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	<title>Arlequinal &#187; Eric Novello</title>
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	<description>Cultural e Coletivo</description>
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		<title>A crise dos 30</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Sep 2009 16:50:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Video]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Eric Novello &#8220;Google Book Search y la empresa On Demand Books anunciaron ayer un acuerdo que permitirá imprimir a medida, en tiendas de todo el mundo y en apenas cuatro minutos, los dos millones de libros que Google ha escaneado a lo largo de los últimos cinco años y cuyos derechos de autor ya [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Eric Novello</p>
<p>&#8220;Google Book Search y la empresa On Demand Books anunciaron ayer un acuerdo que permitirá imprimir a medida, en tiendas de todo el mundo y en apenas cuatro minutos, los dos millones de libros que Google ha escaneado a lo largo de los últimos cinco años y cuyos derechos de autor ya no están vigentes. Es decir, <em>Hamlet, Moby Dick </em>y todas las obras anteriores a 1923, incluidas las descatalogadas&#8221;. &#8211; no<a href="http://www.elpais.com/articulo/cultura/Google/Books/ahora/medida/elpepucul/20090918elpepicul_5/Tes" target="_blank"><strong> El País</strong></a>.</p>
<p>Estou com trinta anos. Preservo a experiência da compra do livro. Gosto de entrar em livrarias grandes onde eu me perca, o equivalente a bater pernas por aí. Por outro lado, sou um entusiasta de novidades tecnológicas e é óbvio que nada podemos contra o futuro. A dúvida não é se, mas quando ele virá.</p>
<p>Meu sobrinho de 8 anos perguntou à mãe o que era um videocassete. Respondi que ele não perdeu nada em não saber. E não perdeu mesmo. Quando contei para ele da &#8220;<a href="http://www.youtube.com/watch?v=2cUEANKv964" target="_self">Chegada do Trem</a>&#8220;, dos irmãos Lumière, e da possível reação da platéia (alguns teriam saído da sala de projeção, pensando que seriam atropelados), ele me perguntou: mas era em 3D?</p>
<p>Nós que vivemos as transições nos agarramos à memória, a certezas de coexistência que nem existirão para as gerações vindouras.  No fim das contas, o que vale é a impermanência. Impermanência que não permite um fim das contas. Nem um ponto final nessa história.</p>
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		<title>Oficinas literárias</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 13:13:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;(&#8230;) a inexistência desse tipo de curso é reflexo de outro tipo de elitismo em relação à literatura. Ninguém estranha que exista uma faculdade de cinema, por exemplo. Ou de artes plásticas. Por que é estranho existir uma de redação criativa? Porque o verdadeiro conhecimento literário é logo associado ao gênio, o campo por excelência [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify">&#8220;(&#8230;) a inexistência desse tipo de curso é reflexo de outro tipo de elitismo em relação à literatura. Ninguém estranha que exista uma faculdade de cinema, por exemplo. Ou de artes plásticas. Por que é estranho existir uma de redação criativa? Porque o verdadeiro conhecimento literário é logo associado ao gênio, o campo por excelência da criatividade infalível. Sendo assim, é natural que não haja receptividade nas academias para um curso que desmistifica isso, que mostra o quanto escrever é uma atividade como qualquer outra, que qualquer pessoa pode aprender sem a obrigação de se tornar um grande escritor, mas se tornando pelo menos capaz de manejar as ferramentas. Os departamentos de letras atacam os cursos de creative writing dizendo que talento não se ensina, mas também tem um monte de medíocre saindo da faculdade de arquitetura, engenharia, medicina, música, artes plásticas, etc&#8221;. &#8211; Rodrigo Lacerda para o jornal <a href="http://rascunho.rpc.com.br/" target="_blank"><strong>Rascunho</strong></a> de setembro. Excelente.</p>
<p style="text-align: justify">Não consigo dimensionar o prazer que foi ler o que penso nas palavras de outra pessoa. Sendo, no caso, a outra pessoa editor da revista Serrote e autor de O mistério do leão rampante, A dinâmica das larvas, Fábulas para o ano 2000, Tripé, Vista do Rio e O fazedor de velhos.</p>
