Copa de Literatura 2009 – Jogo 2 – Areia nos Dentes X O Vencedor está só

Monday, September 20th, 2010

Por Fernando de F. L. Torres,

Aproveitando que o livro Areia nos Dentes de Antônio Xerxenesky foi reeditado, agora pela editora Rocco, aproveito para requentar minha resenha da Copa de Literatura Brasileira de 2009.

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Antes de iniciar a leitura dos livros que me foram designados tentei estabelecer alguma relação entre os dois autores. Enquanto Paulo Coelho é uma celebridade midiática, autor de diversos livros traduzidos em diversas línguas, Xerxenesky é autor de primeira viagem, jovem, estudante de letras. Mas, apesar de parecerem absolutamente diversos, existe uma semelhança: são os dois autores mais livres da Copa de Literatura.

O Mago, diante dos seus resultados pregressos, já não precisa provar nada a ninguém: é um grande sucesso de vendas e, apesar de não ter conquistado os críticos, já dispõe de títulos, entre eles o de imortal da Academia Brasileira de Letras. Seu desafiante é sócio da editora que publicou seu livro e tem a vida toda pela frente: um escorregão em sua primeira obra será perdoado se as seguintes forem melhores, o que lhe permite tomar certos riscos e fazer certos experimentos que outros autores talvez não tivessem feito.

O resultado dessa liberdade foram excessos de ambas as partes — cada qual à sua maneira.

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Areia nos dentes é um faroeste com zumbis. Sabemos disso porque, além de estar escrito na orelha do livro (assinada por Daniel Galera, outro concorrente da Copa), o fato é pincelado ao longo da narrativa antes das criaturas aparecerem (e elas demoram). A presença dos zumbis nem é tão importante assim, mas é parte do espírito que rege o livro.

A história, resumidamente, é a de um velho mexicano solitário e alcoólatra que escreve a história de Mavrak, cidade do Oeste selvagem onde viveram seus antepassados. Mavrak é dividida por uma guerra entre duas famílias: os Marlowe e os Ramirez. Por conta do assassinato de um dos Ramirez, é designado um xerife para a cidade antes sem lei. Outros personagens típicos dos antigos westerns, como a cafetina e o dono do saloon, completam a história.

Existe uma clara diferença de estilos entre os momentos atual e passado na narrativa. No plano de Mavrak, simula-se o digitar de um bêbado, muda-se a fonte e cria-se um simulacro de estilo, pertencente ao personagem que no romance escreve a narrativa de Mavrak; como resultado, tem-se a sensação de que não é o próprio autor que redige aquelas páginas, mas seu personagem. A história do velho em seu apartamento é contada em prosa limpa, fluida, mais próxima da de outros textos de Xerxenesky; arrisco dizer que é esse seu estilo natural, em oposição àquele simulado.

Porém, o autor tem bom humor e senso de autocrítica suficientes para brincar com a própria metalinguagem, o que mostra que o rapaz não se leva a sério — qualidade que pouquíssimos escritores possuem. Isso está expresso num trecho da página 88, derramado de ironia:

“Que idéia péssima! Por que alguém escreveria sobre alguém escrevendo?”

“Eu também acho horrível. Teve algum crítico que resumiu exatamente o que eu sinto. Ele disse: ‘Metalinguagem é uma doença juvenil’. Enfim.”

Essas abstrações intelectualoides ele deve ter aprendido na faculdade. De algumas coisas que ele me ensinou na vida eu até gosto, mas tudo tem limite. Para mim o último grande livro foi Ulisses.

Por outro lado, parece que ao escrever Areia nos dentes o autor teve a intenção de demonstrar tudo o que sabia sobre as técnicas e o referencial cultural da literatura e do cinema. Como se fosse essa a sua única oportunidade de mostrar o que sabe. No fim, por excesso de vontade, acaba-se perdendo o impacto de uma prosa mais limpa e coerente.

