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	<title>Arlequinal &#187; Bruno M. Oliveira</title>
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	<description>Cultural e Coletivo</description>
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		<title>Algumas literárias I</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Nov 2009 00:46:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Bruno M. Oliveira Juventude – Esse romance de formação (ou deformação, como bem definiu André de Leones num post antigo) do escritor sul-africano J.M. Coeetze é um verdadeiro portento para os apreciadores da boa prosa. Narrado em terceira pessoa, no estilo conciso e sóbrio de Coeetze, consagrado em obras-primas como Desonra e Diário de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Bruno M. Oliveira</p>
<p><strong>Juventude</strong> – Esse romance de formação (ou deformação, como bem definiu <strong>André de Leones </strong>num post antigo) do escritor sul-africano <strong>J.M. Coeetze </strong>é um verdadeiro portento para os apreciadores da boa prosa. Narrado em terceira pessoa, no estilo conciso e sóbrio de Coeetze, consagrado em obras-primas como <strong>Desonra </strong>e <strong>Diário de um ano ruim</strong>, esse livro traz as memórias romanceadas do jovem John, um estudante de matemática e aspirante a poeta que ganha a vida trabalhando como programador de computadores numa sucursal da IBM na Londres dos anos 60. No seu tempo livre, além de dedicar-se à poesia, John visita museus, vai ao cinema, paquera, e faz leitura crítica dos escritores que admira. Na medida em que o emprego começa a lhe tolher as energias, ele acredita que não conseguirá alcançar seu fito maior, que é se tornar um bom poeta. Então lhe ocorre que a prosa é o caminho escolhido por aqueles que não conseguiram “encontrar a poesia”, ou seja, que a prosa é o refúgio dos poetas medíocres. Dúvidas as mais variadas o assaltam ao longo da narrativa, marcada por observações preciosas e agudas, do tipo que só os grandes escritores são capazes de produzir sem jamais cair no lugar-comum. Nada de muito extraordinário acontece no decorrer das cerca de 180 páginas em que acompanhamos a vida de John, e é incrível como Coeetze transforma essa “ausência de aventuras” num ponto positivo do romance, extraindo reflexão e grandeza do cotidiano insosso e não raro melancólico do protagonista. Juventude é o típico livro que, mal terminamos a leitura, dá vontade de começar de novo.</p>
<p><strong>Austerlitz</strong> – Não sei que palavras usar para qualificar esse romance do escritor alemão <strong>W.G. Sebald</strong>. Fantástico, extraordinário, fabuloso, magistral – nenhum desses adjetivos define com justeza a obra de Sebald, e simplesmente dizer que se trata de uma obra-prima não ajuda a dar a dimensão da sua importância. Talvez o mais coerente seja afirmar que Austerlitz, com sua mistura de ficção, ensaio e memória, seja um livro inclassificável. Suas frases longas e sinuosas, de uma exatidão acadêmica, mas sempre repletas de cores, cheiros, sensações, nos transportam para um universo muito particular, causam uma espécie de suspensão do tempo real, e durante a leitura, o que não diz respeito a essa dimensão estanque se nos afigura irrelevante. Também as fotos que ilustram o livro nos causam grande arrebatamento, pois estão de tal modo relacionadas a esse mundo próprio no qual estamos mergulhados, que é como se emergissem de nossa própria consciência. E do que trata o romance, afinal? Grosso modo, Austerliz narra a história de um professor de arquitetura, Jacques Austerlitz, homem culto e viajado, cuja trajetória de vida foi brutalmente alterada pelo Holocausto. O narrador em primeira pessoa é um viajante que encontra o professor Austerlitz por acaso, numa estação ferroviária em Antuérpia, na década de 60, e se encanta pelos depoimentos que ouve dessa rica personagem com quem volta a se encontrar algumas vezes.</p>
<p>Quem tiver interesse em obter mais informações sobre a vida e a obra de W.G. Sebald, pode começar lendo <a href="http://www.almirdefreitas.com.br/almir/Austerlitz___W._G._Sebald.html">este excelente texto </a>que <strong>Almir de Freitas</strong> escreveu para a revista <strong>Bravo</strong>.</p>
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		<title>Meninos Incompreendidos</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Oct 2009 23:24:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Bruno M. Oliveira Antoine Doinel e Jason Taylor são dois garotos de 13 anos do século XX. O primeiro vive na França da década de 50, e o segundo na Inglaterra dos anos 80. Ambos são saudáveis, inteligentes, e vivem em família. A família de Antoine é pobre e negligente para com ele; já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Bruno M. Oliveira</p>
<p>Antoine Doinel e Jason Taylor são dois garotos de 13 anos do século XX. O primeiro vive na França da década de 50, e o segundo na Inglaterra dos anos 80. Ambos são saudáveis, inteligentes, e vivem em família. A família de Antoine é pobre e negligente para com ele; já a de Jason é de classe média, e o prove de conforto material e afeto. Por viverem na Europa, continente em que a maioria dos países preza pela educação, os dois adolescentes freqüentam boas escolas públicas &#8211; e passam por dificuldades diferentes também. Os problemas que Jason enfrenta na sua rotina escolar são, em sua maioria, decorrentes dos conflitos com colegas mais fortes e imbecis que ele. Antoine Doinel, ao contrário de Jason, não é impopular nem tampouco vítima de perseguição dos colegas; seu nome está associado a um tipo de liderança negativa, e não ao de um grupo de crianças bem comportadas e introvertidas que sofrem nas mãos dos colegas sádicos. </p>
