Resenha Dupla: “O Professor de Botânica” e “A Virgem que não conhecia Picasso”
Monday, January 4th, 2010Por Fernando Torres
É sabido que eu admiro muito o trabalho da Não Editora. Admiro por que esse grupo gaúcho está conseguindo algo exemplar: publicar autores jovens e de qualidade, com boas edições e distribuição competente.
Primeiro livro que li da editora foi Pó de Parede, de Carol Bensimon. Depois seguiram-se: Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky (leia minha resenha aqui e o que o autor disse sobre ela aqui), A virgem que não conhecia Picasso, de Rodrigo Rosp, Raiva nos Raios de Sol, de Fernando Mantelli (Leia minha resenha aqui), Uma leve simetria, de Rafael Bán Jackobsen (leia minha resenha aqui) e O Professor de Bôtânica, de Samir Machado de Machado. Não estou contabilizando as coletâneas de contos.
Sobre o Pó de Parede tenho pouco a dizer pois acho que muito já foi dito sobre o livro e que foi feito justiça a ele em todas as resenhas que li. Por sinal considero Pó de Parede melhor que o Sinuca Embaixo d’água (Cia. das Letras), obra subsequente escrita pela autora.
Mas voltando à lhamma fria, para mimetizar um professor de literatura que muito respeito, existem alguns pontos de O Professor de Botânica e de A Virgem que não conhecia Picasso que eu gostaria de ressaltar.
***
Iniciando pelo O Professor de Botânica, o que impressiona já de início é a capa que está marcada pela ausência: não há nome do livro nem do autor, o que chama atenção para o fato da ausência do protagonista na foto da capa, é uma silhueta em branco em meio à grandiosidade das árvores que o cercam. Tal aspecto é importante pois é a ausência que marca o romance. Falta ao professor um tanto, sua esposa, o reconhecimento, o recurso, falta tanto, falta muito.
A relação do protagonista, Rotgeller, com aqueles que o circundam é um retrato da mediocridade mimética dos meios acadêmicos brasileiros. Rotgeller vive a repetir ensinamentos de um botânico francês, esquecido por todos, e que passou pela região que ele estuda coisa de um século e meio antes do tempo da história. A relação da personagem com seu objeto de estudo e com seu ídolo é o retrato mais fiel que Samir traça. Ainda, por outro lado o desespero por reconhecimento e as providências tomadas pelo protagonista para tentar garantir seu nome para a posteridade são ainda um retrato da síndrome de vira-lata brasileira que um dia tratou Nelson Rodrigues.
O livro é bem escrito e estruturado, o que em geral faz eu gostar de um livro escrito por um contemporâneo meu, já que algumas análises devem ficar à cargo do tempo. Vale a pena a leitura do livro, que flui com facilidade. Porém ficam duas ressalvas, algumas surpresas do livro são antecipadas logo antes dos momentos chaves (pelas palavras de Mourão, um professor que divide o departamento com Rotgeller), ainda os acontecimentos finais do livro soam como um deus ex machina, o que de fato me incomodou demais, creio que o desfecho poderia acontecer de outra maneira. Porém esses pontos não são suficientes para sobrepor a boa prosa que Samir desenvolveu.
***
A Virgem que não conhecia Picasso é o livro mais fraco editado pela Não Editora que li até agora. Perdoe-me o autor, Rodrigo Rosp, com quem já estive à mesa uma vez. Mas A Virgem… é um livro que destoa na linha editorial que ele mesmo impôs à casa que é sócio.
A obra é uma coletânea de contos em um tom de pornochanchada ou de erótico brega de escrachado humor. Rodrigo é inteligente, sabe escrever, domina a técnica e isso fica claro. Creio eu que quem gosta de literatura erótica deverá elogiar a obra. Minha principal dúvida é se o livro se encaixa na linha editorial da Não editora.
***


Leave a Reply