Choque de Realidade – Parte I: Não só de fantasia é feita a nova geração de escritores

Monday, March 15th, 2010

por Fernando Torres,

Este era um post que queria escrever faz algum tempo e que fui emendando o rascunho tantas vezes que acho que série de posts. Esse primeiro serve de introdução e os que se seguem serão algumas considerações sobre alguns livros interessantes que li recentemente.

Antes de mais nada, gostaria de ressaltar que não tenho nada contra a literatura de fantasia (ou literatura fantástica, como algumas pessoas preferem), mas que eu preciso fazer um contraponto nesse momento em defesa da literatura “da realidade”, exercício dialético que sempre me proponho nesse espaço.

Quem presta atenção na literatura sendo produzida por escritores jovens já notou, houve um “boom” de escritores que escrevem ou flertam com a literatura fantástica.

Embora a tradição literária brasileira tenha quase que ignorado a literatura fantástica, principalmente durante o século XX (salvo exceções como Murilo Rubião e Aníbal Machado), existe hoje um movimento forte trabalhando esse tipo de literatura.

O que me chama atenção é uma tendência “separatista”, principalmente vindo dos escritores e editoras da chamada literatura fantástica. Como não gosto de rótulos fico sempre desconfiado com esse negócio de “nós e eles”. Nem sempre acho que nomes como “literatura realista” ou “mainstream” são justos ou exatos para indicar todo o universo da literatura “não-fantástica”. A palavra “Mainstream” , principalmente, soa pejorativa aos meus ouvidos, como se aquilo que não fosse a “Literatura Fantástica” fosse uma literatura entregue à cultura de massas, comercial, ou seja de um valor criativo menor. Prefiro nem entrar nessa discussão, mas reafirmo minha posição que a epistemologia da arte deve nos ajudar a compreendê-la como um todo e não isolar movimentos em quartos escuros.

Acho muito engraçado quando me deparo com pessoas que citam o mais do que clássico “1984″ de George Orwell como um clássico da literatura fantástica, em específico da ficção científica. Acho especialmente engraçado por que nunca pensei nesta obra desta maneira. Para mim nunca houve (principalmente depois de ler outras obras do autor) qualquer vislumbre de ficção científica na obra, o exercício do autor era o estudo meramente político de forçar correntes ideológicas e políticas em que ele estava profundamente inserido ao seu radicalismo. Os aparatos “tecnológicos” que Orwell apresenta não são mais do que adaptações de recursos existentes na época. A obra é uma alegoria dobre a opressão, do autoritarismo e dos regimes que se firmavam na época que o livro foi escrito. Como obra de ficção científica, se compararmos com outros autores da época, “1984″ deixa muito a desejar. Seria o mesmo que considerar “Ensaio sobre a Cegueira” uma obra de ficção científica.

Muito embora eu rejeite a idéia que literatura fantástica seja “escapismo”, creio que esta muitas vezes não atinge o ponto da que a literatura que pretensamente lida com a realidade busca: lidar de com o que temos entre as quatro paredes de nossas casas, e com a dificuldade que temos com o que está fora delas. Muitas vezes fico com a impressão de Cervantes sobre Quixote, que seu personagem, de tanto ler as novelas de cavalaria, havia fritado o próprio cérebro.

Por outro lado a literatura nunca é capaz de reproduzir a realidade (bem como qualquer outra forma de arte), mas sim de trabalhar sobre ela. Criar pressuposições, metáforas e alegorias. De forma que posso afirmar que a boa literatura (como escreveu meu amigo Eric Novello na orelha de meu livro) não suporta rótulos.

Então, por que fazemos uma opção pela “realidade” ou pelo “fantástico”? Simples, escolhemos o uso da ferramenta mais adequada para contar a história.

A questão é que vejo no atual movimento da literatura fantástica (cabendo tantas exceções que podem e vão desmontar meu argumento) o esvaziamento do uso desta ferramenta. Ou seja, uma literatura alienada, com o exercício da forma (e de seus necessários clichês) apenas em função da forma, em que o conteúdo se dissolve em meras sensações.

A jornada do herói é explorada por todas as literaturas, porém, seu exercício repetitivo tem afastado sua função principal, que é o relato do crescimento e aprendizagem verdadeiros. Aprender o óbvio não prescinde jornadas, a ruptura verdadeiramente rebelde que a jornada do herói representa me parece esvaziada. Da mesma forma que já esvaziaram a figura do anti-herói.

Mais uma vez questiono, então por que escolher a “Realidade”? Na minha opinião, porque a fantasia nos ofuscou. O que muitos anos atrás era “realidade” se tornou estilo e hoje é fantasia. Alguns anti-heróis que viviam a contra-cultura, o submundo, frequentavam as bocas-do-lixo mundo afora, estão em um universo tão fantasioso hoje quanto o universo cyberpunk e o medieval fantástico, em que a verossimilhança apenas funciona naquele universo particular.

Pouca gente está lidando com a “Realidade”, pouca gente está falando efetivamente de nós mesmos e a literatura brasileira está fadada a simulacros de estilos. Meu protesto é a libertação da literatura apenas enquanto forma e o caminho que pretendo seguir e valorizar nesta série de posts é da importância do conteúdo sobre a forma.

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