<p>Antoine Doinel é o protagonista de <strong>Os Incompreendidos </strong>(1959), filme de estréia de François Truffaut e marco da Nouvelle Vague. Monumento de simplicidade e beleza, este longa-metragem narra as aventuras e os dissabores vividos por esse alter-ego de Truffaut na Paris do pós-guerra. Movido por um misto de curiosidade e revolta, Doinel confronta a autoridade dos pais e dos professores, e se encaminha para uma vida anárquica e precoce. Filho adotivo, o garoto interpretado por Jean Pierre Léaud vive numa casa humilde onde dorme num catre no quartinho dos fundos. A mãe, uma mulher jovem e bonita, nos é apresentada numa bela seqüência em que chega do trabalho, põe-se a despir as meias-calça e a reclamar os chinelos que não encontra. De início percebemos seu desprezo pelo filho. Ele é cobrado e criticado o tempo todo, não recebe nenhuma manifestação de carinho ou apoio, e muitas vezes é tratado como um simples empregado doméstico. Os olhos de Antoine / Jean Pierre ora lembram os de um cão vadio, ora expressam agressividade e ressentimento. Quando miram o pai, no entanto, os olhos do menino ganham alguma vivacidade. Há um clima de camaradagem entre os dois, que só é desfeito quando Antoine comete suas traquinagens e pequenos delitos, ou quando resolve se insurgir contra as arbitrariedades dos próprios pais e da sociedade em geral.</p>
<p>Jason Taylor é o narrador-protagonista de <strong>Menino de Lugar Nenhum</strong>, romance de formação do escritor britânico David Mitchell, lançado o ano passado no Brasil pela editora Cia das Letras. Ele vive numa cidadezinha do interior da Inglaterra chamada Black Swan Green, título original do livro. Amado e protegido pela família, Taylor não encontra a mesma acolhida de que dispõe em casa na escola. Vítima de gagueira, é alvo constante de chacota dos outros garotos, que o apelidam de Verme. Para minimizar o problema da gagueira, chamada por ele de Carrasco, Jason recorre a uma fonoaudióloga. Além de se interessar por atividades caras à maioria dos garotos de sua idade, Jason dedica-se (secretamente) à poesia. Reconhece, em dado momento da narrativa, que se os colegas descobrissem esse seu hobby sua vida social estaria comprometida de vez. Por isso envia poemas para concursos e revistas locais sob o pseudônimo de Eliot Bolívar. “Quando você mostra pra alguém uma coisa que escreveu, está oferecendo uma estaca pontiaguda, deitando no caixão e dizendo ‘Quando você quiser’”, diz na ocasião em que encontra Madame Crommelynck, senhora culta e experiente que faz críticas construtivas à sua obra. </p>
<p>As narrativas de Truffaut e Mitchell têm pontos em comum, como a fluência e o lirismo. Não há espaço para a pieguice nem para a divagação gratuita. Mas o humor está presente em ambas, principalmente como antídoto a um possível laivo de (auto)comiseração que poderia arruinar os relatos de cunho autobiográfico. Os personagens também não são caricatos nem agem segundo uma disposição maniqueísta. Por mais cruéis que os pais de Antoine Doinel possam ser, eles são dotados de algum senso de justiça, e soam sinceros quando se põem a ministrar conselhos que julgam importantes para a formação do filho. Por vezes os personagens de Menino de Lugar Nenhum podem parecer estereotipados, mas isso não é um problema narrativo, e sim uma conseqüência do olhar imaturo e parcial do protagonista-narrador. Seus algozes, por exemplo, são naturalmente descritos como bestas-feras despidas de bons sentimentos. Os pais, apesar de cuidar para que nada lhe falte, vivem às turras, o que é motivo de descontentamento para Jason. </p>
<p>Dois adolescentes de natureza diversa vivendo no mesmo século em décadas diferentes. Jason Taylor e Antoine Doinel. O primeiro tenta se livrar do assédio dos colegas de escola e sofre com a separação dois pais. O segundo possui espírito livre e se esforça para adaptar-se à vida em sociedade, a qual julga castradora e injusta. </p>
<p>François Truffaut e David Mitchell. Um cineasta e um romancista de origens e épocas diferentes. Dois grandes artistas. Duas grandes obras. </p>
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		<title>Diário de um chimpanzé</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Jul 2009 00:46:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Bruno M. Oliveira (IV) As inflexões de tristeza nos rostos dos velhos que disfarçam sua solidão nos bancos da praça parecem prenunciar a hecatombe. E os pombos, esses roedores alados, são os arautos do Apocalipse. O calor abafado desse dia de céu cinzento dá a exata medida do desespero latente sob as almas dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Bruno M. Oliveira</p>
<p><strong>(IV)</strong></p>
<p>As inflexões de tristeza nos rostos dos velhos que disfarçam sua solidão nos bancos da praça parecem prenunciar a hecatombe. E os pombos, esses roedores alados, são os arautos do Apocalipse. O calor abafado desse dia de céu cinzento dá a exata medida do desespero latente sob as almas dos que têm pilhas de contas a pagar e diversos problemas amorosos /sexuais a resolver. Cada criança que passa por ele de mão dada com a mãe revitaliza num átimo sua esperança de um futuro melhor (?). Mas as mulheres palradoras e excessivamente atraentes que se insinuam para a vida com o mesmo despudor com que subjugam os amantes quando do amor provocam em seu âmago um frisson adolescente que o devolve imediatamente à condição de misantropo. Apaga-se a sensação de que ele é, de uma certa maneira, mais consciente do que se passa no mundo do que o ordinário. Ao passar diante duma loja de eletroeletrônicos, vê sua imagem refletida num aparelho de tevê retangular de cinqüenta e quatro polegadas e apressa-se em desfazer esse sentimento de horror. Em redor do chafariz onde brincam crianças serelepes sob o olhar vigilante das mães, percebe uma concentração de quatro ou cinco pesquisadores uniformizados de uma escola de informática. Tenta escapar mas é tarde: uma garota morena e baixota o interpela e pergunta se gostaria de fazer um cadastro para concorrer a uma bolsa de estudos de cinqüenta por cento. Normalmente teria respondido não, mas aquele não era um dia comum. Sorriu debilmente e informou seu nome e telefone à garota. Ela não pôde conter sua felicidade. Em média quantas pessoas conseguia conquistar por dia?</p>
<p>-	Idade?<br />
-	Oitenta e dois.<br />
-	Estado civil?<br />
-	Escravizado por uma sílfide castradora.<br />
-	Filhos?<br />
-	Três ogros, dois zumbis e uma sereia.<br />
-	Profissão?<br />
-	Prestidigitador.</p>
