Um livro para não resenhar

Friday, May 6th, 2011

Por Fernando de F. L. Torres,

Tenho a mania de comparecer à lançamentos de livros, pegar minha dedicatória e esperar algum tempo para ler o livro. Geralmente, gosto de deixar o livro repousar na estante até um momento de encontro. Creio que quem lê sem muita organização se identifica com essa minha mania, os livros devem te atrair em um momento específico.

Ontem, peguei o livro Linguagem de Sinais, de Luiz Schwarcz que repousava ali depois de ter passado pelas mãos de meu pai.

Ao ler os contos tive uma sensação diferente. Gosto de livros que não demonstram especial pretensão por parte de seu autor. Cada vez mais raro, uma vez que a desprentesão é uma das  maiores pretensões dos escritores atuais. Gostei do livro, mas fiquei pensando que este livro tem uma forma especial de despretensão, a verdadeira.

Luiz escreve contos elegantes em tom confessional (não sei quanto de confissão real há neles) de histórias cotidianas e sensíveis.  Claro que impossível dissociá-los das crônicas do Editor (ora autor) da Cia. das Letras em seu blog.

O livro não tenta (ou pelo menos não aparenta) provar nenhum ponto, não faz nenhuma ousadia formal. É apenas um livro para se ler com calma, degustar. Não cabe à leitura maiores análises críticas e, pouco à pouco, para quem já está acostumado a “ler como escritor” (o que quer que isso queira dizer), o livro se torna um exercício de leitura por prazer puro.

Voltei a ler sem o rigor estético que eu lia anos atrás. Deixei de lado “o prazer de especialista” (que não sou) para ler com o prazer que eu tinha antes das minhas pretensões literárias. Lembrei do prazer que tive nos primeiros contos que escrevi, quando publicar um livro era um sonho longínquo, muito antes das Copas de Literatura e Arlequinais.

Engraçado que ao terminar o livro não tive vontade de dissecá-lo,  nem de escrever uma resenha, ou correr à livraria comprar todos os escritos do autor para aprender com o mestre. A vontade que tive foi de voltar à contar histórias. Quando deixei de ter vontade de contar histórias para fazer exercícios estilísticos?

Existe um crítico (que não mencionarei o nome para não lhe dar mais ibope) que rejeita o romanesco. Aliás o problema de todos os escritores brasileiros vivos, segundo ele, é não se afastar do romanesco. Mas que mal há nisso? O romanesco já não foi desconstruído? Essa vanguarda já está toda morta e enterrada. São mestres, mas copiá-los não seria mimetização sem intencionalidade? Escolho contar mais histórias e fazer menos exercícios.

O mérito do livro de Luis Schwarcz é exatamente esse, alguém que pode tudo (afinal, está à frente de uma das principais editoras do país), escolhe o ofício de contar histórias. E nada mais.

 

 

 

One Response to “Um livro para não resenhar”

  1. Hummm…. bacana!
    Fiquei com vontade de ler…
    Bjs

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