Esse excesso é mais patente na primeira metade do romance, em que a quantidade de referências e o tipo de humor, semelhante às piadas internas de um grupo de amigos, revelam uma prosa imatura. A segunda metade é mais séria, com um desenvolvimento de temas literários clássicos como, por exemplo, o aprofundamento das questões entre pai e filho. Os zumbis surgem, então, para revelar a complexidade dos personagens do romance. Quanto mais nos aproximamos do desfecho, mais vemos qualidades no autor que Antônio Xerxenesky pode se tornar em seus próximos livros.

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Falar dos clichês e lugares-comuns de O vencedor está só, de Paulo Coelho, é uma tentação que procuro evitar enquanto escrevo esta resenha, porque isso já foi feito à exaustão para cada livro que o autor publicou e por críticos muito mais talentosos do que eu. Por outro lado, esse tipo de resenha não seria mais que um exercício de perseguição a um autor já bastante malhado. Além disso, seria injusto, pois muitos autores de que gosto e que recomendo, como Nick Hornby, escrevem textos cheios de clichês e lugares-comuns, sem deixar de entreter.

O clichê, por si, não é algo abominável. E entretenimento não é sinônimo de falta de qualidade. No cinema, Chaplin utilizou diversos clichês do teatro e compôs personagens caricaturais, mas entreteve as massas. Sua qualidade é inquestionável, sua visão crítica da sociedade americana da primeira metade do século XX é feroz e, acima de tudo, ele é divertidíssimo. Na literatura não é diferente.

Por outro lado, quero ressaltar alguns pontos sobre os quais escolhi refletir depois de ler o prefácio de O vencedor está só, escrito pelo próprio autor e reproduzido abaixo:

O retrato

No momento em que termino de escrever estas páginas, existem vários ditadores no poder. Um país do Oriente Médio foi invadido pela única superpotência mundial. Os terroristas estão ganhando cada vez mais adeptos. Os fundamentalistas cristãos são capazes de eleger presidentes. A busca espiritual é manipulada por várias seitas que alegam deter o “conhecimento absoluto”. Cidades inteiras são riscadas do mapa pela fúria da natureza. O poder do mundo inteiro está concentrado nas mãos de seis mil pessoas, segundo pesquisa de um reputado intelectual americano.

Existem milhares de prisioneiros de consciência em todos os continentes. A tortura volta a ser tolerada como um método de interrogatório. Os países ricos fecham suas fronteiras. Os países pobres assistem a um êxodo sem precedentes de seus habitantes em busca do Eldorado. Os genocídios continuam em pelo menos dois países africanos. O sistema econômico dá mostras de exaustão, e grandes fortunas começam a ruir. O trabalho escravo infantil tornou-se uma constante. Centenas de milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza absoluta. A proliferação nuclear é aceita como irreversível. Surgem novas doenças. Antigas doenças ainda não foram controladas.

Mas é este o retrato do mundo em que vivo?

Claro que não. Quando resolvi fotografar minha época, escrevi este livro.

A ideia de fotografia, de instante, permeia O vencedor está só: além dessa menção no fim do prefácio, fotógrafos ilustram a capa do livro e os títulos dos capítulos se referem a horários específicos do dia em que se passa a história. Vale lembrar que uma fotografia é a captura da luz de um quadro num instante. Em todos os capítulos do romance, porém, há descrições de ações e memórias dos personagens que escapam ao horário que o capítulo pretende narrar. Fica a sensação de que a prosa do livro nada tem de fotográfico. Outros autores trabalharam propostas semelhantes de maneira mais coerente. (Gosto de pensar em Conversa na Sicília, de Elio Vittorini, como um excelente exemplo de “romance enquanto retrato”.)