<p style="text-align: justify">Ele termina com um conselho para quem quiser se dedicar à literatura como escritor:</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Faça seu próprio cânone. Quanto mais idiossincrático, mais ele refletirá o seu processo de comunhão com a literatura. Mas esteja sempre pronto para rever suas opiniões&#8221;.</p>
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		<title>Da série: editor mete a colher</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Sep 2009 13:02:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;— Eu fiquei chocada — contou a escritora, que terá outros quatro livros publicados no país até março do ano que vem. — Escrevo para as minhas amigas, da minha idade, e meu editor tira todos os palavrões. Acho que as garotas gostam porque é um pouco picante. Mas era muito mais quando escrevi originalmente&#8221;. &#8211; Meg [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;<span style="font-family: Verdana;font-size: x-small">— Eu fiquei chocada — contou a escritora, que terá outros quatro livros publicados no país até março do ano que vem. — Escrevo para as minhas amigas, da minha idade, e meu editor tira todos os palavrões. Acho que as garotas gostam porque é um pouco picante. Mas era muito mais quando escrevi originalmente&#8221;. &#8211; Meg Cabot no Prosa Online. </span></p>
<p><span style="font-family: Verdana;font-size: x-small">Não importa o quanto você venda (15 milhões de exemplares), o editor sempre mete a colher.<br />
</span></p>
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		<title>Bienal?</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 19:55:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu não gosto da Bienal. Quando digo isso, como autor, as pessoas dizem “oh”, mas por quê? Na verdade, tenho uma implicância com a Bienal do Rio de Janeiro. Ela é óbvia e eterna. Como podem achar que o Riocentro é lugar para qualquer coisa que dependa de público? Se você não é do Rio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify">Eu não gosto da Bienal. Quando digo isso, como autor, as pessoas dizem “oh”, mas por quê? Na verdade, tenho uma implicância com a Bienal do Rio de Janeiro. Ela é óbvia e eterna. Como podem achar que o Riocentro é lugar para qualquer coisa que dependa de público? Se você não é do Rio e nunca foi a uma Bienal por lá talvez não saiba que o Riocentro é um buraco inacessível, que só chega quem tem carro e, mesmo assim, chega demorando, enfrentando trânsito e pagando os tubos por uma vaga no estacionamento. Toda vez que surge um novo espaço para eventos na cidade, a primeira pergunta feita é sempre “será que a Bienal vai para lá?” e os responsáveis pelo Riocentro logo dizem que ele não “perderá” a Bienal.</p>
<p style="text-align: justify">Aí, é claro, aparece muito timidamente um esquema de vans e ônibus que deixam na porta de entrada. Uhum. Porta de entrada é um conceito vago em eventos de grande porte. Da última vez que fui à Bienal do Rio, peguei um ônibus cadastrado como uma das linhas que passava perto. Por sorte, consegui saltar no lugar certo. Sendo lugar certo o meio da estrada, atrás do Riocentro num buraco deserto, só eu e dois amigos que estavam comigo. Depois de muito andar, cheguei na tal da porta. Van é ótima para voltar, porque aí sim ela já está na porta, te esperando, mas também te larga nos lugares mais improváveis, pelo menos dentro da cidade.</p>
<p style="text-align: justify">Aí vim para São Paulo. Bienal de Sampa, uau. Menor que a do Rio, foi a minha impressão. Um galpão ao invés de três, mas pelo menos você consegue ir e voltar. O metrô de Sampa deixa você perto o suficiente do local. De lá, ônibus que realmente pertencem ao evento ou um taxi que sai barato, porque é perto de verdade. Fiquei impressionado que alguém tenha pensado nisso, pelo menos, numa cidade onde tudo parece longe.</p>
<p style="text-align: justify">Mas aí sobra a Bienal em si. Serve para quê? Para divulgar a literatura não, sinto muito. Ela deveria ser um negócio, mas tenho dúvidas sobre isso também. A Bienal faz tempo perdeu sua função. A última teve queda de público. É uma ilusão achar que a feira do livro tem preço de feira. Ela custa caro. Com preços mais altos do que o das lojas convencionais, as que ficam no caminho de casa, no shopping depois do almoço.</p>
