Ela gosta mesmo é de dar

Tuesday, November 16th, 2010

Por Fernando de F. L. Torres,

Recentemente um amigo crítico literário divulgou um link interessante. Uma mulher que está dando muito, quase sem parar, no meio da rua para não ser jogada na fogueira.

Pode parecer um enredo de Dalton Trevisan, mas não é. Chantal Dalmass, descobriu que seus livros, publicados pela Ed. Planeta, seriam incinerados para dar espaço a novos livros no estoque, então ela os recuperou e agora está distribuindo os livros nas ruas de são Paulo.

Como assim? O livro encalhou. Aliás, muitos livros encalham. Encalham pelos mais diversos motivos, e como não quero fazer uma tese sobre o mercado livreiro, publicidade, distribuição e tudo mais, vamos apenas partir do ponto que o livro encalhou.

Muita gente não sabe, mas após um encalhe muitos livros são incinerados. Por ex., houve um tempo entre o final da década de 1990 e começo dos 2000, que era muito comum se editar livros manuais para programas de computador. Na época, a internet ainda engatinhava, os programas em sua maioria eram importados e em língua estrangeira, seus manuais originais dificilmente chegavam por aqui. Então, livros ensinavam como você usar o Win95, Office97, Corel6 e outros programas populares. Mas aí veio o Win98, Win2000, WinMe, WinMillenium, WinXP, WinVista e Win7, veio também novos aplicativos e programas que tornaram cada um desses livros obsoletos. Destino de tantos livros? Incineração.

O mesmo destino têm os livros técnicos/científicos quando uma nova edição atinge as prateleiras revisada, atualizada e aumentada. Livros didáticos? O mesmo. um autor trocou de casa editorial ao fim do contrato? Fogueira nos exemplares. Romance encalhou e não temos perspectiva de uma jogada de marketing? Pode chamar o caminhão da incineradora. Já ouvi diversas vezes essas histórias.

Acredite, muitas vezes o livreiro nem quer fazer isso. Amiga minha que trabalha numa das principais editoras do país me confessou, com dor no coração, que teve de mandar queimar livros. O que aconteceu? Um dos livros do catálogo não poderia mais ser comercializado após o término do contrato com a editora. O autor, porém, manifestou sua aprovação pela doação de livros para bibliotecas e escolas públicas. Ela logo se ofereceu para “fazer acontecer”. Porém, a burocracia era enorme, os funcionários da administração pública não gostaram muito da ideia, afinal, daria um trabalhão distribuir tantos livros, eles precisariam licitar para isso, já que ninguém tem essa especialidade na administração. Fora isso, teriam de encontrar um local para estocar, tomar conta que não houvessem desvios, ufa! Era muito trabalho. O que aconteceu? Fogueira!

Mas você acha que isso é exceção? Que aconteceu devido à quantidade de livros? Anos atrás, em sua eterna busca pela administração do pequeno espaço de um apartamento, minha mãe decidiu doar todos seus livros de faculdade para a instituição que ela se formou, instituição privada. Ela pouco, ou nada, usava aqueles livros e eles tomavam espaço que poderia ser aproveitados de outras maneiras no apartamento. Resultado? Não havia espaço na biblioteca da universidade, então, os livros teriam que ser avaliados para se verificar o interesse nas obras, teriam que ser preenchidos formulários para cada livro individualmente e caso não fossem aprovados, ela teria que buscá-lo, ou eles seriam destruídos. A solução foi doar ao Conselho Regional de Fonoaudiologia, que aceitou de bom grado, mas que a consulta estaria restrita aos profissionais inscritos e não a todo e qualquer estudante interessado na matéria.

Eu ouvi histórias como essas inúmeras vezes.

O que acontece com Chantal Dalmass é que, provavelmente, o contrato dela com a editora terminou, aqueles exemplares estavam ocupando espaço e não havia interesse de se prorrogar o contrato, por motivos comerciais, e deixá-los ali representaria um custo de estoque. Diante do prejuízo, o mais fácil seria queimá-los. Acredito que ela deve ter recebido os livros por meio de acordo, o qual a impedia de comercializá-los. Uns dois anos atrás sugeri que um amigo fizesse o mesmo com sua editora que ameaçava incinerar exemplares de um livro encalhado, mas aparentemente o livro ainda está sendo comercializado.

