Lições sobre o ofício de escritor
Thursday, September 9th, 2010Por Fernando Torres,
Eu uso muito esse espaço para refletir sobre ofício de escritor que me propus. São textos que escrevo quando me “dá na telha”, quase todos absolutamente confessionais.
Certa vez escrevi um texto em que eu dizia ser muito importante o ato de não escrever (V. O mito da inspiração), não enquanto a omissão da produção, mas dos atos de releitura, revisão e reflexão sobre aquilo que já foi escrito. Mas deixei de dizer, naquele momento, o contrário, a importância de escrever como forma de exercício da técnica.
É difícil dizer quando comecei a escrever. Desde que me lembro sou um contador de histórias, apesar da timidez (que pouca gente acredita que tenho) fui uma criança falante. Minha família é marcada por esse tipo de gente que gosta de boas narrativas, meu avô e meu pai que nunca escreveram uma linha de literatura são narradores natos de suas desventuras. Em algum momento passei a gostar de contar histórias na folha branca. Lembro que aos 10 anos escrevi uma redação na escola do Pirata Fernando de Torres, meus pais adoraram. Meu pai gostou tanto que datilografou o pequeno conto, xerocou uma porção e mandou para toda a família. Eu gostei.
Nunca deixei de escrever narrativas desde então. Quando prestei vestibular para a PUC, a redação proposta permitia a narrativa. Arrisquei e fui aprovado no vestibular. (Ainda hoje tento lembrar detalhes do texto apresentado.)
Como sempre gostei de escrever em folhas avulsas, muitas coisas que escrevi de forma imatura se perderam. Quando encontro um ou outro conto adolescente, gosto da sinceridade e das idéias que eu tive. Nunca tentei ressuscitar nenhum daqueles textos.
Atualmente espalho idéias em três cadernos diferentes. Puro exercício. Tenho dificuldade de escrever direto no computador, pois acho a reescrita interessante para a qualidade. Mas esse é meu jeito de produzir, não necessariamente presta para todos escritores.
Achei interessante o texto de Luiz Schwarcz em sua coluna Imprima-se chamado “O romancista que não sou” . Nele o renomado editor fala da necessidade de reflexão sobre o próprio texto, da leitura crítica de pessoas de confiança e, principalmente, da autocrítica criativa. Reescrever é um ato ainda mais doloroso que escrever. É admitir que muita coisa que parecia uma boa idéia não é suficientemente bom. Por outro lado é uma lição que o trabalho inicial pode ser útil para um texto ainda melhor.
Se bem feita, a crítica de um original é pessoal. É um ato de carinho que a pessoa tem a um escritor ou ao trabalho dele. Acima de tudo, é a demonstração de respeito à sua capacidade. Obviamente quem lê o original tenha de entender essa relação.
Eu mesmo tenho minhas preferências sobre leitores críticos. Meu primeiro livro foi lido previamente pelo meu amigo Eric Novello com uma lupa privilegiada. Embora ele produza uma literatura muito diferente da minha, temos uma base de leituras muito semelhantes e dividimos especial apreço pelos modernistas e neo-realistas Italinos.
Desses meus cadernos e rascunhos está saindo um romance. Escrevo todo dia um pouco. Reciclo idéias anteriores e as adapto com pretensa coerência à história que quero contar. Cumpro as ordens de um professor de Literatura Brasileira que considero um verdadeiro mestre na minha empreitada literarária. Cada conversa que tenho com ele após as aulas sou incentivado a produzir, mas sempre sob a recomendação de olhar para o texto com outros olhos depois. Assisto como ouvinte suas aulas, discuto suas análises, uso cada anotação para aprender mais sobre minha própria produção. Atualmente ele leciona Machado de Assis e, com as ferramentas de leitura que ele apresenta nas aulas, aprendo com o Bruxo de Cosme Velho mais e mais sobre literatura. Isso se reflete mais sobre o que eu escrevo do que sobre meus conhecimentos sobre o Realismo.
Luiz Schwarcz está sendo involuntariamente um professor desde que iniciou suas colunas. Machado de Assis é o professor de todo bom escritor, assim como tantos outros. Estou escolhendo bons professores e me propondo deveres de casa diariamente. Espero um dia ter algo a ensinar a alguém.


[...] This post was mentioned on Twitter by Arlequinal, Arlequinal and Fernanda F., thiago candido. thiago candido said: RT @novasvisoes: Novo Post no Arlequinal http://bit.ly/91jPCL . Lições sobre o ofício do escritor. Estou aprendendo, não ensinando. [...]
Oi Fernando,
Tudo bem?
Estou aqui com o seu livro… delícia…
Me diga uma coisa: É possível ler o pequeno conto – Pirata Fernando de Torres?
E qual é o professor de Literatura Brasileira que você mencionou?
Um abraço e obrigada,
Adriana
É, seu Fernando, escrever é tomar um soco no estômago por dia
O importante é seguir em frente sem perder o prazer do processo. Força aí com o romance! Abss!