<p>Por fim, ganha um cupom para depositar numa urna de prata fincada no topo da colina mais alta e distante. Há uma urna de prata hermeticamente fechada na ante-sala do seu peito. Pergunta se ela não quer depositar um cupom nela mais a garota declina. Covarde! Babaca! Decepcionado, ele lhe dá as costas e segue para a disneylândia mais próxima. Encontra o gado de sempre pastando por entre as estantes das Lojas Americanas. O ar condicionado refresca seus espíritos. Perde seu tempo procurando uma filme genial e barato na seção de DVDs. Uma vendedora pára a seu lado e pergunta as horas: quinze para as onze, responde. Que saco! A hora não está passando hoje. Ele entende sua indignação. Quem é que está refreando os ponteiros do relógio? Quem se mete a deter o tempo universal? Então lhe vêm à cabeça imagens de um documentário sobre o Universo a que assistira na madrugada passada na companhia do irmão do meio. O Big Bang e a formação das galáxias&#8230; O surgimento da vida na Terra ao acaso. As forças e os elementos da natureza descobertos por gênios como Einstein (ele se lembra só de Einstein, mas, justiça seja feita, há outros cientistas tão importantes quanto ele que contribuíram para a aquisição do conhecimento que hoje dispomos sobre o nosso planeta e o Universo). Os buracos negros. E sobretudo o desconhecido: a tal matéria escura presente na quase totalidade do Universo e sobre a qual os cientistas não sabem praticamente nada. Nada. Esse tipo de documentário sempre o deprimiu porque dá a medida justa da sua insignificância. Nem o fato de saber que seu corpo é feito da mesma matéria que compõe as estrelas o conforta. Programas jornalísticos sobre o Aquecimento Global e assuntos correlatos também o deprimem. Como é frágil e patético! Outra vendedora magra e de olhos verdes (que olhos!) o aborda e o informa da promoção da semana: alugue três DVDs (na Blockbuster que funciona dentro da loja) e ganhe duas pipocas de microondas. Mas eu não tenho microondas, meu amor (não disse meu amor, claro). Em todo caso só tinha dinheiro para a passagem de ônibus. Saiu da loja e caminhou a esmo, até ir parar na Biblioteca Municipal, onde poderia ler e disfarçar sua solidão gratuitamente.</p>
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		<title>Diário de um chimpanzé</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Jul 2009 01:08:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[(III) Bem ou mal, ele está no jogo. I’m in, reporta o agente secreto ao chefe da missão. O chimpanzé doido continua a dar corda no músculo cardíaco precocemente debilitado. Periga rebentarem-se as frágeis estruturas do órgão. Ele se levanta do banco onde tentara relaxar debalde. A recepcionista morena (sim, ela é morena e bonitinha) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(III)</strong></p>
<p>Bem ou mal, ele está no jogo. <em>I’m in</em>, reporta o agente secreto ao chefe da missão. O chimpanzé doido continua a dar corda no músculo cardíaco precocemente debilitado. Periga rebentarem-se as frágeis estruturas do órgão. Ele se levanta do banco onde tentara relaxar debalde. A recepcionista morena (sim, ela é morena e bonitinha) segue lixando as unhas pontudas e pintadas de roxo. Com licença. Não; ele não diz isso porque não estamos num filme americano dublado. Diz: obrigado. E se encaminha à sala estanque do <em>dono dos porcos </em>(a expressão é do pai). À esquerda do corredor que desemboca no escritório do chefe, um grupo de funcionárias do setor administrativo grasna sem parar. Quase não é possível ouvir o que dizem aos berros porque, além das vozes agudas se anularem umas às outras, o tapume que separa o departamento do corredor produz um certo isolamento acústico. Ele sente uma vontade quase irrefreável de permanecer parado no meio do corredor, tentando captar e entender o que aquelas mulheres conversam. Mas faz um esforço para não dispersar sua atenção, que deve estar totalmente voltada para a entrevista que terá lugar dentro de instantes. Respira fundo, ajeita a camisa dentro da calça, tateia os cabelos ralos. Bate três vezes na porta. Entre, por favor, responde a voz do outro lado. E agora sim ele diz com licença, como num filme americano dublado. Postado atrás de uma mesa simples de madeira escura, o entrevistador, um senhor na casa dos 70, de aparência saudável, bem vestido, e com duas discretas bolsas de gordura sob os olhos castanhos denotando abatimento, aponta a cadeira para que o candidato se acomode. Apertam-se as mãos. Uma vez sentados, encaram-se taciturnos e assim permanecem por alguns segundos, como num jogo infantil em que dois adversários medem forças para ver quem consegue sustentar o olhar por mais tempo. A mesa está abarrotada de blocos de notas, faturas, calendários, porta-retratos, porta-lápis, celulares e calculadoras. Um relógio retangular com o logotipo da loja e um pôster do Palmeiras guarnecem a parede atrás da mesa. À direita, há uma estante repleta de arquivos, e à esquerda um frigobar e um sofá bege de dois lugares, rente à varanda cuja vista não chega a ser exatamente enaltecedora.</p>
<p>- Gostei muito do seu currículo. Não entendo por que você não conseguiu uma colocação até hoje. Você está com quantos anos mesmo? – e põe-se a examinar a folha bem diante dos olhos.</p>
<p>- Vinte e quantro!?</p>
<p>- Isso.</p>
<p>- E sua única experiência foi como estagiário!?</p>
<p>Ele responde que sim e passa a fornecer detalhes sobre o estágio. Apesar do indisfarçável ar de enfado, o dono dos porcos quer saber mais a seu respeito. Pergunta se mora com os pais, no que eles trabalham, quantos irmãos tem.</p>
<p>- Em que setor você gostaria de trabalhar?</p>
<p>Perguntinha cavilosa. À qual ele responde não sem titubear.</p>
<p>- No setor que for mais conveniente&#8230; E sabendo que precisa ser mais específico: Com sinceridade, eu não me vejo trabalhando na linha de frente; os bastidores me caem melhor. Mas não fujo aos desafios. Estou pronto a assumir com responsabilidade e dedicação a função que o senhor me confiar.</p>
<p>Não deu pra aferir o efeito que sua retórica abobalhada causou no entrevistador, pois a campainha do telefone soou em seguida. Ele aproveitou os dois ou três minutos que o homem ficou ao telefone para pensar no que poderia dizer para salvar a entrevista. Não lhe ocorreu nada. Dissera o que achara fundamental: tinha conhecimento disso e daquilo, disposição para contribuir e aprender; o pai estava desempregado, as contas se acumulavam, o irmão pequeno&#8230;</p>
<p>- Muito bem. Como eu já disse, gostei do seu currículo. Agora, no começo do ano, há sempre remanejamentos, reestruturações etc. etc. Eu vou conversar com a chefe do RH para ver se consigo encaixá-lo à equipe, provavelmente no setor administrativo. O.k.?</p>
<p>- O.k.</p>
<p>Levantam-se e trocam outro aperto de mão.</p>
