo nos bastidores.

6. Esse natal comprei um e-reader. Já li dois livros nele. Esse ano não compro mais papel, salvo em caso de necessidade. Mas eu não estou preparado para largar o papel, mas reservarei a ele apenas as edições ultra especiais.

7.  Tentarei dar notícias menos esparsas esse ano.

Já que você não está fazendo nada

Thursday, December 16th, 2010

Por Fernando de F. L. Torres,

Tenho quase certeza que você já enfrentou essa situação: acordou um sábado de manhã, ainda de pijama resolveu ler aquele livro que está na sua mesa de cabeceira, quando sua/seu (namorada/o, esposa/marido, noiva/noivo, mãe, pai, cachorro, gato, galinha) olha para você e diz “Já que você não está fazendo nada…” e te pede para realizar uma tarefa.

Para começo de conversa, a pessoa inicia o pedido com uma premissa errada, você está fazendo alguma coisa, você está lendo. Se você tivesse alugado um filme e colocado o disco no seu DVD, a pessoa não pediria para você realizar aquela tarefa, se você ligasse o computador e ficasse se distraindo com as famosa mídias sociais, não haveria pedido. Mas não, você está lendo.

Meu caso se agrava, alguns anos atrás decidi ser escritor profissional. Porém nunca abandonei a ideia de ser advogado (nem abandonarei). Por consequência, tento aproveitar o tempo livre para colocar a leitura em dia. De tal forma, quando estou lendo em um sábado de manhã, estou trabalhando. E sim, considero absolutamente válido trabalhar de pijama, aliás, todo mundo deveria trabalhar de pijama de vez em quando para ver como é bom.

Quando percebi que situação era reiterada, resolvi mudar de tática aos sábados pela manhã. Passei a acordar, preparar o café-da-manhã, arrumar a cozinha, tomar banho, vestir uma roupa, vistoriar a casa por possíveis tarefas, perguntar se alguém precisa de ajuda e então sentar ao meu sofá com um livro. Mas ali no segundo parágrafo a/o (namorada/o, esposa/marido, noiva/noivo, mãe, pai, cachorro, gato, galinha) e quer conversar. Afinal, você não está fazendo nada e é um ótimo horário para conversar sobre a semana, fofocas da família, aquele texto que a Camila publicou no Mundo Mundano…

Acredite, tenho o maior prazer de conversar com as pessoas. Sou capaz de perder a hora quando estou ao redor de uma mesa. Adoro quando o o almoço vai até o sol se por numa boa conversa, ou o jantar entra na madrugada acompanhado de pessoas queridas. Quando vou para casa do meu avô passo horas com ele entre chistes e bromas, sentado na mesa tomando um Mate-Couro (refrigerante típico de Minas Gerais) ou um café e pão com manteiga. Ou seja, não enfio meu nariz no livro para fugir de pequenas tarefas domésticas ou interação com as pessoas, mas por que ler é um objetivo em si mesmo.

Mesmo que eu quisesse aproveitar um tempo sem fazer nada, em meus pensamentos, sem o barulho da televisão ou do rádio. Organizar umas ideias ou descansar a cabeça daquelas trinta e cinco mil atividades que você teve durante a semana. Isso não é válido? Ficar um pouco em silêncio? Ficar quieto? Ficar sem fazer nada? Por favor…. só um pouquinho!

Mas agora estou com uma nova tática. Leio meus livros na frente do computador ligado. Por enquanto está funcionando.

Não confie em um escritor

Monday, December 13th, 2010

Por Fernando de F. L. Torres,

Entre tantos conselhos que darei à minha pequena Madá (filha que ainda não tenho, mas que está nos meus planos para esta década), tais como não falar com estranhos e sempre ter um cartão telefônico para emergências (na minha adolescência eu sempre tinha fichas), estará o de não receber homenagens daqueles que se dizem escritores.

Eu me disfarço bem no dia a dia. Se alguém me pergunta eu logo digo: Sou advogado. Gosto de ler e escrevi um livro, mas bom escritor não se diz escritor. É jornalista, Advogado, Vagabundo ou qualquer outra coisa menos escritor.

Mas acontece que, ao final de um longo dia de aula, em que alunos de diferentes turmas de pós graduação em direito (Trabalhista, Contratos, Tributário, Educacional etc) tiveram aula no mesmo auditório para o encerramento do ano letivo, uma das assistentes de uma das turmas com quem por vezes converso me aborda e diz com brilho nos olhos: “Ganhei uma crônica!”

Atônito, penso logo em doença. Crônica? penso eu – Apendicite? Será? Mas minha querida amiga, complementa: “Aquele aluno é escritor, disse que vai escrever uma crônica sobre mim.” Eita! Penso eu.

Aquelas palavras, ditas com tanto gosto. Ele. É. Escritor. Será que revelo, que por trás desse advogado com barba por fazer, que passa os sábados em curso de Pós Graduação, existe um escritor? Que publiquei meu primeiro livro este ano? Que recebi um certo retorno crítico positivo? Que… nada mais.

Não. Não posso. Não devo.

Pensei em questioná-la: Escritor do que? Onde? Que livros publicou? Mas hoje qualquer um é escritor, basta um blog e alguma disposição. Mas, quantas crônicas será que escreveu o personagem da nossa conversa para as jovens mulheres? Você vai verificar se a obra é original? E a qualidade literária dela, importa?

Mas não fiz nada disso. Com a certeza de que todo escritor deveria querer queimar cada um dos seus originais (como foi Kafka) ou roubar exemplares de seus livros da casa de amigos (como Dalton Trevisan) ou se esconder da fama (J. D. Salinger e Raduan Nassar). Desprezo o rapaz.

Que coisa feia! Usando o nobre nome da literatura indevidamente? Mas a Literatura não tem nada de nobre. Nem sei para que ela serve, nesse mundo em que tudo deve ter uma serventia. Mas para isso eu acho que não é. Ou é?

Já sei!

Entendi!

A literatura (pelo menos a boa) é essencialmente uma mentira. Uma mentira cuja verosimilhança lhe dá ares de verdade. É, portanto, como qualquer mentira bem contada, perigosíssima. Nas mãos erradas pode causar danos catastróficos.

Cuidado menina! Se um escritor lhe oferece uma literatura-flerte, saiba que ele está lhe oferecendo uma mentira-flerte. Vinicius de Morais até tem seu charme canalha (“que seja eterno enquanto dure”), mas nem todos são o poetinha.

Como não pude dar o conselho a tempo para minha amiga, guardo para minha filha: Não confie em escritores, a mentira é sua matéria prima.