No mesmo sentido, as digressões constantes do autor não apenas afetam a ideia formal de retrato mas também atrapalham o fluxo de informação. E existe um excesso de informação no texto: ficamos sabendo da trajetória de cada personagem até o dia narrado, o que além de cansativo deixa a sensação de sabermos demais — principalmente quando voltamos à ideia de fotografia, pois saber menos sobre a história pregressa das personagens poderia tornar mais atraente a imagem daquele instante. O excesso de informação acaba tornando excessivamente didáticas as críticas (na minha opinião rasas) acerca dos valores da sociedade de consumo representada pelos personagens inseridos no Festival de Cannes. Muitas conclusões às quais o leitor poderia chegar a partir da narrativa são explicitadas nas palavras e julgamentos do narrador; e, quando o narrador não nos diz o que pensar sobre a situação, os personagens o fazem.

Talvez o sucesso de Paulo Coelho esteja exatamente nesse ponto que critico com tanta veemência: não há necessidade do leitor pensar ou interpretar o romance, a interpretação já está dada. Mas para fazer isso O vencedor está só precisa de quatrocentas páginas, quando a história poderia ser contada de forma muito mais atraente em pouco mais de cem.

Numa fotografia, o quadro que escolhemos pode ser menos importante e dizer menos sobre a imagem retratada do que o que deixamos de enquadrar. Da mesma forma, O vencedor está só é um retrato não da época em que vive o autor mas do mundo que o autor é incapaz de sublimar para ver essa época. Rodeado por celebridades e pela sua própria celebridade, o autor só enxerga o ponto de vista do “vencedor”, do excesso. O retrato que pretende fazer, e que a princípio parece uma crítica sobre um objeto do qual ele quer se afastar, acaba por se tornar um reflexo do próprio autor.

Incomoda-me inclusive a forma como a escolha do título, O vencedor está só, referindo-se aos personagens que de alguma forma “venceram” dentro da concepção em que estão inseridos (acúmulo de fama, dinheiro ou poder), marca a ótica burguesa do romance. Por sinal, a escolha de retratar o seu tempo a partir da história dos vencedores remonta a uma ótica superada sobre o entendimento da sociedade, e famosamente criticada por Brecht:

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Conquistou sozinho?
César bateu os gálicos.
Não tinha ao menos um cozinheiro consigo?
Felipe da Espanha chorou a perda da sua Esquadra.
Só ele chorou?
Frederico II ganhou a guerra dos Sete Anos.
Quem mais ganhou a guerra?

O vencedor está só não é um atentado à literatura nem é pior do que a maioria dos livros que se publica. Mas, sem ser um livro inteiramente ruim, não atingiu as expectativas que eu tenho ao iniciar uma leitura; assim, tampouco posso me referir a ele como um bom livro.

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No fim das contas, O vencedor está só e Areia nos dentes têm bastante em comum. São dois livros que parecem romances de autores iniciantes, com pretensões de demonstrar mais do que é possível ou adequado dadas as características das histórias contadas. Areia nos dentes, porém, leva vantagem em dois fatores: Xerxenesky é realmente um autor iniciante, e tecnicamente seu romance é mais coerente.

Vencedor

Areia nos dentes

Post scriptum: Passado um mês de eu ter escrito essa crítica, Xerxenesky postou em seu blog a história de um capítulo perdido. Um capítulo meramente explicativo. Pensando bem, e relendo meu artigo, o capitulo era essencial. Mas tão somente necessário para ser cortado. Se foi acaso, se foi ato terrorista do Daniel Galera, se foi mancada do diagramador… foi muito bom. Aquele capítulo, de apenas um parágrafo, talvez igualasse Areia nos dentes a O vencedor está só na minha leitura. Esse “talvez” não existe e não sou afeito à crítica genética, o importante é o texto que foi publicado. Enfim, o privelegiado pelo inexplicável, quiçá chamemos de magia, foi Antônio Xerxenesky, o vencedor do jogo 2 da Copa de Literatura Brasileira de 2009. Que se cuide seu próximo adversário, quem sabe zumbis apareçam antes do próximo jogo.

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