<p>- Em breve entraremos em contato para darmos um parecer definitivo. Foi um prazer conhecê-lo, garoto – diz o dono dos porcos.</p>
<p>- O prazer foi meu. Obrigado pela sua atenção. Tenha um bom dia.</p>
<p>Ele deixa a sala amargando a derrota que lhe pareceu tão palpável quanto qualquer um dos inúmeros objetos que atulhavam a mesa de madeira escura do entrevistador. A equipe de mulheres do setor administrativo continuava a grasnar. Ao passar pela recepção, agradeceu novamente a mocinha das unhas roxas e ato contínuo ganhou a rua. </p>
<p><strong>(Continua&#8230;)</strong></p>
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		<title>Diário de um chimpanzé (ficção)</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Jul 2009 23:52:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[(I) Mal a arquitetura do dia se forma, ele pensa em ir embora. Há pouco os cães ladravam e os pássaros chilreavam por atenção, sem sucesso. O mundo não está para eles nem para nós. E ele sentia um certo ódio à insistência do dia em nascer: queria amordaçar os cães e os pássaros que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(I)</strong></p>
<p>Mal a arquitetura do dia se forma, ele pensa em ir embora. Há pouco os cães ladravam e os pássaros chilreavam por atenção, sem sucesso. O mundo não está para eles nem para nós. E ele sentia um certo ódio à insistência do dia em nascer: queria amordaçar os cães e os pássaros que clamavam por atenção. Todos eles. Queria deter o sol, toldar a abóbada celeste. Mas o mesmo espetáculo que o atormentava o convidava a um passeio pelo que a vida pode oferecer de melhor àqueles a quem é dado vestir-se com o manto da existência. Os olhos queimando de curiosidade e rancor, o corpo mantido em stand by no espaço acolchoado entre o sono e a vigília. Fechou o livro, levantou do sofá, se espreguiçou e caminhou na direção do quarto.</p>
<p>Ao abrir a porta, sentiu um forte cheiro de mofo e desodorante for man. O irmão dormia na parte de cima do beliche, e a avó &#8211; com quem há anos eles dividiam o mesmo cômodo &#8211; dormia em posição fetal numa cama estreita pegada à janela. Ele caminha lentamente na penumbra a fim de não acordar ninguém; curva o corpo para deitar-se, estica-se bem, sente aos poucos o colchão moldar-se ao desenho do corpo, e procura em vão aquela sensação de relaxamento que sempre vem na esteira do sono.</p>
<p>Não encontrando posição confortável na cama, o corpo produz constantes sensações de contrariedade. Ele e o corpo (porque nunca pensou seu próprio corpo como um aliado) falham na tentativa de penetrar a esfera aconchegante e segura em que a avó e o irmão parecem repousar suavemente. Então decidem, após firmarem um acordo provisório de não-agressão, partir para uma outra empreitada, bem mesmo reconfortante que o sono porém muito mais auspiciosa. Salta da cama e corre a juntar-se aos cães e aos pássaros no coro algo desesperado por atenção &#8211; e redenção.</p>
<p><strong>(II)</strong></p>
<p>As abluções matinais contra as secreções produzidas pelo corpo à sua completa revelia. Depois três bolachas de água-e-sal e uma xícara de café como desjejum. Veste sua melhor camisa &#8211; herdada do avô materno -, sua calça jeans menos desbotada, seus sapatos pretos mal engraxados, e sai para a entrevista de emprego. Mais uma. Pega o ônibus semilotado; a cobradora negra de cinqüenta e poucos anos o cumprimenta com um sorriso complacente, que se analisado com frieza e distanciamento, revela-se simplesmente automático &#8211; o que é bom. Senta-se num banco ao fundo; divide-o com uma moça de uniforme verde-água, de uma rede de farmácias local. Ela tem os cabelos escovados, sua pele recende a sabonete de erva-doce. Ele tenta ensaiar mentalmente o que dirá ao recrutador, como causar boa impressão. Por que merece o emprego? O que o torna digno de confiança? Pensa nas contas que se acumulam sobre a escrivaninha. Pensa na barba hirsuta e grisalha que cresce no rosto do pai; no seu discurso inflamado contra tudo e todos, cujo contraponto principal era encontrado na inocência destemida do irmão caçula. Até quando ele não sabe. Caminha no centro da cidade como um fugitivo da polícia. Vive como um fugitivo. E é absurda mas inevitável a comparação com um criminoso refugiado sob a chancela do governo. Chega ao local da entrevista, uma grande loja de departamentos, confiante, esperançoso, ridículo. A avó vive dizendo que para quem está se afogando jacaré é tronco. O irmão do meio acha graça. Ele também tenta rir de tudo. Mesmo constrangido, ri de suas tentativas de fugir às perguntas de conhecidos sobre sua vida profissional. Da sua idéia boba e estapafúrdia de manter um blog na internet. Dos livros que tem vendido – a contragosto, na maioria das vezes – pela internet. De sua deplorável dependência da internet; da própria citação indiscriminada da palavra internet. Mas então pensa numa verdade alentadora: ele não precisa da internet; mas precisa dos livros. Precisa ler – porque é um animal que lê, acima de tudo. E pouco pode fazer para mudar isso, como em relação às secreções e excreções produzidas diuturnamente pelo corpo. Chega à recepção e diz a que veio para a moça que lixa as unhas pontudas. Ela o anuncia para o recrutador, que pede para que ele aguarde um instante, que em breve será atendido. Enquanto isso, um gato ronrona dentro do seu estômago, e um chimpanzé doido dá corda no seu coração, que passa a bater de modo desenfreado.</p>
<p><strong>(Continua&#8230;)</strong></p>
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		<title>Visões literárias</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Jul 2009 00:23:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Duas entrevistas. Dois escritores brasileiros contemporâneos. E dois “conselhos” àqueles que pensam em se dedicar à literatura. Primeiro, um trecho da entrevista que o escritor Cristóvão Tezza, autor do celebrado romance O Filho Eterno, concedeu à jornalista Teresa Chavez, da Folha Online: Folha Online &#8211; Para o sr., qual é o papel que a literatura [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Duas entrevistas. Dois escritores brasileiros contemporâneos. E dois “conselhos” àqueles que pensam em se dedicar à literatura.</p>
<p>Primeiro, um trecho da entrevista que o escritor <a href="http://www.cristovaotezza.com.br/" target="_blank"><strong>Cristóvão Tezza</strong></a>, autor do celebrado romance <strong>O Filho Eterno</strong>, concedeu à jornalista Teresa Chavez, da Folha Online:</p>
