Já que você não está fazendo nada

Thursday, December 16th, 2010

Por Fernando de F. L. Torres,

Tenho quase certeza que você já enfrentou essa situação: acordou um sábado de manhã, ainda de pijama resolveu ler aquele livro que está na sua mesa de cabeceira, quando sua/seu (namorada/o, esposa/marido, noiva/noivo, mãe, pai, cachorro, gato, galinha) olha para você e diz “Já que você não está fazendo nada…” e te pede para realizar uma tarefa.

Para começo de conversa, a pessoa inicia o pedido com uma premissa errada, você está fazendo alguma coisa, você está lendo. Se você tivesse alugado um filme e colocado o disco no seu DVD, a pessoa não pediria para você realizar aquela tarefa, se você ligasse o computador e ficasse se distraindo com as famosa mídias sociais, não haveria pedido. Mas não, você está lendo.

Meu caso se agrava, alguns anos atrás decidi ser escritor profissional. Porém nunca abandonei a ideia de ser advogado (nem abandonarei). Por consequência, tento aproveitar o tempo livre para colocar a leitura em dia. De tal forma, quando estou lendo em um sábado de manhã, estou trabalhando. E sim, considero absolutamente válido trabalhar de pijama, aliás, todo mundo deveria trabalhar de pijama de vez em quando para ver como é bom.

Quando percebi que situação era reiterada, resolvi mudar de tática aos sábados pela manhã. Passei a acordar, preparar o café-da-manhã, arrumar a cozinha, tomar banho, vestir uma roupa, vistoriar a casa por possíveis tarefas, perguntar se alguém precisa de ajuda e então sentar ao meu sofá com um livro. Mas ali no segundo parágrafo a/o (namorada/o, esposa/marido, noiva/noivo, mãe, pai, cachorro, gato, galinha) e quer conversar. Afinal, você não está fazendo nada e é um ótimo horário para conversar sobre a semana, fofocas da família, aquele texto que a Camila publicou no Mundo Mundano…

Acredite, tenho o maior prazer de conversar com as pessoas. Sou capaz de perder a hora quando estou ao redor de uma mesa. Adoro quando o o almoço vai até o sol se por numa boa conversa, ou o jantar entra na madrugada acompanhado de pessoas queridas. Quando vou para casa do meu avô passo horas com ele entre chistes e bromas, sentado na mesa tomando um Mate-Couro (refrigerante típico de Minas Gerais) ou um café e pão com manteiga. Ou seja, não enfio meu nariz no livro para fugir de pequenas tarefas domésticas ou interação com as pessoas, mas por que ler é um objetivo em si mesmo.

Mesmo que eu quisesse aproveitar um tempo sem fazer nada, em meus pensamentos, sem o barulho da televisão ou do rádio. Organizar umas ideias ou descansar a cabeça daquelas trinta e cinco mil atividades que você teve durante a semana. Isso não é válido? Ficar um pouco em silêncio? Ficar quieto? Ficar sem fazer nada? Por favor…. só um pouquinho!

Mas agora estou com uma nova tática. Leio meus livros na frente do computador ligado. Por enquanto está funcionando.

3 Responses to “Já que você não está fazendo nada”

  1. Me pergunto se não foi por isso que inventaram os e-books.

    Eu, quando consigo ler, o que é la uma façanha enorme na minha vida hoje, o faço de madrugada. Pronto. Quero so ver ser interrompida por qualquer coisa diferente que a manhã me lembrando que eu deveria ter dormido pelo menos um pouquinho…

  2. Pois é, Fernando! Eu sou prova viva de que vc perde a noção do tempo numa boa prosa…
    =)
    Seu texto me fez pensar sobre minha competência em colocar limites, especialmente quando é para pessoas com quem tenho intimidade. Mas isso é um tema de uma outra crônica… rs!

  3. Mais uma prova de que as pessoas não nasceram para viver em grupo. Exceto pelos gêmeos (uma aberração), ninguém nasce em grupo, e tampouco as pessoas normalmente morrem em grupos.
    Viver em grupo é a anomalia.
    Cada um em sua toca, como eu faço.

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