Choque de Realidade III – Algumas considerações adicionais
Tuesday, March 23rd, 2010Por Fernando Torres,
Quando comecei esta série sobre a “Literatura de Realidade”, sinceramente achei que receberia críticas duras. Muitos amigos meus estão envolvidos com a “Literatura de Fantasia” e esperava receber críticas duras. Porém, pessoas como Alexandre Herédia e Roberta Nunes elogiaram meu post. Fico feliz, pois pessoas como eles sabem que minhas críticas não são pessoais, mas que estes são exercícios de reflexão sobre a Literatura.
Por outro lado, um ponto incomodou Antonio Xerxenesky. O autor de “Areia nos Dentes” é alguém com quem mantenho uma relação cordial desde que fui incumbido de resenhar seu livro na Copa de Literatura.
O que incomodou Xerxenesky foi a minha distinção entre forma e conteúdo. Acredito que isso se deu por uma falha minha ao escrever de forma rasteira sobre o tema. O que tento corrigir neste artigo.
nos idos de 1995, quando eu era um púbere rapaz de 13 anos, sem qualquer pretensão literária, nas minhas aulas de ciências ministradas pela Teruko, figura ícone da Escola Experimental Vera Cruz, aprendi um conceito que passei a levar para a vida: A relação entre Forma e Função.
Passei a entender que existe uma relação íntima entre a forma e seus efeitos. Ou seja, na literatura não existem palavras inúteis, metáforas jogadas no texto sem fazer parte de todo o sistema. Um professor meu dizia que se alguém tosse na página 50, ele deve morrer de tuberculose na página 200 (creio que ele citava algum autor).
Lembro-me de um filme em que um escritor se isolava na casa da mãe para tentar vencer o bloqueio criativo e, em uma determinada parte do filme, a mãe dizia que jamais havia entendido porque um determinado extraterrestre de seus era descrito com uma cabeça enorme e ao mesmo tempo era tão burro. A relação entre a execução formal do texto tem que cumprir uma função, caso contrário rompe com a relação necessária com o conteúdo.
O que me incomoda é exatamente isso. Vejo uma tendência em se reduzir a literatura em seus clichês formais, principalmente quando estamos falando sobre Literatura Fantástica. Vejo como solução para isso uma resignificação dos clichês literários, por meio da experimentação tão propícia na “Literatura de Realidade”.
Ouso dizer que o próprio Livro de Xerxenesky não é um livro de Literatura Fantástica, mas exatamente a evidência crítica daquilo que reconheço como como a literatura voltada apenas sobre a forma. “Areia nos Dentes” não é um livro sobre zumbis (não se deixem enganar pela orelha), mas um livro sobre alguém escrevendo sobre zumbis. A brincadeira metaliterária atinge uma série de maneirismos de nossa geração, tais como o excesso de cinematografia.
Repito, ao final, que a forma e o conteúdo são indissociáveis, mas que a forma é o tempero que dá sabor à matéria prima do prato principal. O tempero jamais pode se sobrepor ao alimento temperado, assim como os elementos formais não devem sobrepor ao espírito da história que queremos contar.


Tanto o prato temperado quanto o tempero tem seus valores intrínsecos. Não considero um melhor ou superior ao outro. Forma e conteúdo são complementares e carregam consigo a mesma carga de importância.
Eu ia tecer um comentário sobre a indissolubilidade da forma e do conteúdo, mas sua metáfora culinária foi a cereja no topo do glacê.
A forma é importante, claro. Mas o “como” não funciona sem o “porque”. Estética vazia, arte pela arte… Já superamos esse movimento, não?
Ah, só para fins de referência, seu professor estava citando livremente Anton Chekhov, contista russo. A citação original é:
“Se no primeiro ato você descreve uma pistola pendurada na parede, no próximo ela deverá disparar. De outro modo não a coloque lá.”
Abraços,
Alexandre Heredia (sem acento)
Discordo de Chekhov.
Vou me explicar. A citação é uma verdade relativa e não absoluta. Ao construirmos um cenário, citando seus elementos de formação, não estamos necessariamente dando a essa ou aquela peça de decoração uma importância maior do que a que intrinsecamente lhe cabe. Assim, ao citarmos um abajur não significa que ele deverá ser jogado na cabeça de alguém, nem o quadro mencionado deverá cair na escada, e nem a escada será responsável por um pescoço quebrado só por ter sido incluído no cenário. Assim, o revólver na parede pode ser só… um revólver na parede.
Tibor, creio que você está levando a metáfora de Tchekhov ao pé da letra. O que entendo é que nada em um texto literário está ali por uma razão, toda palavra, símbolo elemento de um texto deve ser cuidadosamente escolhido. Mencionar algo à toa é gastar tinta com algo que não tem função como elemento do texto.