A vida não se resume em festivais

Thursday, December 3rd, 2009

Por Fernando Torres

Nas últimas semanas aconteceram uma série de lançamentos e mesas literárias em São Paulo. Imagino que, com a aproximação do natal, os autores devam apressar suas editoras para realizar o lançamento de seus livros. Assim, tomando muito vinho branco nacional (de melhor ou pior qualidade, dependendo da livraria), às vezes comendo alguns canapés e ouvindo as mesmas  conversas. A literatura marginal, o cânone, os autores fantásticos, ou seja, todos praticam o esporte preferido, bater nos vampiros mórmons do Crepusculo, Lua Nova e livros afins (sobre os quais desconheço uma sílaba escrita).

Ultimamente eu chego em casa e tento diminuir a famosa fila de livros e estou me perguntando: quantas pessoas estão fazendo o mesmo? A minha impressão é que desses lançamentos, mesas literárias encontro de autores sai muito pouco. Os autores leem os autores, alguns arroz de festa compram os livros e nem todos leem o que compram, os parentes colocam em local de destaque sem sequer romper uma vez a lombada.

Resta o fetiche do livro e o culto da personalidade do autor. A Catedral está ali na avenida paulista, em um antigo cinema, como atesta José Saramago. O livro voltou a ser objeto de ostentação e status. Alguém me disse que o escritor é o novo rockstar. Nunca se vendeu tanto livro no Brasil, mas se lê mais que há dez anos? Os mesmos livros estão nas mesmas posições de mais vendidos desde… nossa nem me lembro mais. Ninguem empresta mais um livro para um amigo? E cada vez menos vejo esses fenômenos literários em sebos (quem já está aproximando dos 30 como eu, ou é mais velho, lembra da invasão de exemplares de Cavalo de Troia e Brumas de Avalon nos sebos na década de 90).

Eu começo a ficar desconfiado que alguma coisa está muito errada. Pouco a pouco vejo com bons olhos o advento do livro eletrônico. Quando houver um aparelho acessível ao consumidor geral, que custe o mesmo que um mp3player ou um celular, o custo benefício pode ajudar a literatura. Penso que as pessoas comprarão livros que realmente pretendem ler e que não fiquem apenas “bonitos na estante”.  Com isso, talvez o escritor vá a eventos para falar de literatura e não cultuar sua personalidade.

Lembro-me de assistir o video de Geraldo Vandré, tentando cantar sua “Para não dizer que não falei das flores” ao final de um festival. Diante da derrota para “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, a massa entrou em um surto coletivo e gritava “marmelada, marmelada”. Vandré, antes de cantar, grita ao microfone: a vida não se resume em festivais! A música dizia de algo mais importante que acontecia fora das paredes daquele ginásio: a vida. Está na hora do conteúdo dos livros ser mais importante que seus lançamentos, colunas sociais, vinhos nacionais e estantes da sala.

10 Responses to “A vida não se resume em festivais”

  1. O vinho no lançamento do Imaginários era bom. E os livros idem, mesmo que muitos sequer o leiam. Lançamentos são eventos sociais geralmente vazios (de conteúdo), mas sempre necessários.

  2. Tibor, livros são para serem lidos. O questionamento não implica na idéia de se abolir os eventos de lançamento ou coisas assemelhadas, mas retomar a importância da obra.

  3. Social comments and analytics for this post…

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  4. “Com isso, talvez o escritor vá a eventos para falar de literatura e não cultuar sua personalidade”. ;) Muito bom. Abss!

  5. Sempre que o goró é de graça, eu não consigo ir. Aff… Mandou muito bem. Eu (quase) sempre apareço por causa dos meus amigo e, surpresa!, as coisas (quase) são melhores do que eu esperava. Eu empresto livro, dou de presente, vou a sebos e me mordo de raiva quando tem promoção no Submarino. Meia 7/8, cinta-liga e livro encadernado em couro na mão… Ah, o fetiche!

  6. eu acho que os lançamentos deveriam ser menos chatos e mais festivos. deviam ter banda. e jogos tipo mímica. e o livro deveria ser de fato lançado de um lado a outro da sala e quem desse o salto mais interessante para agarrar o arremessado ganharia o direito de dizer ao autor toda a verdade sobre o livro.
    ISSO SIM SERIA VIDA LITERÁRIA. :-)

  7. Pois é.
    Mas ainda tenho medo de digitalizar toda a minha vida nas paredes de um pequeno dispositivo eletrônico…

  8. O livro ainda é considerado um adorno, algo que torna a casa mais “intelectual”.
    Quanto a emprestar, não saio emprestando para pessoas que não irão ler e nem devolver. O que faço é, depois de ler, sair falando pelos quatro cantos o quão bom aquilo é. E tem funcionado, pelo menos entre amigos.

  9. Fernando, veja você a genialidade dos grandes: no capítulo das “Memórias póstumas de Brás Cubas” intitulado “O bibliômano”, Brás, em pleno século XIX já está fazendo troça da nobreza luxuosa e posuda.

    Mesmo num Brasil onde cerca de 10% da população apenas era letrada, Machado já sentia no ar o cheiro desta questão que você tão bem abordou no post…

  10. Fernando,

    Essa proliferação de festivais e feiras literárias, além dos vinhos, proporcionam, creio, uma graninha (cachê) para os escritores – já que não podem viver de literatura. Veja você que, logo após participarem de um evento literário em Ouro Preto, na semana seguinte já apareceu outro em Porto de Galinhas! Será que isto está virando uma indústria (dos festivais) – como parece estar acontecendo com o cinema brasileiro?

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