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	<title>Arlequinal &#187; Binho Santos</title>
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	<description>Cultural e Coletivo</description>
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		<title>Budapeste</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jul 2009 04:50:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Binho Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Com uma primorosa fotografia, atuações certeiras e soluções cinematográficas bem calculadas, &#8220;Budapeste&#8221;, o filme, é uma obra a que vale a pena assistir. Walter Carvalho, que há muito tempo trabalha predominantemente como diretor de fotografia junto a outros cineastas, fez uma adaptação muito bem sucedida do romance homônimo de Chico Buarque publicado em 2003. Leonardo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arlequinal.com.br/wp-content/uploads/2009/07/budapeste071.jpg"><img class="size-full wp-image-384 alignleft" style="margin: 2px" src="http://arlequinal.com.br/wp-content/uploads/2009/07/budapeste071.jpg" alt="budapeste071" width="300" height="200" /></a>Com uma primorosa fotografia, atuações certeiras e soluções cinematográficas bem calculadas, &#8220;Budapeste&#8221;, o filme, é uma obra a que vale a pena assistir. Walter Carvalho, que há muito tempo trabalha predominantemente como diretor de fotografia junto a outros cineastas, fez uma adaptação muito bem sucedida do romance homônimo de Chico Buarque publicado em 2003.</p>
<p>Leonardo Medeiros incorpora competentemente José Costa/Zsose Kósta, o homem que se divide entre duas mulheres, duas pátrias e duas línguas &#8212; todas elas antagônicas entre si. Wanda e Kriska são duas mulheres que vivem suas vidas de maneiras que sequer se tangenciam: à superficialidade daquela contrapõe-se a poeticidade desta. O português brasileiro (carioca, especificamente) possui uma musicalidade que o húngaro aparenta não ter e transparece aquela famosa lábia tão afim a uma imagem de Brasil (a boa e velha &#8220;cordialidade&#8221; local?). Quanto às pátrias&#8230; Se Brasil e Hungria são países que se diferem em muitos aspectos, a fotografia do filme, sempre tendendo para as cores neutras e para os tons de marrom, parece denunciar que existem mais semelhanças que diferenças entre ambos os cenários. José/Zsose é um homem que não se localiza, qualquer que seja o local onde habite, e jamais se sentirá em casa: em qualquer lugar, ele será sempre um estranho.</p>
<p>Desse modo, a adaptação fílmica dá conta de uma ideia que no livro se perde, pois o desejo do autor de tornar experimental um tema já tão tratado (e com muito mais desenvoltura por tantos outros autores) pela literatura encaminhou-se para uma metalinguística pretensamente revolucionária, correndo o risco de se tornar um tratado sobre a relação identidade pessoal X identidade linguística. Não que o livro seja ruim, pelo contrário. Mas seu tom ensaístico não comporta sequer a ironia borgeana adequada à proposição do autor (hemos de concordar que a abordagem de Chico Buarque é calcada nas ficções de Borges).</p>
<p>O diretor do filme soube transformar em imagens aquilo que o livro não soube dizer com palavras: o homem contemporâneo, essa existência que se multiplica em várias existências que não existem, não possui um ser, por mais que se desloque de um lugar para outro, de uma vida para outra, e assim por diante. Tudo é encenação, uma questão, talvez, de nomenclatura ou de apropriação (isso é meu porque eu digo que é meu, mas isso não passa de uma questão de linguagem, não de realidade (?), tudo é construção). A última cena do filme é a mais importante do filme, nesse sentido (e ninguém me tira da cabeça que há um dedo do Bergman de &#8220;Persona&#8221; nesse artifício usado pelo diretor).</p>
<p>E que significativa é aquela cena em que o rio que corta Budapeste serve de passagem para a estátua de Lenin&#8230; Estamos mesmo num mundo dividido, em que os discursos se perderam e em que as pessoas revelam-se como máscaras&#8230; Tudo é recorte, seleção, versão. O tema, como já dito, não é novo, mas ainda é possível se surpreender com certas escolhas bem feitas.</p>
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		<title>&#8220;Persona&#8221; de Ingmar Bergman</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Jun 2009 05:49:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Binho Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Parece que as crises de identidade às vezes servem para algo produtivo. A de Ingmar Bergman em 1966 lhe valeu a ideia de fazer um filme em que se questionava, além da identidade do indivíduo, a do cinema. O resultado foi uma obra-prima: Persona. Se Bergman tem a fama de ser admirado somente pelos &#8220;cools&#8221;, &#8220;cults&#8221; e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright" style="margin: 2px;" src="../wp-content/uploads/2009/06/444px-Ingmar_Bergman_-_Persona.jpg" alt="Poster no filme &quot;Persona&quot;, com as atrizes Bibi Andersson e Liv Ullmann" width="444" height="600" />Parece que as crises de identidade às vezes servem para algo produtivo. A de Ingmar Bergman em 1966 lhe valeu a ideia de fazer um filme em que se questionava, além da identidade do indivíduo, a do cinema. O resultado foi uma obra-prima: <em>Persona</em>.</p>
<p>Se Bergman tem a fama de ser admirado somente pelos &#8220;cools&#8221;, &#8220;cults&#8221; e &#8220;cabeçudos&#8221;, quem vir esse filme vai ter certeza dessa opinião &#8212; embora ela seja muito limitada. <em>Persona </em>é uma aventura pelo território imprevisível da personalidade humana: o que somos é uma máscara do que somos, portanto existir é atuar, e o mundo é um palco &#8212; ou uma tela. Duas mulheres compõem um duelo de máscaras em que a sinceridade pode não ser o oposto do fingimento, mas uma outra forma de fingir. Ou então as duas mulheres são apenas a frente e o verso da mesma máscara, e uma finge que é a outra de verdade.</p>
