Considerações sobre o ideal de projeto literário
Friday, August 13th, 2010Por Fernando Torres,
Ontem, ao esperar minha noiva em um Shopping Center da cidade de São Paulo, entrei, como de hábito, em uma livraria. Não tenho costume de frequentar essa casa específica, uma vez que as prateleiras do meu interesse costumam ser parcas, mas eu precisava passar um pouco o tempo. De fato, fiquei constrangido. À exceção de alguns livros (e não a lista completa) de clássicos que são referência dos principais vestibulares, não vi muitos livros que resistirão ao efeito do tempo e do esquecimento. Nem mesmo os autores daquelas obras esperam que suas palavras resistam à sua morte.
Ainda sob efeito deste torpor, manifestei no twitter “Por que pretendo escrever algo relevante, se quase tudo que encontro em uma livraria é absolutamente irrelevante?”. Rapidamente dois amigos vociferaram um disse “quem dá relevância é o leitor” outro “Esqueça relevância na literatura contemporânea”. Antes de mais nada: Deixem-me com meus ideais e com minhas ilusões.
Acho absolutamente diferente as posturas de Oswald de Andrade com a de Paulo Coelho. Se um disse “o povo um dia comerá do fino biscoito que fabrico” ou outro diz “O popular hoje, será o clássico de amanhã”. Embora eu tenda mais ao modernista, não abraço nem gregos e troianos. Antes de mais nada discordo da falácia do mago. Stendhal não vendeu 20 exemplares da “Cartuxa de Parma” durante sua vida, Italo Svevo, sequer foi reconhecido em vida com sua “Consciência de Zeno”, hoje impreteríveis clássicos na maioria das listas destinadas à essa eleição. Posso seguir com tais exemplos por muitas páginas mas paro por aqui. E quantos livros que frequentaram as listas de mais vendidos, que hoje abarrotam os sebos sem qualquer esperança de voltarem às mãos de um leitor?
Algumas horas depois, estava eu assistindo (como ouvinte) a aula de Literatura Brasileira Ministrada por um importante crítico e editor. Depois de muitos anos, pela primeira vez ele irá lecionar sobre Machado de Assis. Em meio à aula ele diz: a boa obra de arte é aquela que, com o passar do tempo, suporta diversas críticas, todas elas muito boas, todas elas explicando a obra de uma maneira diferente e todas certas.
Aquilo que eu escrevo, e eu nunca neguei isso, está ligado ao meu ideal de projeto literário no qual a formação da minha obra será relida e criticada ao longo do tempo. Estudo constantemente teoria literária e técnica literária, não para seguir modelos estabelecidos, mas para entender o que faz das obras que tenho como referência terem seu diferencial que a tornaram o que elas são. Eu tenho um projeto de literatura, escrevo para um público específico e espero sinceramente que estes entendam o meu intento. Se não for por isso, se não for para dizer este tanto de coisas que pretendo dizer, a forma, a técnica é vazia. Não acredito na arte pela arte, pelo mero exercício estético, mas como ferramenta para diversos fins. Pode ser um ideal, mas nele se baseia meu projeto. Pode ser uma ilusão, mas ela é minha.
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Não esqueçam, estarei autografando meu livro no Estande da Multifoco, na Bienal do Livro, no dia 17 (terça-feira) das 18h às 20h. Espero vocês lá


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