<p style="text-align: justify">Minha maior frustração foi entrar nos espaços de exposição e descobrir que eles não vendiam livros. Só mostravam: olha existe esse livro aí, existe esse autor. As atendentes não sabiam me dizer quem era o autor, nem a importância do livro, mas sabiam dizer que não vendiam. Não vendiam porque para montar uma barraquinha (ué, não é uma feira?) na Bienal é preciso pagar muito dinheiro. Se você só expõe, paga menos. Se você quer vender, paga mais. E paga muito mais. Então é uma espécie de vitrine, também conhecida como espaço inútil. Um monte delas.</p>
<p style="text-align: justify">Estava procurando livros em espanhol, especificamente. Ninguém tinha um preço melhor do que a Amazon ou a Cultura, por exemplo. E lá, os expositores. Não, não. Só para ver. You can look but you can’t touch, baby.</p>
<p style="text-align: justify">E havia editoras nacionais fazendo o mesmo. Compre nossos livros na Saraiva, no Submarino. Compre em qualquer lugar, menos aqui. Só trouxemos livros para sacudir o estoque, tirar a poeira. Era dia de limpeza lá na editora e, sabe como é. Então para que mesmo essas editoras estão na Bienal? Competição de marca. Olha só, meu estande é maior que o seu. Ele não serve para nada, mas todo mundo vê e diz “uau, que tamanho, hein?”</p>
<p style="text-align: justify">Então é isso. Sou um autor que não gosta de Bienal. Torço muito para que ela reencontre sua função. Contato entre editoras e autores (e desde quando editora quer ter contato com autor?). Contato do público com os livros, incluindo aí o ato da compra. Contato do público com autores que ele nunca ouviu falar na vida. Eu não sei, não sou eu quem organiza a Bienal.</p>
<p style="text-align: justify">É por isso que prefiro muito mais a Primavera dos Livros. É por isso que esse ano irei na off-Bienal do Rio de Janeiro, lá no Baratos da Ribeiro, sábado, dia 19. É perto do metrô, perto da praia, da cidade, dos ônibus, das pessoas. É um conceito incrivelmente inovador esse o de aproximar um evento das pessoas que, se supõe, irão até ele.E também é perto de bons hotéis, para quem vem de fora.</p>
<p style="text-align: justify">A de São Paulo ainda é boa, para caminhar. Gosto de andar por aí, bater perna, rever os amigos escritores. Comprar lá é prejuízo. A do Rio, é boa… ãhn, é boa para se perder, para se estressar, fazer programação de escola. Um monte de criancinha andando para lá e para cá, correndo atrás das celebridades (não-autores) nenhuma delas com livro na mão.</p>
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		<title>O muro da casa ao lado</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jul 2009 03:13:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Alguns nos marcam pelos grandes atos, outros pelas pequenas atitudes. A lembrança mais forte que tenho de meu primo está nos meus 6 anos de idade e em seus 9. Na festa de Natal na casa de nossa falecida avó, adentrando a conversa falsamente animada da família (o vinho faz tudo parecer real), ele veio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns nos marcam pelos grandes atos, outros pelas pequenas atitudes. A lembrança mais forte que tenho de meu primo está nos meus 6 anos de idade e em seus 9. Na festa de Natal na casa de nossa falecida avó, adentrando a conversa falsamente animada da família (o vinho faz tudo parecer real), ele veio chamar a mãe para testemunhar seu cocô cheiroso. Foi assim que defini meu primo ao longo da vida, como alguém que não se desfez da ilusão soberana. Por mais que fedesse em uma corrida, suasse pegando sol ou rasgasse o pé nos cacos de vidro como todo homem, achava-se o loiro platinado com tons áureos de quem vale mais do que a vida.</p>
<p>Antes que nos mudássemos para a cidade, ainda perdidos no quintal das casas que ficavam lado a lado, meu primo conheceu e namorou uma morena de olhos verdes cujo nome não me recordo mais. Apesar de morena e dos olhos verdes, o que mais chamava atenção era a simpatia. Todos achavam que tínhamos um caso, eu já nos 17 anos e meu primo nos 20. Ele nunca demonstrou ciúmes da namorada, que passava mais tempo comigo do que com ele, mas sei que seus pais assim como os meus faziam comentários indiscretos quando estavam a sós. De certo que nunca beijei a morena mantínhamos um pacto doloroso, em que eu me transformava em um Farinelli com a voz doce e o sexo estéril e meu primo naquele que completava o serviço, o adônis fecundador. Não só na teoria, mas também no corpo me doía saber que acordávamos no mesmo horário, tomávamos juntos o café da manhã, ríamos das mesmas piadas, gostávamos das mesmas músicas &#8211; esse sem dúvida o maior elo -, mas que passado esse tempo de