Ensino de Literatura

Thursday, September 16th, 2010

por Fernando de F. L. Torres,

(Antes de mais nada: Não sou educador, tudo que digo aqui é enquanto escritor. Os meus valores podem ser diferente dos seus, mas são meus.)

Existe uma ladainha. Assim como aquela música que faz sucesso e você ouve praticamente qualquer lugar que você anda, eu ouço essa ladainha em eventos ligados à literatura. um escritor apresenta seu novo livro, ou conversa sobre algum assunto relacionado à “nova literatura brasileira”, quando alguém faz uso da ladainha em forma de pergunta: Porque massacrar os alunos com Machado de Assis? Porque não adotar livros mais divertidos? Porque não lemos livros X, Y ou Z na escola, que são mais próximo da realidade do aluno?

Bom, eu estudei numa escola moderninha. Li muitos livros que gostei durante os anos que me formei como leitor. Li também livros que não gostei. Dos Clássicos ou obras “mais próximas da minha realidade”. Ajudou o fato de meus pais serem leitores ainda mais vorazes que eu. Meu acesso ao livro sempre foi muito fácil. Na realidade, tem coisas que nem lembro mais se li para a escola ou por que achei na biblioteca de casa ou num sebo dando sopa.

Feita a ressalva que sou ponto completamente fora da curva, posso desenvolver meu pensamento.

Ninguém nunca me disse que o aprendizado seria fácil. Aliás, o que geralmente ouço é que o aprendizado é doloroso. Uma criança aprende a andar caindo. Aprender é pouco a pouco deixarmos de nos satisfazermos com nos mesmos e começarmos a descobrir os outros e o mundo além de nossas fronteiras.

Não é para um aluno colegial ler Machado de Assis como lê os quadrinhos que o acompanham desde a infância. Não é para entender na primeira leitura. A ignorância dói, mas para isso existe remédio, estudar. Uma palavra ganha significado com um dicionário. Uma referência ganha significado com alguma pesquisa (Google serve para isso). A obra, por sua vez, com seus comentadores, com as aulas.

Recentemente voltei a ler Machado de Assis. Os olhos são outros, mas o trabalho que tenho é infinitamente maior do que tive no final da década de 90 quando eu, aluno colegial, estudei pela primeira vez o realismo. O engraçado é que Memórias Póstumas, de certa forma, fala da mesma coisa (com mais desenvoltura) que tento falar aqui nesse post. Brás Cubas é uma pessoa que pauta sua vida pelo prazer e é praticamente incapaz de aprender ou produzir algo. Ele ainda é o retrato dessa sociedade que evita o esforço, passando pela vida sem deixar qualquer rastro.

Assim, queremos que a escola seja um tanto como a televisão, divertida. Queremos entreter nossos alunos durante 15 ou 16 anos de suas vidas e depois vamos exigir deles que se esforcem para produzir algo, que dêem duro no trabalho. Parece-me um tanto contraditório.

Os adolescentes precisam ler os clássicos. Mas também precisam saber o caminho da biblioteca pública mais próxima. No fundo, o que tento dizer, é que o professor deve ensinar o aluno a aprender, mais do que ensinar a ele a matéria. Assim, quando aprenderem a realizar o processo de aprendizagem, não fará diferença em ler Machado de Assis ou “um livro mais próximo a sua realidade”, de ambos saberá retirar o aprendizado, e poderá escolher por qual caminho seguir.

Não tratemos nossos adolescentes como crianças mimadas. Se possível, tentemos não imbecilizar as próximas gerações. Eles são capazes de mais coisas que imaginamos, afinal são eles que devem ir mais longe que nós.

One Response to “Ensino de Literatura”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by te_chaves and Arlequinal, Arlequinal. Arlequinal said: Post no Arlequinal. http://bit.ly/a7AAhr, um desabafo sobre o ensino da literatura. [...]

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