<p><strong>Folha Online &#8211; Para o sr., qual é o papel que a literatura tem na formação das pessoas hoje? O livro, como objeto, supre toda a necessidade de informação do mundo atual? O sr. encorajaria alguém a se tornar escritor hoje, apesar das rejeições sucessivas e desencorajadoras que descreve em &#8220;O Filho Eterno&#8221;?</strong></p>
<p><em>Tezza &#8211; A literatura é um universo paralelo não oficial, uma linguagem capaz de abarcar, mimetizar e transformar todas as linguagens do mundo, sem se confundir com nenhuma delas. Tudo pode ser recriado pela literatura &#8211;a história, a ciência, a informação, a ética, a religião &#8211;numa dimensão muito mais ampla do que nos seus limites originais. O seu objeto não é a verdade, mas o homem que pensa sobre ela, de um modo que nenhuma outra linguagem consegue. E vendo de um outro modo, a literatura é um belo instante de solidão, para respirar nessa loucura toda. Bem, o livro é um objeto absolutamente fantástico, e a leitura é um processo exigente, muito mais que todos os recursos audiovisuais do mundo contemporâneo. Encorajar alguém a se tornar escritor? Acho um pouco assustador &#8211;é realmente uma escolha que deve ser tomada em solidão. </em></p>
<p><em> </em></p>
<p>A seguir, uma parte da fala do escritor <a href="http://colunistas.ig.com.br/sergiorodrigues/" target="_blank"><strong>Sérgio Rodrigues</strong></a>, autor do “romance histórico” <strong>Elza, a garota</strong>, ao jornal Rascunho do mês passado:</p>
<p><strong>Rascunho &#8211; Que conselho o senhor daria a alguém que deseja dedicar-se à literatura no papel de escritor?</strong></p>
<p><em>Sérgio &#8211; Meu conselho-padrão, que muita gente acha que é piada mas é sério, costuma ser o seguinte: desista se for capaz. O mundo da literatura parece muito charmoso e tal, mas a verdade é que o jogo é muito duro e nem sempre leal, as recompensas são fugidias e as chances de fracasso &#8211; não só comercial, mas estético mesmo &#8211; estão todas contra você. Agora, se depois de considerar tudo isso o sujeito ainda for incapaz de desistir do seu plano maluco, então é escritor mesmo, e nesse caso todos os conselhos se tornam fúteis. Cada um tem que encontrar seu próprio caminho. Ler muito, ler tudo, e não ter pressa demais de publicar talvez sejam recomendações úteis. Arranjar um jeito de sustentar seu &#8220;vício&#8221; também me parece um bom toque. A menos que seja rico de berço ou de baú, um escritor deve ter outra profissão, sob pena de ser levado pela ânsia do profissionalismo a vender seus escritos cedo demais, tornar-se um marqueteiro juramentado ou sair à caça de bocadas estatais &#8211; e nada disso é muito saudável para aquilo que realmente importa, isto é, o texto. </em></p>
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		<title>Conto inacabado</title>
		<link>http://arlequinal.com.br/2009/06/20/conto-inacabado/</link>
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		<pubDate>Sat, 20 Jun 2009 23:10:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Ou Conto in progress, que é mais chique. Nota introdutória: Incialmente, minha intenção era escrever uma narrativa sobre a nova dinâmica dos relacionamentos humanos imposta pelas redes sociais on-line como Orkut, Facebook, twitter etc. Mas, como vocês podem conferir logo abaixo, elementos fantásticos se projetaram de forma imprevista na trama à minha completa revelia, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ou <strong>Conto <em>in progress</em></strong>, que é mais chique.</p>
<p><strong>Nota introdutória:</strong></p>
<p>Incialmente, minha intenção era escrever uma narrativa sobre a nova dinâmica dos relacionamentos humanos imposta pelas redes sociais on-line como Orkut, Facebook, twitter etc. Mas, como vocês podem conferir logo abaixo, elementos fantásticos se projetaram de forma imprevista na trama à minha completa revelia, o que acabou contribuindo para que eu perdesse de vez o fio da meada, que, a bem da verdade, era originalmente tênue.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><strong>Vocês Não Me São Estranhos</strong><br />
 <br />
As carrancas virtuais dos meus amigos não me assustam. O silêncio pesado dos meus <em>seguidores</em> desconhecidos também não. Temer semelhantes coisas está além de minha capacidade. A promiscuidade reinante nas redes de relacionamento me causa no máximo estranheza. Tudo o que omito dos meus “amigos virtuais” me agride – sinto-me um grande cretino quando deixo de compartilhar um aspecto qualquer de minha intimidade com os demais integrantes da rede. Tenho um prazer sádico em não responder a e-mails e ignorar comentários dos que me seguem e de quem eu sigo. Demoro a confirmar a amizade a quem me adiciona como amigo só pela satisfação de saber que causo ansiedade e desconforto ao solicitante. A mitomania é minha maior bandeira on-line. E o efeito mais nocivo dessa minha inclinação irrefreável à mentira é a desconfiança gerada por cada asserção legítima que solto na web &#8211; o que me aborrece e diverte ao mesmo tempo. O exemplo mais recente desse tipo de qüiproquó aconteceu há cerca de três ou quatro meses quando, num acesso incomum de sinceridade, relatei de maneira sucinta um acontecimento extraordinário que acabara de se dar comigo. Enquanto tomava meu segundo banho do dia – pois tomo dois banhos diários invariavelmente, um pela manhã, e outro quando chego do trabalho, ali pelas sete da noite – descobri, ao massagear meu coro cabeludo coalhado de xampu condicionante com ambas as mãos a fim de produzir espuma em abundância, uma pequena protuberância bem no topo da minha cabeçorra ovalada. Palpei a região saliente durante um bocado de tempo, e tudo teria sido facilmente esquecido caso eu não tivesse experimentado uma ligeira dor aguda a cada vez que pressionava com um pouco mais de força o calombo. Do chuveiro mesmo gritei minha mulher, que demorou alguns minutos a vir em meu socorro porque estava ocupada com a correção de uma penca de trabalhos escolares. Ela é professora primária. Tão logo notou um elevado grau de desespero em meu chamado, minha esposa abandonou sua tarefa e invadiu o banheiro como um agente de polícia invade um cativeiro. Acompanhei aflito sua silhueta embaçada aproximar-se através