intimidade, estendido pelo caminho de barro até a praia, quando nossos pés tocavam a praia ainda fresca da manhã, um novo elo se formava. Nossa cumplicidade sem arestas fazia-se triangular, de uma forma cáustica que me corroía os órgãos. Geralmente ficávamos ainda 20 minutos ou mais sentados na areia, esperando que meu primo saísse da água com a prancha para vir nos falar. Não era dos que acordava cedo, fazia esse sacrifício pelo mar. Ele tinha certo prazer nesse teatro, não sabia o que me causava, como eu não sabia o que causaria aos dois, mas gostava de ser visto como um deus surgindo das águas para fazer revelações aos seus seguidores. Quando ela o beijava, os dois de pé, meus olhos miravam grãos mais escuros, diferenciados naquele mar de clareza. Pequenas moscas, vespas, animais sorrateiros ganhavam a minha atenção. Era sempre assim, meu primo com tempo suficiente para curtir a própria vida, pois eu cuidava da namorada, e quando decidia retornar tinha o troféu seguro, já que eu ainda estava lá, inofensivo castrato.</p>
<p>Numa noite de fogueira, com meu avô colhendo as batatas que plantava em nosso quintal e assando-as em buracos cavados na terra, vi pela primeira vez aqueles olhos verdes brilharem para mim. Foi a chama, foi a chama, meus demônios disseram depois. Estávamos um de frente para o outro, o que é uma enorme distância se labaredas nos separam. Meu primo alisou seu braço de pêlos descoloridos e buscou sua mão, uma espécie de beijo inerte, representado pelo entrelaçar de dedos. Seus olhos buscaram o meu sorriso de desgosto. Havia uma grande afeição entre eu e meu primo, a afeição que se pode ter por alguém além de seus horizontes, que enxerga o mundo de cima das nuvens e debaixo das chamas. Ele jamais me machucaria, pois não me achava relevante para isso. E apesar dessa lógica adolescente, eu também o respeitava, e me valia saber que ela era minha quando ele não estava lá.</p>
<p>Naquela noite que não foi de festa e não rendeu mais do que o costume, todos entregues ao sono, ouvi o pio de uma coruja e saí do quarto para vê-la. Meu primo estava lá, sentado no banco do quintal, próximo ao fogo apagado, vendo a coruja e seu filhote parados na cajazeira. Sentei-me ao seu lado descobrindo que a força de nosso elo estava na distância que cultivaríamos até os últimos dias. Éramos desiguais. Limpei antes a madeira do banco e fiquei olhando a coruja. Meu primo comentou do pio e que a coruja havia capturado uma barata cascuda na terra, em um vôo rasante e certeiro que até o assustou. Lembrou de um dia, quando nós dois ainda muito pequenos saímos pelo quintal procurando coisas estranhas. Ele achou primeiro, uma bola de palha com interior gelatinoso. Tínhamos certeza que ali havia o mais monstruosos dos insetos. Sem pensar duas vezes, o herói grego fugido das tragédias catou um pedaço de pau e acertou em cheio no que descobrimos ser um ninho. Quando abriu, dos três filhotes um estava morto. Nunca saberei se foi aquele golpe desferido por ele que matou o pássaro nem se chegamos a aleijar os outros dois. O que importa é que sinto até hoje como se eu os tivesse matado com meus próprios punhos, indefeso contra indefeso. Colocamos o ninho no mesmo galho. A mãe não demorou muito para achá-lo e tomou a casa com seu pio de tristeza, mudando ninho e filhotes de lugar, inclusive o que havia morrido. Na hora não entendi por que meu primo relembrava a história e meus sentimentos confessos. Foi depois de um longo silêncio que a luz do raciocínio inundou o meu rosto. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele se levantou e chutando a terra, disse que talvez não se importasse, mas que se isso acontecesse eu estaria morto. Dito isso, foi dormir. Eu fiquei lá, procurando a coruja que já havia ido embora, torcendo para que voltasse e apagasse aquele momento. Eu só queria ouvir o pio e nada mais.</p>
<p>Um dia meu primo viajou para uma praia próxima. Acordou cinco da manhã, do sol nem sinal, e pegou o ônibus sacolejante da cidade com os amigos. Eu e ela fomos para a lagoa de águas negras que atraía doentes da região pela fama de medicinal. Ficamos de pernas esticadas, calados, sem nada dizer. Mesmo com meu primo longe, a combinação eu, ela, água e areia evocava a sua onipresença.</p>
<p>Fugi. Mergulhei no mar em frente à lagoa. Lá no mar a água era fria, era o que meus agudos precisavam para não revelar a gravidade. Ela se levantou depois de alguns minutos, andou pela beira me vendo sumir na espuma e reaparecer na água verde. Molhou apenas os pés e me chamou de volta. Nadamos na lagoa, ela, de água doce, parecia fervente pelo choque das temperaturas. Ambos queriam dizer, mas não sabíamos o quê.</p>
