O Mito Jacqueline du Pré
Monday, December 21st, 2009Jacqueline du Pré foi uma das mais aclamadas violoncelistas do século XX. Seu estilo controverso, passional demais; e sua vida conturbada, cheia de altos e baixos, deram o que falar no fechado mundo da música erudita desde os anos 60, quando apareceu para o mundo.
Nascida em 1945, Jacqueline Mary du Pré, teve uma carreira meteórica e digna de uma tragédia grega. Foi obrigada a parar de tocar aos 28 anos, devido ao começo da esclerose múltipla que a mataria aos 42, esta inglesa viveu uma vida cheia de altos e baixos, entre o amor e o ódio pelo instrumento que a consagrou. Sua história está retratada no filme “Hillary and Jackie”, de Anand Tucker, lançado em 1998 que nos mostra, um tanto exageradamente até, esse lado paranóico destrutivo de Jackie com relação a sua irmã, Hillary du Pré (A fantástica Rachel Griffiths, a Brenda de Six Feet Under), seu marido, o maestro argentino Daniel Barenboin, e é claro seu violoncelo stradivarius, mostrando uma das cenas mais aflitivas que eu já vi, quando, num acesso de loucura, Jackie deixa o violoncelo na neve, culpando-o por todos os seu problemas (BRR). O filme em si vale pela excelente atuação da ótima Emily Watson, no papel de Jackie.
Com um histórico desses, fica difícil separar o quanto o reconhecimento de du Pré se dá apenas por sua história e o quanto se dá por seu talento nato.
Não podemos negar o talento, é claro, e eu nem poderia tendo crescido ouvindo ela tocar. Assim como o filme, a vida de Jackie é pontuada pela sua majéstica interpretação do Concerto para Violoncelo em Mi Menor de Sir Edward Elgar. Este sem dúvida tem na de Jackie, a melhor interpretação gravada. Não poderia ser diferente, devido a passionalidade que esse concerto exige e que du Pré tem de sobra.
Mas é preciso analisar mais a fundo. Escolhi aqui um trecho do outro grande concerto para violoncelo, o de Dvorak. Este, mais romântico e tradicional em sua essência, exige do executante uma grande tecitura técnica além do tradicional “gut” emocional. Este é um concerto muito executado e, para fazer uma comparação e discorrer sobre o Mito du Pré, escolhi três interpretações diferentes do Adágio, segundo movimento do concerto. Elas são: a da Jackie, de Mitslav Rostropovich e de Yo-Yo Ma.
Jacqueline interpreta este movimento com toda a sua passionalidade, no entanto, acredito que falte uma coisa a mais que é uma regularidade técnica no sentido de moderação nos ataques e limpeza de som.
Adágio com Rostropovich parte 1
Adágio com Rostropovich parte 2
Flawless, eu diria, Rostropovich consegue nos emocionar ao mesmo tempo que é extremamente impecável em sua execução técnica e leveza de arco. Além, é claro, da limpidez do som.
O concerto de Ma é, como o de Rostropovich, claro em sua sonoridade, e não há muito o que ver em seu desempenho técnico, no entanto, como costuma ser de seu estilo, o som busca uma liberdade que não pode ser concedida neste concerto mais tradicional.
O Concerto para Violoncelo em Si Menor, de Anton Dvorak, é um concerto romântico por excelência, extremamente harmônico e dependente de seus temas, assim como suas firulas técnicas. Sem dúvida este é um dos concertos que mais desafia os solistas pela sua árdua composição. Portanto, no todo, é necessário um instrumentista mais estável e um tanto mais clássico. Acontece que Ma e du Pré são ambos excelentes instrumentistas, com excelente técnica, mas têm sua característica própria que geralmente bate de frente com a idéia de um cellista mais clássico.
Jacqueline então se encontra para nós em um aspecto mais ou menos completo. Temos o mito, temos o prodígio e temos o humano. A vida dela é o mito e, com certeza é intrigante e nos faz querer ficar mais próximos dela, mas não satisfaz o espírito musical dentro de nós. O prodígio, seu ápice em Elgar, nos trás o melhor dela, ou pelo menos o que foi o melhor dela dado ao seu fim prematuro que a impossibilitou de chegar a uma maturidade. O humano se dá naquilo em que ela foi ótima mas não genial, como por exemplo o Dvorak, nos mostra o lado de Jackie mais coerente e ajuda a contrabalançar o peso de uma vida tão conturbada como motivo de admiração.
Mas esse toque de humanidade a torna menos essencial?
Não. De jeito nenhum. É só voltar um pouquinho o scroller e tocar de novo o Elgar. Algo assim é eterno.


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