da parede do box. Com as mãos entrelaçadas, eu formava uma cuia protetora sobre a cabeça como se desejasse guarnecer a moleira que se tinha fechado definitivamente havia quase quarenta anos. Minha mulher praticamente pulou sobre mim, decerto por ter pensado que os anos de sedentarismo e má alimentação finalmente tivessem resultado num grave enfarte. Contudo tratei de tranqüiliza-la e, sem lhe dar chances de elaborar qualquer tipo de pergunta, peguei sua mão direita e a coloquei sobre a parte abaulada da minha cabeça. O que é que tem isso, ela perguntou, visivelmente irritada, mas não demasiado, de vez que conhecia meu pendor para a hipocondria desde nosso tempo de namoro. Dói, eu disse, e pressionei sua mão, que não chegava à metade do tamanho da minha, contra a região sensível, no intuito ilógico de lhe fazer experimentar a dor lancinante que eu sentia toda vez que repetia aquele gesto. Quase me mata de susto, baixou o tom de voz, recolhendo a mão examinadora até o peito galopante. Não era nada, repetia ela, enquanto eu insistia na hipótese de uma hérnia craniana, um traumatismo, ou uma outra anomalia qualquer. E se não consegui convencê-la de que algo maligno eclodira no alto da minha cabeça, ao menos lhe propiciei um prazer infantil traduzido numa longa e estridente gargalhada que só arrefeceu depois que iniciamos ali mesmo, no chuveiro, uma maratona de carícias cuja intensidade só havíamos experimentado em nossas primeiras manobras amorosas.</p>
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		<title>Considerações de um leitor</title>
		<link>http://arlequinal.com.br/2009/05/29/consideracoes-de-um-leitor/</link>
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		<pubDate>Sat, 30 May 2009 02:23:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Tudo que não sei devo às minhas leituras. Como todo mundo. Em qualquer lugar do mundo. Ivan Lessa Eram duas e pouco da tarde. Sentado a uma mesinha quadrada de arestas arredondadas, e com quatro cadeiras desconfortáveis, duas de cada lado da mesa, eu lia os jornais do final de semana na Biblioteca Municipal de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="color: #cccccc; font-family: &quot;Trebuchet MS&quot;;"><span style="font-size: small; color: #000000; font-family: Arial;"><em>Tudo que não sei devo às minhas leituras. Como todo mundo. Em qualquer lugar do mundo.</em></span></span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #cccccc; font-family: &quot;Trebuchet MS&quot;;"><span style="font-size: small; color: #000000; font-family: Arial;"><strong>Ivan Lessa</strong></span></span></p>
<p><span style="color: #cccccc; font-family: &quot;Trebuchet MS&quot;;"><span style="font-size: small; color: #000000; font-family: Arial;">Eram duas e pouco da tarde. Sentado a uma mesinha quadrada de arestas arredondadas, e com quatro cadeiras desconfortáveis, duas de cada lado da mesa, eu lia os jornais do final de semana na Biblioteca Municipal de Lorena, cidade vizinha à minha. Um pouco sonolento, um pouco faminto, meio desiludido da vida. Desde que meu pai parara de assinar o maior jornal do país, por motivos que não cabe explicitar aqui, eu vivia nessa lengalenga de me deslocar até uma biblioteca pública ao menos uma vez por semana para me manter informado. Acompanhar o noticiário pela tevê não me satisfaz; palavras impressas são, a meu ver, mais dignas de confiança. Ademais, de um modo geral os jornais impressos expõem os fatos com maior riqueza de detalhes – e há sempre </span><span style="color: #000000;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">os editoriais, as charges, os quadrinhos, entre outros atrativos.</span></span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="color: #000000;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Numa mesinha paralela à minha, três pré-adolescentes cochichavam entre si enquanto faziam o dever de casa. A mais falante delas, uma pretinha jeitosa e lampeira, falava às outras duas a meu respeito. Apurei os ouvidos para tentar entender o que dizia, mas só consegui compreender uma frase, que veio acompanhada de uma gargalhada geral e estridente: <em>Deixa ele em paz. Vai ver ele é feliz assim.</em></span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; color: #000000; font-family: Arial;">Fiquei pensando no que tinha ouvido, e não consegui mais me concentrar na leitura do jornal. O que ela queria dizer com <em>vai ver ele é feliz assim</em>? Posso estar enganado, mas acho que ela se referia ao fato de eu estar sentado ali, lendo, há mais de uma hora. Para ela, aquilo era incompreensível. Não conseguia imaginar como alguém podia sentir prazer ou satisfação com a leitura de jornais e livros (havia três volumes sobre a mesa). Ler sempre lhe fora uma obrigação à qual encarava resignadamente; a palavra impressa só lhe legara aflição, sofrimento. E de quem era a culpa? Decerto que não era minha. Dos pais? Dos professores? Do nosso presidente: um homem sabidamente avesso à leitura? Não importava. Não era a primeira vez que minha condição de leitor gerava risos e desconfiança em alguém.</span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; color: #000000; font-family: Arial;">O leitor é um palhaço. Ele não inspira respeito como os desportistas. Há basicamente dois tipos de reações geradas por alguém que se declara afeito à leitura: uma solene e exagerada respeitabilidade, e a galhofa. Eu já provei de ambas. Tenho de confessar que a primeira é a que me diverte mais, embora às vezes cause um certo desconforto. Quando alguém “descobre” que sou um leitor inveterado, tenta se aproximar referindo o último livro que leu, o avô ou o bisavô que era um grande leitor, os títulos lidos a contragosto para o vestibular. Enfim, ninguém quer falar de futebol com o leitor. Quando muito, de cinema. Acham que o leitor ou é gay ou é broxa, porque não falam de mulher com ele. Espantam-se ao ver o leitor ingerir bebida alcoólica, ou comer carne vermelha. Se o leitor está meio infeliz num dado dia e não interage amiúde, correm a buscar-lhe um livro, revista, manual de instrução que seja, a fim de animá-lo. O leitor não tem sossego.<br />
