Alterações Póstumas na obra
Friday, January 7th, 2011Foto: Museu Auschwitz – http://en.auschwitz.org.pl
Por Fernando de F. L. Torres,
Ontem, no Twitter, o escritor Paulo Coelho reclamou das alterações que uma editora norte americana está implementando no livro Huckleberry Finn, para excluir a palavra “Nigger” do texto (veja notícia sobre o assunto aqui, em inglês).
A mesma discussão ocorreu anos atrás com Ernest Hemingway, quando seu neto alterou sua auto-biografia Paris é uma Festa (veja aqui).
Alguns falam em botar o dedo na obra de Monteiro Lobato, para torná-lo mais adequado.
Os (não mais que três) habituais leitores desse espaço já podem supor que creio ser um crime a prática de alterar uma obra de arte dessa forma. Um livro, um filme, uma pintura etc, são documentos de seu próprio tempo, e como tal, adequá-los é uma forma brutal de tentar mudar a história.
No excelente livro “Lembrar escrever esquecer” Jeanne Marie Gagnebin fala da delicada tarefa de preservar a história e seus documentos, por mais dolorosos que sejam essas memórias, pois apenas assim é possível refletir sobre os erros do passado sem repeti-los. Muito disso vem da “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimmer.
Em suma, se Tom & Jerry fumavam cigarros, se Han Solo atirou primeiro, se Hemingway revelou passagens constrangedoras da vida de sua ex-esposa, se Monteiro Lobato ou Mark Twain usavam vocabulário racista, é importante lembrar que assim era a obra original, imersa em seu tempo. Acho importante, não apenas manter integralmente a obra original, como acrescenta Notas de Rodapé em cada uma dessas obras quando reeditadas, documentando que, apesar de admiradas em seu conjunto, alguns pontos dela não condizem com os valores do tempo que são reeditadas.
Lembro-me de me contarem a história (ou de ter lido em algum lugar) que quando o exército americano chegou à Auschwitz, o comandante das tropas ordenou que nada fosse destruído e que cada um dos soldados usassem suas cameras fotográficas para registrar os horrores daquele lugar, que jamais poderia ser esquecido.
Da mesma maneira, Primo Levi, que foi prisioneiro em tal campo de concentração, dedicou boa parte de sua obra à manter viva a memória dos horrores do Nazi-Facismo das décadas de 1930-1940.
Os esforços para manter essa memória até o momento foram bem sucedidos, filmes e livros continuam ser escritos passados 70 anos.
Porém a tendência de “Revisionismo” (Se preferir “Negacionismo”) me preocupa. Sem memória tenderemos ao erro novamente, à opressão. Nunca se esqueçam que o emprego do protagonista de 1984 era exatamente de “corrigir” os jornais antigos, para que eles fossem mais adequados. O autoritarismo caminha de mãos dadas ao esquecimento da história, principalmente dos erros do passado.
Talvez um dia apaguem todo e qualquer registro de preconceito da cultura. Talvez um dia Auschwitz seja completamente esquecido. Nesse dia, provavelmente aparecerá alguém com ideias segregacionistas, e a humanidade não estará preparadas para rejeitá-las.


[...] This post was mentioned on Twitter by Alexandre Heredia, Arlequinal, Arlequinal, Daniel and others. Daniel said: Ótimo texto do @novasvisoes sobre a estupidez do "progresso" em relação aos contextos históricos do passado http://wp.me/pvrk9-eu [...]
Assino embaixo e ainda rubrico, Fer. Excelente texto, devidamente twittado.
1984 e a novilingua! Este é pior tipo de censura!
Muito bom!
Até porque, o racismo deve ser combatido, não “escondido”!
Abraço!
E viva o Exército Vermelho, libertador de Auschwitz!