<p>Não era um silêncio estratégico. Apenas sincero. Aquele silêncio que se sobrepõe aos fatos.<br />
Atravessamos a lagoa e sentamos em uma duna que dava para o nada. Cheguei a pegar algumas flores pequenas de plantas rasteiras, mas desisti de levar. Não voltamos nadando, demos uma volta maior do que nossas forças, chegando exaustos para o almoço, debaixo de olhares desconfortantes.</p>
<p>Quando meu primo chegou eu estava dormindo. Acordei e fui para a piscina, onde fiquei até o anoitecer. Antes disso, bem antes, vi os dois entrarem pelos portões de madeira, largarem os chinelos ainda na grama e sumirem na casa sem falar nada. Ela se limitou a me olhar, estava suja de areia e tinha a mesma flor da lagoa presa em seu cabelo. Naquele instante soube que nosso pacto havia sido quebrado. Nunca mais atravessei o muro daquela casa. Nunca mais fui cúmplice ou confidente da ilusão. Ele havia vencido. Ela era somente dele e para mim nenhuma parte.</p>
<p>Não demorou muito para que os dois terminassem o relacionamento. Sendo donos de seus rumos não puderam continuar. Fiquei sabendo mais tarde, já morando longe daquelas casas antigas, que voltaram a namorar, mas não deu certo. Cheguei a vê-la andar na rua grávida de outro, sorridente, em um local de comércio, feliz como só. Ia casar. Eu de dentro do ônibus pensei em sair, mas não quis. Não era o medo, era só a vida que sempre vai em frente mesmo quando você aperta o freio. Assim como ela, meu primo teve muitas outras, nenhuma próxima o suficiente de mim, assim como ele também não estava mais.</p>
<p>Morreu três anos depois de conquistar um bom emprego, em um acidente de carro causado por embriaguez. Apesar do cenário de morte que fui obrigado a testemunhar para reconhecer o corpo diante da ausência de nossos pais, só conseguia sentir um cheiro doce no ar, que logo se tornou ocre e azedo.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>o autor informa que nenhum primo foi danificado durante a escrita desse conto.</p>
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		<title>Márcia Denser: Toda Prosa II</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 12:40:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;De óculos ficava com um ar depravado, exatamente ao contrário do que deveria, evidenciando uns lábios sensuais, uns olhos oblíquos, os cabelos em estudado desalinho. Nascida em 1955, Júlia Zemmel era judia, refinada, escritora e ainda uma bela mulher, principalmente com aquelas lentes claras, transparentes, aliás os homens adoram isso: sempre preferem as vesgas&#8220;. -  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;De óculos ficava com um ar depravado, exatamente ao contrário do que deveria, evidenciando uns lábios sensuais, uns olhos oblíquos, os cabelos em estudado desalinho. Nascida em 1955, Júlia Zemmel era judia, refinada, escritora e ainda uma bela mulher, principalmente com aquelas lentes claras, transparentes, aliás os homens adoram isso: sempre preferem as <em>vesgas</em>&#8220;. -  Conto Adriano.com</p>
<p style="text-align: left;">Aí está. Ainda estou no começo, curioso por esse livro. O texto da Márcia é todo assim, do tipo que sacode o chão enquanto você tenta andar. Esse trecho foi escolhido, logicamente, pelas descrições e adjetivos. É cheio de detalhes, verdade, mas além de ajudar o leitor na visualização do personagem, o faz quase como uma pegadinha, preparando o terreno para a piada final. Reparem também o sexo da personagem só é revelado no segundo parágrafo (nascida em&#8230; era outro parágrafo, que juntei). Eficiente? Voto que sim.</p>
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		<title>Too much information</title>
		<link>http://arlequinal.com.br/2009/06/02/too-much-information/</link>
