Não confie em um escritor
Monday, December 13th, 2010Por Fernando de F. L. Torres,
Entre tantos conselhos que darei à minha pequena Madá (filha que ainda não tenho, mas que está nos meus planos para esta década), tais como não falar com estranhos e sempre ter um cartão telefônico para emergências (na minha adolescência eu sempre tinha fichas), estará o de não receber homenagens daqueles que se dizem escritores.
Eu me disfarço bem no dia a dia. Se alguém me pergunta eu logo digo: Sou advogado. Gosto de ler e escrevi um livro, mas bom escritor não se diz escritor. É jornalista, Advogado, Vagabundo ou qualquer outra coisa menos escritor.
Mas acontece que, ao final de um longo dia de aula, em que alunos de diferentes turmas de pós graduação em direito (Trabalhista, Contratos, Tributário, Educacional etc) tiveram aula no mesmo auditório para o encerramento do ano letivo, uma das assistentes de uma das turmas com quem por vezes converso me aborda e diz com brilho nos olhos: “Ganhei uma crônica!”
Atônito, penso logo em doença. Crônica? penso eu – Apendicite? Será? Mas minha querida amiga, complementa: “Aquele aluno é escritor, disse que vai escrever uma crônica sobre mim.” Eita! Penso eu.
Aquelas palavras, ditas com tanto gosto. Ele. É. Escritor. Será que revelo, que por trás desse advogado com barba por fazer, que passa os sábados em curso de Pós Graduação, existe um escritor? Que publiquei meu primeiro livro este ano? Que recebi um certo retorno crítico positivo? Que… nada mais.
Não. Não posso. Não devo.
Pensei em questioná-la: Escritor do que? Onde? Que livros publicou? Mas hoje qualquer um é escritor, basta um blog e alguma disposição. Mas, quantas crônicas será que escreveu o personagem da nossa conversa para as jovens mulheres? Você vai verificar se a obra é original? E a qualidade literária dela, importa?
Mas não fiz nada disso. Com a certeza de que todo escritor deveria querer queimar cada um dos seus originais (como foi Kafka) ou roubar exemplares de seus livros da casa de amigos (como Dalton Trevisan) ou se esconder da fama (J. D. Salinger e Raduan Nassar). Desprezo o rapaz.
Que coisa feia! Usando o nobre nome da literatura indevidamente? Mas a Literatura não tem nada de nobre. Nem sei para que ela serve, nesse mundo em que tudo deve ter uma serventia. Mas para isso eu acho que não é. Ou é?
Já sei!
Entendi!
A literatura (pelo menos a boa) é essencialmente uma mentira. Uma mentira cuja verosimilhança lhe dá ares de verdade. É, portanto, como qualquer mentira bem contada, perigosíssima. Nas mãos erradas pode causar danos catastróficos.
Cuidado menina! Se um escritor lhe oferece uma literatura-flerte, saiba que ele está lhe oferecendo uma mentira-flerte. Vinicius de Morais até tem seu charme canalha (“que seja eterno enquanto dure”), mas nem todos são o poetinha.
Como não pude dar o conselho a tempo para minha amiga, guardo para minha filha: Não confie em escritores, a mentira é sua matéria prima.


[...] This post was mentioned on Twitter by Arlequinal, Arlequinal. Arlequinal said: Post bem humorado no Arlequinal: http://wp.me/pvrk9-e1 [...]
Bróda,
quem é alguma coisa já morreu!
Não se iluda com a noção Academicista Uspiana de Literatura. Temos muitos grandes vivos que merecem nossa atenção: Raduan, Gullar, Trevisan etc, para citar alguns.