<p>A grande mestria de Bergman é pensar essa ideia, tão confusa e já tratada muitas e diversas vezes pelo teatro e pela literatura, cinematograficamente. E as soluções adotadas pelo cineasta sueco só podem tender mesmo ao radical: não há meios-termos quando o assunto é crise. A começar pela &#8220;semelhança&#8221; entre as atrizes Bibi Andersson e Liv Ullmann; tal semelhança, mais do que real, é construída de modo que o espectador a aceite e se desestabilize ao mesmo tempo. Se existe mesmo essa parecença, o quanto ela pode revelar da nossa própria ambiguidade? Então, desde que alguém saiba manipular as imagens, aceitamos a ilusão oferecida? (E como o talento dessas atrizes colabora para que aceitemos tudo!!!)</p>
<p>Então o cinema é um mecanismo que produz mentiras? O cinema é, antes de tudo, um mecanismo. É isso o que nos diz a primeira cena da antológica sequência inicial (confesso: é a minha parte preferida do filme). Um mecanismo que nos ilude mas que pode a qualquer momento entrar em colapso e se revelar como artifício (a cena em que o filme parece queimar é ilustrativa). Se o rolo de filme se queima e a máscara é descoberta, qual a nossa reação? Descoberta a trapaça, vamos em busca daquilo que ela disfarça ou tentaremos construir outra verdade, mesmo já sabendo da mentira que ela é?</p>
<p><em>Persona</em> é, antes de tudo, a comprovação de que , caso não seja possível encontrar a essência das coisas, a Verdade, pelo menos temos o conforto de saber que a ausência Dela pode resultar numa obra como essa.</p>
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		<title>Uma opinião sobre Borges</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Jun 2009 04:51:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Binho Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma vez li numa certa revista, a qual hoje deve se achar nalgum lugar escuro e úmido, num texto sobre Jorge Luis Borges, a opinião (publicada na seção &#8220;Cartas do Leitor&#8221;) de que o  escritor argentino não passava de um escritor pop (&#8220;o maior de todos&#8221; &#8212; esclarecia o autor do texto). Comentei tal juízo com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arlequinal.novasvisoes.com.br/wp-content/uploads/2009/06/Borges-II.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-306" style="margin: 2px;" title="Borges-II" src="http://arlequinal.novasvisoes.com.br/wp-content/uploads/2009/06/Borges-II-218x300.jpg" alt="Borges-II" width="218" height="300" /></a>Uma vez li numa certa revista, a qual hoje deve se achar nalgum lugar escuro e úmido, num texto sobre Jorge Luis Borges, a opinião (publicada na seção &#8220;Cartas do Leitor&#8221;) de que o  escritor argentino não passava de um escritor pop (&#8220;o maior de todos&#8221; &#8212; esclarecia o autor do texto). Comentei tal juízo com um escritor amigo meu que parecia discordar da ideia &#8212; &#8220;é uma ofensa&#8221;, dizia ele, entre o constrangimento e a cólera. Indaguei dele qual seria o mal na alcunha de &#8220;escritor pop&#8221;, pois eu entendia que ser pop significava diminuir a distância entre o leitor que busca a simplicidade simpática do entretenimento e o leitor que requer o requinte seguro da erudição. Na minha opinião, Borges fazia isso com muita despreocupação. Mas meu amigo insistia em afirmar que um escritor da mais alta estirpe como Borges não podia ser considerado &#8220;pop&#8221;. &#8220;A alta literatura é inacessível à massa&#8221;. Eu, que nunca fui muito seguro disso, mas também nunca ousei tentar comprovar o contrário disso, me calei, e dei por encerrada a discussão.</p>
<p>Depois de uma semana revirando aquelas ideias na minha mente inquieta, resolvi escrever um texto (assinado com o pseudônimo Marcel Coelho) no qual a ideia central era a de que grandes artistas sempre se valeram dos elementos disponíveis, entre eles as manifestações populares e a subliteratura. A isso se juntava um pensamento, a meu ver não tanto problemático, de que as próprias distinções &#8221;cultura popular&#8221; e &#8221;subliteratura&#8221; só tinham interesse para críticos que se esforçavam para eles mesmos se notabilizarem por contribuir para a construção de um cânone. Assim,  nós nos lembraríamos menos do autor que do crítico que disse que tal autor é &#8220;excepcional&#8221;, &#8220;fundamental&#8221; etc. No final, o texto coube em duas folhas de sulfite impressas frente-e-verso com fonte Times New Roman tamanho 12, espaçamento 1,5, alinhamento justificado. Dobrei-as com certo cuidado e as depositei num envelope no qual, em letra de forma, escrevi o primeiro nome do meu amigo.</p>
<p>Durante um jantar, num momento em que ele se distraíra, coloquei a carta no meio de um livro de contos de Marcelino Freire que meu amigo deixara sobre a mesa. Passaram-se muitos dias sem qualquer menção ao texto.</p>
<p>Quase um mês depois, meu amigo, ao telefone, me dizia que tinha mudado de opinião e que, se eu quisesse saber o que ele pensava daquela discussão sobre Borges, comprasse a mais nova edição daquela mesma revista, pois haviam &#8212; os editores, sempre sagazes &#8211; publicado um artigo dele.  Ansioso, comprei a revista e, por acaso, abri-a exatamente na página em que Marcel Coelho defendia a irrelevância da distinção entre alta cultura e subcultura etc., citando o caso &#8220;emblemático e arquetípico&#8221; de Borges. E uma nota de rodapé em que meu amigo, em seu próprio nome, afirmava que tal texto era uma versão revista e ampliada de um texto da edição anterior que ele mesmo havia escrito com outro pseudônimo e que Marcel Coelho era apenas o seu pseudônimo menos medroso.</p>
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