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		<pubDate>Tue, 02 Jun 2009 15:08:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;O carro seguia na direção de El Paso. A estrada, ladeada até o azul puro pela terra seca de vegetação parca e rasteira, se abre em retas pela planície, monótona ainda mais nas suas cores apagadas. Pele enrugada e ressequida de laranja madura, tons de chocolate ralo ao fundo, onde se pressentem elevações na paisagem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;O carro seguia na direção de El Paso. A estrada, ladeada até o azul puro pela terra seca de vegetação parca e rasteira, se abre em retas pela planície, monótona ainda mais nas suas cores apagadas. Pele enrugada e ressequida de laranja madura, tons de chocolate ralo ao fundo, onde se pressentem elevações na paisagem sem nuvens e sem sombras. Os arbustos contra a terra são ambíguos na tonalidade &#8211; nunca se sabe o limite, pois há interpenetração nas cores&#8221;.  &#8211; Silviano Santiago, conto Futebol Americano em Contos Antológicos.</p>
<p>Numa leitura crítica sempre aconselho o autor a maneirar nas adjetivações para não sobrecarregar o texto. Agora já sei que parágrafo usar de exemplo.</p>
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		<title>História da Arte</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jun 2009 13:30:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Elvira Vigna disponibilizou em seu site um livro (em doc) sobre História da Arte. É só clicar e salvar. Elvira é crítica de arte do portal Aguarrás, ilustradora e autora de diversos livros, entre eles os romances O Assassinato de Bebê Martê, A um passo e Deixei ele lá e vim. Cito aqui alguns trechos: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Elvira Vigna disponibilizou em seu site um livro (em doc) sobre <strong><a href="http://vigna.com.br/divesthistoria.doc" target="_blank">História da Arte</a></strong>. É só clicar e salvar. Elvira é crítica de arte do portal Aguarrás, ilustradora e autora de diversos livros, entre eles os romances O Assassinato de Bebê Martê, A um passo e Deixei ele lá e vim. Cito aqui alguns trechos:</p>
<p>“Se ninguém sabe nada, quem berra mais sabe mais, ou seja, a mídia passa a mandar. Na ausência de recursos intelectuais tradicionais da classe social produtora e receptora de arte (que era também quem exercia a análise e crítica dessa arte), a mídia supre a lacuna. Manet só passa a ser de fato reconhecido como grande pintor depois que Émile Zola escreve sobre ele nos jornais. Antes ninguém se arriscaria a dizer que gostava daquilo. Passa a ser preciso haver repercussão na mídia para a obtenção de um reconhecimento público de valor.”</p>
<p>“Velásquez tinha a noção do vazio, esse não-espaço em que tudo acontece. Seu espaço pictórico, quebrado, tinha vazios em cada uma de suas câmeras de luz. Um terço do seu quadro mais famoso, As meninas, é composto por um espaço vazio no primeiro plano. É um chão. E é sistematicamente cortado nas reproduções feitas em nossa época de acúmulos e excessos. Esse chão de madeira, nu, para cá do cachorro deitado, nunca aparece nem pode aparecer. O vazio é onde tudo pode surgir e perdemos o hábito de aventuras que não venham em pacotes turísticos bem controlados.“</p>
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		<title>Dicas para novos autores II</title>
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		<pubDate>Sun, 17 May 2009 14:49:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Se esse texto fosse para uma rádio, o radialista começaria com um “No programa de hoje: elogio de mãe não vale”. É uma frase curinga daquelas que dizem tudo sem dizer nada, mas o caso aqui é literatura e a dificuldade que o novo escritor tem de balizar o próprio texto. Quanto mais inexperiente o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se esse texto fosse para uma rádio, o radialista começaria com um “No programa de hoje: elogio de mãe não vale”. É uma frase curinga daquelas que dizem tudo sem dizer nada, mas o caso aqui é literatura e a dificuldade que o novo escritor tem de balizar o próprio texto.</p>
<p>Quanto mais inexperiente o escritor, mais difícil saber se o tiro foi dado para o lado certo. Não se assuste com isso. Na verdade, muitos autores experientes passam pelo mesmo problema. Decidir se você escreveu algo de qualidade ou um texto que estragaria as engrenagens da máquina de reciclagem é uma missão árdua, até porque exigiu suor e dedicação e é custoso acreditar que depois de tanto esforço o resultado não presta. Pelo menos não precisamos amassar papel e mirar na lixeira, senão seríamos acusados por alguma ONG ecológica de ferrar com a natureza, pois parte da fórmula para se chegar a um bom trabalho é saber apagar e recomeçar, descartar sem dó nem piedade aquela frase que parecia genial e que já te fazia ter orgasmos sonhando com a Wikipedia.</p>
