Só Deus Ex Machina Salva

Tuesday, May 25th, 2010

Por Fernando Torres,

Semana passada, minha amiga e escritora Olivia Maia perguntou no twitter como fazer para resolver um problema em seu romance sem forçar a revelação por “Deus ex Machina”.

Segundo a Wikipédia (que cito tão somente por preguiça de procurar fonte melhor)  “Sua origem encontra-se no teatro grego e refere-se a uma inesperada, artificial ou improvável personagem, artefato ou evento introduzido repentinamente em um trabalho de ficção ou drama para resolver uma situação ou desemaranhar uma trama. Em termos modernos, Deus ex machina também pode descrever uma pessoa ou uma coisa que de repente aparece e resolve uma dificuldade aparentemente insolúvel. Enquanto que em uma narrativa isso pode parecer insatisfatório, na vida real este tipo de figura pode ser bem-vindo e heróico“.

No filme Adaptação, o roteirista Charlie Kaulfmann, em um filme cheio de metalinguagem, brinca com o princípio de “nunca apele para ‘Deus ex machina’”. É provável que esse seja o melhor roteiro de Charlie Kaulfmann.

Mas esse final de semana fiquei pensando sobre o recurso enquanto eu brincava com os filhos pequenos de minha tia e achei que eu poderia contar uma história para ilustrar como, às vezes, o fenômeno acontece na vida real.

Alexsandra, para obter bolsa no cursinho preparatório para o vestibular em que trabalhava como monitora de sala. Assistia as aulas pela manhã, passava a tarde estudando e de noite cumpria sua função. Bastante magra e bonita, também era tímida, e evitava a sala 54 tarde, desde que uma vez no final da tarde, quando foi contar o numero de alunos na sala causou uma agitação púbere de assobios e gritos.

Porém, naquele dia era aniversário de um de seus colegas de trabalho, e justamente no dia que seriam trocados os adesivos de acesso nas carteiras de acesso ao prédio do cursinho. Logo, todos os monitores se reuniram para ajudar na tarefa. Alexsandra chegou mais cedo para ajudar.

Meus avós se separaram no final da década de 60, sendo que meu avô manteve contato bastante limitado com a família durante muitos anos. Ele era uma figura misteriosa que eu encontrava uma ou duas vezes por ano, quase sempre no aniversário de minha mãe.

Neste mesmo dia, eu que era aluno da sala 54 tarde fui chamado entre uma uma aula e outra pelo monitor responsável pela minha sala. Achei muito estranho, era improvável que meu pai, o homem mais organizado que conheço, tivesse deixado de pagar a mensalidade. Assim acreditei que algo devia ter acontecido de errado.

O monitor que me pediu que eu deixasse a sala apontou para Alexsandra, com quem eu devia conversar. Ela estava com minha carteira na mão e me perguntou séria “você sabe quem eu sou?”, e responder que ela a monitora da noite era redundante. Fiquei esperando a resposta da pergunta que me parecia ser retórica.

Quando Alexsandra começou a organizar as carteiras de acesso, logo dividiu com um dos colegas as cartelas de adesivo. Um colega ficou com a cartela do Aaron até uma Fernanda, ela do Fernando ao até Maria e um terceiro de Maria até o final. A primeira carteira que ela adesivou tinha a foto de um rapaz de cabelos longos com o mesmo sobrenome que ela. Alexsandra que era filha do segundo casamento de seu pai, sempre soubera que tinha uma família que não conhecia, e lá estava a minha carteira de acesso ao cursinho. Toda a família que ela não conhecia estava diante dela.

Eu não percebi, mas uma das monitoras me contou que quando ela viu meu nome escrito na carteira ela começou a tremer. Ficou apavorada, o sobrinho que durante toda infância ela imaginou conhecer estava atrás da porta. E ela simplesmente não sabia o que fazer.

Se não fosse aniversário do colega naquele dia, se naquele dia não fosse o dia de trocar os adesivos, se ela não tivesse começado a trabalhar mais cedo, se tantas coisas não tivessem conspirado para que aquele encontro acontecesse, ela não teria me conhecido nem teria conhecido toda a família que meu avô manteve longe dela.

Se uma situação tão pouco verossímil não tivesse ocorrido, eu não teria brincado com meus primos pequenos no final de semana, nem teria escrito esse post. As vezes, só Deus Ex Machina salva.

2 Responses to “Só Deus Ex Machina Salva”

  1. Pelo lido, toda a literatura do Paulo Coelho é baseada no artifício grego! ¬¬

  2. Mauro,

    Pela minha pouca experiência com a literatura de Paulo Coelho (ver minha resenha da Copa de Literatura do ano passado) sua literatura tem problemas ainda mais endemicos que o simples uso de “deus ex machina”.

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