Muitos tratam o leitor como um sacerdote. Admiram sua vocação, mas agradecem a Deus por não serem investidos dela. <em>O homem que lê vale mais</em>. Quem foi o imbecil que disse isso? Por certo que pretendia zombar da cara dos leitores, além de complicar-lhes a vida. Uma postura arrogante adotada por um certo grupo de intelectuais ao longo do tempo acabou por contribuir para que os letrados passassem a ser vistos como uns onanistas esnobes, tão alienantes quanto alienados. Sinceramente, não ligo que zombem de mim; isso me diverte. Incomodam-me mais os que me tratam com ar cerimonioso só porque gosto de letrinhas que, juntas, formam sílabas, que por sua vez formam palavras, que formam frases, que compõem parágrafos etc. etc. O que há de especial nisso, minha gente? Vamos comer, vamos beber, trepar, rezar, festejar, chorar&#8230; Deixem os livros abertos. Deixem as portas, janelas e balcões abertos também, como naquele poema de </span><span style="color: windowtext;"><span style="font-size: small; font-family: Arial;"><strong>Garcia Lorca</strong></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><span style="color: #000000;">*. É possível ler sem fechar os olhos para o mundo, sim. Uma obra é uma extensão de um destino humano e vice-versa. Ambos não são inconciliáveis.</span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><span style="color: #000000;">Por que perco meu tempo com isso? Não sei.</span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><span style="color: #000000;">Vai</span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><span style="color: #000000;">ver</span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><span style="color: #000000;">sou</span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><span style="color: #000000;">feliz</span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><span style="color: #000000;">assim.</span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="text-align: center;"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">*** </span></span></span></p>
<p class="MsoBodyText" style="text-align: left;"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;"><strong>*Despedida</strong></span></span></span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">Se eu morrer,</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">deixai o balcão aberto</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">O menino chupa laranjas.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">(Do meu balcão eu o vejo.)</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">O segador sega o trigo.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">(Do meu balcão eu o sinto.)</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">Se eu morrer,</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">deixai o balcão aberto!</span></span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Prêmio Portugal Telecom e a viagem de Saramago</title>
		<link>http://arlequinal.com.br/2009/05/21/premio-portugal-telecom-e-a-viagem-de-saramago/</link>
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		<pubDate>Fri, 22 May 2009 00:41:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi divulgada ontem a lista com os 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009. O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa contempla os três vencedores com R$ 100 mil ao primeiro colocado, R$ 35 mil ao segundo e R$ 15 mil ao terceiro. O resultado final do concurso será anunciado no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="font-size: small;">Foi divulgada ontem a lista com os <a href="http://www.premioportugaltelecom.com.br/2009/livros-finalistas-50.asp">50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009.</a></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="font-size: small;">O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa contempla os três vencedores com R$ 100 mil ao primeiro colocado, R$ 35 mil ao segundo e R$ 15 mil ao terceiro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="font-size: small;">O resultado final do concurso será anunciado no fim do ano.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="font-size: small;">Este escriba confessa (meio envergonhado) que leu apenas quatro das cinqüenta obras classificadas. São os romances: <strong>A Viagem do Elefante</strong> (Cia das Letras), do português José Saramago; e os brasileiros <strong>Acenos e Afagos</strong> (Record), de João Gilberto Noll; <strong>A Arte de Produzir Efeito Sem Causa</strong> (Cia das Letras), de Lourenço Mutarelli; e <strong>Animais em Extinção</strong>, de Marcelo Mirisola.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="font-size: small;">Desses quatro, o que mais me entusiasmou foi <strong>A Viagem do Elefante</strong>, definido pelo autor como <em>conto</em>, embora se trate de uma narrativa longa. Numa linguagem aparentemente simples, Saramago narra o périplo de um elefante asiático (o afável Salomão) que é enviado de Lisboa a Viena pelo rei de Portugal, João III, que o presenteia ao primo, o arquiduque Maximiliano d’ Áustria.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="font-size: small;">A caravana do elefante percorre vários povoados e é recebida de maneira entusiasmada pela população em geral. Salomão e seu tratador (ou cornaca, como é designado no livro), porém, enfrentam desconfiança e até aversão de algumas personagens com que topam no caminho, sendo a mais irascível delas um sacerdote que cisma de exorcizar o elefante por julgá-lo possuído por alguma força maligna. Além da suspeição de alguns, os viajantes ainda têm de lidar com intempéries, impasses políticos, caprichos, falta de estrutura, e vários outros imprevistos e impedimentos que uma jornada dessa ordem poderia suscitar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="font-size: small;">Ao final, saímos todos enriquecidos dessa experiência. Apaixonados pelo doce e corajoso Salomão (ou Solimão, o modo como os austríacos o chamam); satisfeitos e maravilhados com o talento narrativo e dissertativo de Saramago; e críticos em relação à idéia defendida por muitos de que todas as boas histórias já foram contadas</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: center;" align="center"><span style="font-size: small;">***</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="font-size: small;">A seguir, um pequeno trecho do romance, em que o Nobel português demonstra o tom jocoso que perpassa toda a narrativa:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><em><span style="font-size: small;">Não que fosse essa a intenção nossa, mas, já sabemos que, nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só pelo bem que soam juntas, assim muitas vezes se sacrificando o respeito à leviandade, a ética à estética, se cabem num discurso como este tão solenes conceitos, e ainda por cima sem proveito para ninguém. Por essas e por outras é que, quase sem darmos por isso, vamos arranjando tantos inimigos na vida.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"> </p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Resposta</title>