<p>Duas boas dicas têm a ver com frases que ouvimos comumente por aí. A primeira é a famosa “minha mãe adorou”. Se além de adorar sua mãe emendar com um “não sei de onde ele/ela tira tanta imaginação”, passe de alerta amarelo para vermelho imediatamente. Elogio é sempre bom, massageia o ego e o escritor tem o ego do tamanho do mundo. Sabe por que escritores não podem participar de campeonato de ping-pong? Porque a bolinha começaria a orbitar em torno do umbigo. É muito importante evitar essa armadilha, a síndrome do artista incompreendido. Saia dessa ou espere sentado. Nenhuma opinião é imparcial, a de mãe muito menos. Colocaria apenas uma exceção: sua mãe é escritora, editora ou faz análise de originais. Se a supermãe vira repentinamente uma profissional do meio editorial, aí o cenário muda de figura, ouvidos atentos. Ainda assim, existem outros artifícios a serem usados para decidir se um texto está bom ou não antes de levá-lo para um profissional, e eles não incluem feitiçaria nem sortilégios. Também descarte mães de santo que prometem trazer o primeiro contrato em sete dias. Ela pode ser boa em amarração e descarrego, mas o mercado editorial habita um círculo do inferno diferente.</p>
<p>A segunda frase que devemos evitar é praticamente um clássico: “ninguém é mais crítico do que eu com meu trabalho”. Essa é uma que me deixa tonto, no melhor estilo jab de direita. Sabe aquela luzinha do alerta vermelho? Vai estourar assim que você falar uma dessas. Não só é um jeito de massagear o próprio ego (o que não serve para nada), como é muito deselegante com seus possíveis leitores. Quer ver só algumas interpretações de improviso? “Se o texto está bom para mim, estará para você”. “O que importa é a minha opinião, pedi a sua para que você concordasse”. “Do alto da minha sabedoria te concedo a honra de ler o que escrevi, seu pobre ignorante”. A lista de possibilidades é infinita.</p>
<p>Dito isso, há dois caminhos complementares que são muito importantes para quem quer arredondar um texto. Primeiramente, passe-o para amigos que representam o leitor médio. Quero dizer, pessoas com o hábito de leitura, mas que não trabalham como críticos de um portal de arte, por exemplo. Se ele lê sem parar, ótimo. Dê preferência a um amigo que leia o gênero que você está escrevendo. Entregar um livro que conta o drama de uma menina órfã que solta pipa no Oriente Médio para alguém que adora guerras entre anões e elfos não é a melhor solução. Enriquecer-se com pontos de vida é válido, mas nessa etapa tente se concentrar, escolha um alvo e não desvie dele.</p>
<p>Por aí, esse “amigo” que ajuda na leitura é chamado de leitor beta. É o cara que lê a versão teste do seu livro. Escolher um leitor beta é admitir para si que o livro não está pronto. Você estará dando um grande passo, acredite. Muita gente não consegue.</p>
<p>O outro caminho é pedir uma leitura mais detalhada do livro. É a análise crítica ou leitura crítica. É provável que o leitor médio não saiba chegar até esse ponto e você precise de alguém mais imiscuído ao meio. Se você tem um amigo que é trabalha exatamente com isso, é escritor, crítico ou editor e está com um tempinho livre, essa é a hora de pedir o favor. Mas que fique bem claro que você não está pedindo elogios. O leitor crítico é seu advogado do diabo, seu amigo da onça. Como disseram para mim outro dia, o importante é entrar de sola. Ele vai revirar seu texto de cabeça para baixo e apontar tudo possível e imaginário que você tenha deixado passar, inclusive estrutura e lógica. Quando você recebe um texto de volta do leitor crítico e não fica deprimido, é sinal de que algo saiu errado. Ninguém gosta de ouvir críticas, por outro lado, como você bem sabe, elogio a gente mesmo faz. A leitura crítica vale ouro. E falando nisso&#8230;</p>
<p>Sabe aquela história de que em terra de cego quem tem um olho é rei? Infelizmente, há muitos caolhos soltos no mercado. A internet ajudou na proliferação, é pior do que Gremlins na água. Às vezes quem não tem bagagem nenhuma e não consegue achar nem os próprios erros numa sopa de letrinhas oferece serviços caríssimos de leitura crítica, aconselhamento editorial e outros nomes bonitinhos. Se você precisar pagar por um serviço profissional, espie antes as referências. Pergunte a outros escritores se conhecem a pessoa, leia os textos dessa pessoa, revire o Google do avesso, consulte listas de discussão, comunidades do Orkut, o que for, mas tenham cuidado. Nem todo pirata é um bom leitor. De repente, ele não perdeu aquele olho à toa.</p>
