Pela dessacralização da arte

Wednesday, December 16th, 2009

Por Fernando Torres

Eu já escrevi anteriormente sobre a dessacralização em um texto acerca do Mito da Inspiração. Quem foi ao Louvre (eu ainda não fui) conta que em torno na Monalisa fica uma multidão tentando tirar fotos separados do quadro por um longinquo cordão de isolamento e uma parede de vidro. Maioria das pessoas que conheço passou reto. O engraçado é que nunca ví nada demais em tal quadro, ele não representa as mais importantes características so Renascimento.

Mas o sorriso da Gioconda está sacralizado. E existe quem ache isso bom. Hoje pela manhã ouvi Barbara Gancia criticar a falta de respeito do paulistano pelo Monumento das Bandeiras de victor Brecheret. Para a jornalista subir no monumento que a obra de arte não é valorizada e o hábito de escalá-la é vandalismo. Com todo respeito que tenho pela combativa jornalista e seu cão Pacheco Pafúncio, exatamente o contrário é representado pelo hábito.

A arte deve integrar e não oprimir. O “deixa-que-eu-empurro” (apelido carinhoso do monumento) é uma monstruosa escultura na saída do principal parque da cidade, é um símbolo paulistano como é o Cristo Redentor para o Rio de Janeiro.  A diferença com o simbolo carioca é exatamente essa, não é um monumento inatingível. É um monumento democrático, pertence à cidade e a seu povo, que pode fazer parte daquele monumento e portante pertencer à cidade.

O povo gosta, reconhece e valoriza o monumento e entende que a arte é integrativa.  Subir no monumento é como a cultura do Grafitti nos grande centros urbanos (principalmente as megalópoles mundo afora) é ato de resistência e reintegração daqueles que exatamente são engolidos, digeridos e expulsos por ela pelo movimento semelhante à Haussmanização de Paris que é repetido prefeito após prefeito na cidade. Mas a escultura de Victor Brecheret tem função e forma diversa da Torre Eifel, do Arco do Triunfo, entre tantos outros. Precisamos parar de sacralizar a arte para que possamos vivê-la.

E acima de tudo, para acrescentar algo jocoso, você  já viu alguem escalar a estátua do Borba Gato para tirar fotos?

5 Responses to “Pela dessacralização da arte”

  1. As pessoas nem sabem que foi Manoel de Borba Gato… tem gente que passou pela Santo Amaro e nem reparou que ele está lá….

    Agora, eu já fui duas vezes ao Louvre… o que eu posso afirmar é o seguinte… vc tem que ir uma vez ver a amiga Monalisa… que se não bastasse tudo isso que vc disse ainda tem o fato de ser quase um quadro 3X4 de tão pequeno que é… mas na mesma sala, longe dos flash existem outras obras maravilhosas… mas, sem dúvida, meu museu favorito é o D’Orsay….. as obras estão lá, pertinho de vc…. é uma delicia de ver, de curtir e é menos concorrido…

    Agora… voltando a vaca fria e ao assunto do post… eu acho que algumas obras acabam sendo mais valorizadas não pelo conceito artístico dela, se representam mais para a arte, e sim “o que agrada o povo”… além disso é o boca-a-boca, mesmo que se arraste por séculos que vale…. existem obras maravilhosas de grandes artistas que não são conhecidas…

    No fundo.. o que vale é o que nos emociona… e a monalisa acaba fazendo parte do secreto desejo de todos que vão pela 1a vez a Paris de conferir se, inclusive tudo o que foi dito sobre ela, é verdade….

    A maioria das “obras” (plásticas ou da arquitetura) do velho mundo nos encantariam menos se não as tivéssemos estudado na escola… ainda mais aos brasileiros, tão desacostumados a dar valor a “velharia”….

    Beijocas

    Taty

  2. Eu já vi. E olha que não sou de São Paulo…
    O ponto de vista das pessoas, sempre muito particular e sempre o mais correto.
    O Brasil é o país das contradições. Já vi gente tomando bocharrada em cima do cavalo de D. Pedro lá no Ipiranga, por desrespeitar o patrimônio público. Mas ainda não vi governador ou prefeito apanhar, por também desrespeitar o patrimônio público. O jeito é derrter tudo, desmontar tudo na base da marreta, tingir todas as telas, botar fogo em todos os papéis, só pra ver se o hipócrita abre os olhos. (Hoje estou anárquica…;o))

  3. Taty – A Monalisa foi apenas um exemplo de sacralização, por ser a obra em que tal fenômeno se manifesta de forma mais intensa. Isso ocorre não pela representatividade do quadro, mas por sua mistica (foi roubado uma porção de vezes, por exemplo). Não é o que “agrada o povo” mas o que ele conhece, pela fama ter corrido. Porém, a idéia de obra de arte enquanto objeto de contemplação transcedental me incomoda. Gosto especialmente de obras como as de Calder que são feitas para serem tocadas, mexidas, ou seja, para se relacionarem com as pessoas. A Obra mesmo que exposta numa parede, deve conversar com seu interlocutor, representar algo à ele.

    Comparei o Borba Gato ao Monumento das Bandeiras por dois motivos: Homenageiam os Bandeirantes (na minha opinião piratas, corsário ou criminosos) e formalmente são muito distintos. Monumento das Bandeiras é uma escultura de Brecheret colocado em um local propício para estabelecer uma relação de identificação dos habitantes com a cidade. Já a Estatua de Borba Gato é uma obra horrenda colocada em um local de passagem de forma a nada representar aos paulistanos. Eu poderia fazer a comparação com a Estátua de Cabral que fica próxima ao Monumento das Bandeira, mas enfim, era algo jocoso mesmo.

    Quanto a preferência de museu, eu prefiro o MASP como foi concebido por Lina Bo Bardi, em que os quadros ficavam sobre cavaletes de vidro, de forma a ocupar o mesmo espaço e, portanto, se igualar aos visitantes. Tal concepção democratiza e dessacraliza a arte e, na minha opinião, ajuda com que o interlocutor possa se relacionar com ela e refletir. Por sinal, não deixo de me encantar reiteradamente pelas hobras que estão lá e na Pinacoteca do Estado (visito cada um desses museus pelo menos duas vezes ao ano), de forma que a proximidade ou distância nada tenha de influência. Apenas fico triste que a atual administração do MASP não entenda a concepção da arquiteta.

    Roberta – Não acho que seja na porrada que nossos políticos deixarão de desrespeitar o patrimônio público. Mas não se esqueça que as obras de arte espalhadas pelas cidades são também marcos históricos, e a história não pode, nem deve ser reescrita.

  4. Fernando, tenho a mesma opinião a respeito da Monalisa e outras obras ‘sacralizadas’. Também discordo da Barbara. Se o lugar da arte é uma redoma distante do público, prefiro ver os grafites nos tuneis da cidade.

    Vale lembrar ainda que o que é arte (bem como o que é bom ou não) é ponto de vista.

  5. Duchamp colocou a teoria da gansa abaixo há quase um século, olha só! (só pra lembrar um pouco da maravilhosa Gioconda de bigodinho!)

    Eu LEGITIMO esse tipo de “ato de vandalismo” que desfetichiza a arte, a aura, a cidade. É isso que a turma do grafite, e porque não do pixo que é uma das coisas mais expressivas de SP, vem mostrando.

    E só para fechar com chave de ouro, “Todo documento de cultura é também um documento de barbárie”. Olhem e pensem no que simboliza o Brecheret ao lado do parque. Olhem e pensem o que simboliza esse “ato de barbárie”.

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