A solução para Chantal foi distribuir seus livros para divulgar sua obra e sua causa. A causa ficou maior que seu livro. Ela é contra a incineração de milhares de livros anualmente pelas editoras, ela está usando todas as armas para divulgar essa causa, o apelo erótico de seu livro ajuda, suas roupas provocantes e, principalmente, sua inteligência. Mas ela já deixou claro: ela gosta de dar, e vai continuar dando até o limite. Do seu estoque.

4 Responses to “Ela gosta mesmo é de dar”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Arlequinal, Bruno M. Oliveira, MARCO_BERNARDINO, Fernanda Fiamoncini, Chantal Dalmass and others. Chantal Dalmass said: RT @novasvisoes: Post novo no Arlequinal http://bit.ly/9kilZH falando sobre @chantaldalmass escritora que quase teve 2000 exemplares de … [...]

  2. Prezado Fernando,

    Agradeço pela matéria publicada no ARLEQUINAL: “Ela gosta mesmo é de dar”.

    Adorei o título e, como você bem notou, uso todas as armas de que disponho para defender a minha causa contra a queima de livros por editoras. Acho isso o fim do mundo, sinto-me vivendo num pedaço do inferno, um lugar esquecido da civilização.

    As coisas não aconteceram exatamente como você supõe, não recebi os livros por meio de acordo, eu poderia vender os livros, se quisesse. Tenho a nota fiscal: 75 caixas de livros que lotaram um caminhão e hoje se espalham pela minha casa (nova decoração). Mas eu não vendo, não troco. Não aceito um centavo por eles! Apenas dou. Na rua. Em pé.

    Foram 3716 exemplares salvos da fogueira da Planeta, e meu contrato com a editora não terminou, eles desistiram 2 anos antes!

    Também sou advogada, estudei Direito na USP, tive aulas com o Goffredo da Silva Telles todas as segundas-feiras, às 11 da manhã. Imagino o que diria o velho mestre ao saber que uma editora estaria queimando seus livros encalhados de Filosofia do Direito, talvez volumes menores contendo a Carta aos Brasileiros – livros não divulgados, não vendidos…

    Os livros que salvei do fogo são MENTIRAS E CONFISSÕES, de minha autoria, e A CAMA REDONDA DE MARIA BEATRIZ, de Maria Beatriz Soares, publicados pela Planeta em 2005.

    Autora de MENTIRAS E CONFISSÕES, tive meus primeiros textos de ficção publicados pela revista VIP, da Editora Abril, em 1999, e a coletânea de contos TODAS AS SERPENTES DO PARAÍSO, em 2000, pela Editora Objetiva.

    Maria Beatriz Soares, a autora de A CAMA REDONDA DE MARIA BEATRIZ, foi durante 3 anos colunista das revistas VIP e PLACAR, colaboradora da PLAYBOY, da Editora Abril, e criadora e produtora do site CAMA REDONDA (em parceria com o UOL).

    Obrigada, novamente, pelo matéria no ARLEQUINAL e por seu apoio.

    Dar os livros que, apesar de terem ficado em segundo plano com toda essa história de dar na rua, sempre receberam boas críticas e elogios do público das revistas e do site e, recentemente, dos milhares de leitores que conquistei pessoalmente.

    Um abraço, Chantal

    Entrevista:

    http://gangrenadiarioentrevistas.blogspot.com/2010/11/valquiria-metaloerotica.html

    E-mail/MSN: chantal.dalmass@terra.com.br

    Blog: http://chantaldalmass.zip.net

    Twitter: http://twitter.com/chantaldalmass

  3. [...] This post was mentioned on Twitter by Chantal Dalmass, Chantal Dalmass. Chantal Dalmass said: Eu gosto mesmo é de dar! Veja por quê: http://bit.ly/c7X1I2 #chantalSOSbooks #DoeUmLivro [...]

  4. Terminado de ler livros, que sei que não serão consultados no futuro, o caminho natural para eles é uma parada de ônibus, uma máquina de auto-atendimento de banco, um banco de aeroporto.
    Haverá alguém que os aproveitará.
    O modelo tinha de ser mais espalhado, mas a obsessão dos brasileiros em juntar tralha é maior do que o utilitarismo.
    “EU TENHO”, dizem as pessoas, e enquanto isso os ácaros e os insetos se divertem.

Leave a Reply