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		<title>Dicas para novos autores</title>
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		<pubDate>Mon, 04 May 2009 20:17:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Para novos autores e também para os antigos, uma lembrança de que etiqueta nunca é demais na eterna mesa de apostas literárias. Faz tempo, mas tem umas que a gente não esquece. Quando terminei minha especialização em Bioquímica de Alimentos, decidi dar um tempo na indústria e trabalhar com assistência farmacêutica, já que em drogaria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para novos autores e também para os antigos, uma lembrança de que etiqueta nunca é demais na eterna mesa de apostas literárias.</p>
<p>Faz tempo, mas tem umas que a gente não esquece.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando terminei minha especialização em Bioquímica de Alimentos, decidi dar um tempo na indústria e trabalhar com assistência farmacêutica, já que em drogaria o horário de entrada e saída é fixo e assim eu poderia fazer escola de cinema, curso noturno. Já estava inscrito, não sabia se teria dinheiro efetivamente, mas sem confiança não se chega a lugar nenhum. Pois parte dessa busca é passar por entrevistas de emprego onde pessoas estúpidas te perguntam coisas estúpidas que você precisa responder de forma a transformar estupidez em algo que chame atenção para as suas qualidades. Pois a primeira foi na Drogaria Papaya e eu não consegui. Todos têm seus limites do impossível. Pois mesmo assim liguei uma semana depois para saber o que tinha acontecido:</p>
<p>- Você veio aqui dia tal, não foi?</p>
<p>- Isso.</p>
<p>- Eu disse que ia te ligar quando tivesse a resposta, não foi?</p>
<p>- Foi sim.</p>
<p>- Eu te liguei?</p>
<p>- Não.</p>
<p>- Então por que <em>você</em> está me ligando?</p>
<p style="text-align: justify;">Foi nesse dia que descobri que desespero tinha limite também. Um mês depois entrei para a Drogaria Macheto, simplesmente a maior rede no Rio de Janeiro. Não precisava trabalhar no sábado, recebi um salário maior e ainda escolhi o bairro onde queria trabalhar, o que fez toda a diferença para poder estudar e em todos os eventos que se seguiram. Na Macheto eu criei com um grupo o primeiro programa de treinamento em atendimento e informações técnicas sobre cosméticos e medicamentos. Foi para a rede inteira, duzentas lojas, mais? Da última vez que soube, o treinamento tinha ido para a segunda fase. Quem trabalha na área sabe o quanto custa encomendar algo desse porte. Quem trabalha na área sabe  quanto a Macheto economizou. Foi esse funcionário que a grossa e despreparada ali de cima perdeu. Sorte minha.</p>
<p style="text-align: justify;">Como escritor, ao mandar originais para as editoras, me vi nessa posição outras vezes e soube evitar o papel de desesperado. É muito fácil insistir quando você conhece o editor, quando tem o e-mail, os contatos e um mínimo de intimidade, fora isso, não faça esse papelão.</p>
<p style="text-align: justify;">Como resenhista, me vejo na situação inversa. Sei que a ansiedade é grande. A impressão que se tem é que aquela resenha, aquela ali que você está esperando, vai te revelar para o mundo e aí tudo de bom vai acontecer, você vai parar no Jô, a Veja vai falar mal de você, o Estadão vai fazer aquela matéria especial de meia página e assim virá a fama. Resenho há um tempinho para o Aguarrás, um veículo respeitado pela qualidade e que me dá total liberdade com o texto. Por ter essa liberdade, direciono meus textos para públicos diferentes. Às vezes só tenho um feeling de que fiz a coisa certa, outras vezes tenho a certeza, porque há retorno, chegam os comentários, há a recirculada de informações que uma resenha deve criar, fechando (ou ampliando) o ciclo de um livro, filme ou obra de arte. Produção, Absorção, Pensamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, conselho de quem subiu um degrau ou dois e que ainda tem uma longa trilha para caminhar: quando mandar seu livro para um site de resenhas, não fique cobrando, não escreva pedindo prazos. Além de ser uma queimação de filme sem tamanho, um dia você pode esbarrar com alguém que tenha a mesma delicadeza da mulher que me atendeu ao telefone, e ter uma Drogaria Macheto esperando adiante não torna a experiência mais agradável.</p>
<p style="text-align: justify;">ps. sim, os nomes das drogarias foram inventados, mas para bom entendedor.</p>
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