		<link>http://arlequinal.com.br/2009/05/19/a-resposta/</link>
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		<pubDate>Wed, 20 May 2009 00:34:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno M. Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[dedicado à senhorita D. E como o escritor houvesse respondido a todas as suas perguntas de modo lacônico até então, expelindo ásperos monossílabos que lhe feriam não só os ouvidos como também a auto-estima, a jovem jornalista não acreditou que uma última questão pudesse salvar a entrevista Antes de decidir-se a formular uma pergunta derradeira, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: right;" align="right"><em><span style="font-size: small;">dedicado à senhorita D.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: right;" align="right"><em></em></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;" align="justify"><span style="font-size: small;">E como o escritor houvesse respondido a todas as suas perguntas de modo lacônico até então, expelindo ásperos monossílabos que lhe feriam não só os ouvidos como também a auto-estima, a jovem jornalista não acreditou que uma última questão pudesse salvar a entrevista<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; tab-stops: 265.5pt 342.0pt;"><span style="font-size: small;">Antes de decidir-se a formular uma pergunta derradeira, ajeitou-se uma vez mais no sofá do escritório. Um sofá macio de dois assentos, coberto com uma manta verde-água que cheirava a livros e cachorro velhos. O escritor estava sentado numa cadeira de alumínio estofada e reclinável a pouco mais de um metro e meio de si. Ela precisava inclinar ligeiramente a cabeça para o alto a fim de encará-lo nos olhos, uma vez que ele se encontrava num patamar cerca de trinta centímetros acima do seu.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; tab-stops: 265.5pt 342.0pt;"><span style="font-size: small;"><em>O senhor disse uma vez que não acredita na escrita como fruto de uma necessidade. O que o incita a escrever? Por que o senhor escreve?</em></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; tab-stops: 265.5pt 342.0pt;"><span style="font-size: small;">O escritor descruzou as pernas e pousou languidamente os braços longos e flácidos sobre elas. O mal-estar que não se esforçara por ocultar durante toda a conversa tornava ainda mais fundos os vincos que lhe sulcavam a face septuagenária. Abriu a boca de finos lábios arroxeados e ensaiou um preâmbulo que não passou de muxoxos e outros sons ininteligíveis. Alguns segundos depois, ele ditou a resposta:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; tab-stops: 265.5pt 342.0pt;"><span style="font-size: small;"><em>Eu escrevo para aliviar a dor dos reumáticos e dos cancerosos. De todos os que sofrem enfim, nesta terra </em>onde os homens vivem a gemer*<em>. Escrevo para que os bons ressuscitem e os maus padeçam. Escrevo para desbastar as almas torvas, aguar os sítios áridos. Eu escrevo para fazer dormir os insones e despertar os letárgicos. Para que haja entendimento entre os povos. Justiça. Fraternidade. Solidariedade entre os homens. Escrevo para aplacar o ímpeto dos suicidas, a aflição dos solitários e a ansiedade dos compulsivos. Eu escrevo para que as crianças cresçam saudáveis e os velhos retornem à terra com o mínimo de angústia e o máximo de entendimento. Para que nenhuma espécie ou ecossistema se extinga. Para impedir as queimadas. Deter as pequenas tragédias cotidianas. Escrevo para conter o derretimento das calotas polares. E para que as tartarugas retornem à praia onde um dia eclodiram do ovo com o fito de depositar outros ovos. Eu escrevo para amplificar o clamor dos oprimidos e abafar os desmandos dos tiranos. Para evitar colisões aéreas. Para consolar os pais que enterram os filhos e os filhos que velam os pais.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>Para que os campos floresçam e os arsenais nucleares mingúem. Eu escrevo para expiar a culpa dos arrependidos e disseminar o perdão. Escrevo para. Eu escrevo&#8230;</em></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; tab-stops: 265.5pt 342.0pt;"><span style="font-size: small;">Deteve-se abruptamente, como se suas cordas vocais houvessem se rompido. A frase morreu insipiente. Os olhos bastos quedaram-se fixos num ponto inexistente, parecia que a alma tinha-se esvaído do corpo por uma fresta escusa qualquer.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; tab-stops: 265.5pt 342.0pt;"><span style="font-size: small;">Sensibilizada – talvez essa não seja a palavra correta – com o destempero do velho romancista, a jovem jornalista, incapaz de sacá-lo do estado de torpor em que mergulhara, juntou seus pertences – um bloco de notas, uma esferográfica, gravador, e o último romance do mestre que saíra por uma pequena editora em tiragem ainda menor -, levantou, não sem algum dificuldade, do sofá, agradeceu pela atenção e caminhou na direção da porta.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; tab-stops: 265.5pt 342.0pt;"><span style="font-size: small;">Antes de deixar o escritório, a jornalista não pôde se furtar a dar uma última olhada para trás. A figura tétrica continuava na mesma posição em que ela a abandonara, a mesma efígie insondável. Saiu e ato contínuo fechou a porta quase bruscamente. Quando ganhou o saguão do edifício, pensou em retroagir e tentar insuflar algum ânimo ao velho romancista, mas preferiu confortar-se com a idéia de que ele voltara a escrever tão logo ela fechou a porta. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; tab-stops: 265.5pt 342.0pt;"><span style="font-size: small;"><em>*Verso do poema <strong>Ode a um rouxinol</strong>, de John Keats, o qual serve de epígrafe ao romance <strong>Homem Comum</strong>, de Philip Roth.</em></span></p>
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