Dessa Tinta
Tuesday, October 11th, 2011Por Fernando de F. L. Torres,
A tinta acabou! A tinta acabou antes do papel e não foi por falta de matéria prima. Quando comecei a ler jornal, lápelos nove anos de idade, minha mão ficava toda suja de tinta e eu orgulhosamente as lavava. Agora a tinta acabou e nem vimos direito como isso aconteceu. Mas… a tinta faz falta?
Obviamente o epitáfio da tinta é metafórico. E não falo nem do livro digital. Nem mesmo repito aqueles argumentos já sonolento dos escritores que hoje ninguém mais lê no Brasil. Em nenhum momento de sua história o Brasil foi um país de leitores, as estatísticas sobre o analfabetismo estão aí para desestruturar o argumento que cada vez se lê menos.
Nossa relação com a palavra escrita mudou. Antes ela era de se colocar debaixo do braço. Quem podia tinha livros e jornais para carregar debaixo do braço. Os alfabetizados eram donos da palavra escrita. Depois, um dia não sei bem o porquê, tenho a noção que a palavra estava nos mimógrafos. Foi o boom do conto, foi o panfleto, e este minguou. a palavra virou pública e virou outdoor. E um dia proibiram o outdoor em São Paulo e a palavra resiste apenas sem a tinta. Piscando nas telas dos computadores.
Mas a tinta morreu. Você sabia? A caneta, esse objeto que já foi status, que já foi bic ou kilométrica sumiu das mãos e dos bolsos. Vou ao fórum e os estagiários fotografam os processos. Sou do tempo que anotávamos em fichas o andamento dos processos. Procure alguém rabiscando um guardanapo enquanto espera no restaurante ou quando fala no telefone.
Pouco à pouco não ouço mais a expressão “carregou nas tintas”, aliás, agora as pessoas “têm imagens carregadas”, a tinta deixa de ser cultura. Tinta, tinta… o que fizeram de você?
Mas se o disco de Vinil teve seu ressurgimento, por que não a tinta? Em algum lugar deve existir o Movimento Revolucionário Tinta na Mão, associado ao Grupo de Resistência Cheiro do Livro e com a Frente dos Espancadores de Máquina de Escrever, preparando o contragolpe.


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