Bienal?

Thursday, September 10th, 2009

Eu não gosto da Bienal. Quando digo isso, como autor, as pessoas dizem “oh”, mas por quê? Na verdade, tenho uma implicância com a Bienal do Rio de Janeiro. Ela é óbvia e eterna. Como podem achar que o Riocentro é lugar para qualquer coisa que dependa de público? Se você não é do Rio e nunca foi a uma Bienal por lá talvez não saiba que o Riocentro é um buraco inacessível, que só chega quem tem carro e, mesmo assim, chega demorando, enfrentando trânsito e pagando os tubos por uma vaga no estacionamento. Toda vez que surge um novo espaço para eventos na cidade, a primeira pergunta feita é sempre “será que a Bienal vai para lá?” e os responsáveis pelo Riocentro logo dizem que ele não “perderá” a Bienal.

Aí, é claro, aparece muito timidamente um esquema de vans e ônibus que deixam na porta de entrada. Uhum. Porta de entrada é um conceito vago em eventos de grande porte. Da última vez que fui à Bienal do Rio, peguei um ônibus cadastrado como uma das linhas que passava perto. Por sorte, consegui saltar no lugar certo. Sendo lugar certo o meio da estrada, atrás do Riocentro num buraco deserto, só eu e dois amigos que estavam comigo. Depois de muito andar, cheguei na tal da porta. Van é ótima para voltar, porque aí sim ela já está na porta, te esperando, mas também te larga nos lugares mais improváveis, pelo menos dentro da cidade.

Aí vim para São Paulo. Bienal de Sampa, uau. Menor que a do Rio, foi a minha impressão. Um galpão ao invés de três, mas pelo menos você consegue ir e voltar. O metrô de Sampa deixa você perto o suficiente do local. De lá, ônibus que realmente pertencem ao evento ou um taxi que sai barato, porque é perto de verdade. Fiquei impressionado que alguém tenha pensado nisso, pelo menos, numa cidade onde tudo parece longe.

Mas aí sobra a Bienal em si. Serve para quê? Para divulgar a literatura não, sinto muito. Ela deveria ser um negócio, mas tenho dúvidas sobre isso também. A Bienal faz tempo perdeu sua função. A última teve queda de público. É uma ilusão achar que a feira do livro tem preço de feira. Ela custa caro. Com preços mais altos do que o das lojas convencionais, as que ficam no caminho de casa, no shopping depois do almoço.

Minha maior frustração foi entrar nos espaços de exposição e descobrir que eles não vendiam livros. Só mostravam: olha existe esse livro aí, existe esse autor. As atendentes não sabiam me dizer quem era o autor, nem a importância do livro, mas sabiam dizer que não vendiam. Não vendiam porque para montar uma barraquinha (ué, não é uma feira?) na Bienal é preciso pagar muito dinheiro. Se você só expõe, paga menos. Se você quer vender, paga mais. E paga muito mais. Então é uma espécie de vitrine, também conhecida como espaço inútil. Um monte delas.

Estava procurando livros em espanhol, especificamente. Ninguém tinha um preço melhor do que a Amazon ou a Cultura, por exemplo. E lá, os expositores. Não, não. Só para ver. You can look but you can’t touch, baby.

E havia editoras nacionais fazendo o mesmo. Compre nossos livros na Saraiva, no Submarino. Compre em qualquer lugar, menos aqui. Só trouxemos livros para sacudir o estoque, tirar a poeira. Era dia de limpeza lá na editora e, sabe como é. Então para que mesmo essas editoras estão na Bienal? Competição de marca. Olha só, meu estande é maior que o seu. Ele não serve para nada, mas todo mundo vê e diz “uau, que tamanho, hein?”

Então é isso. Sou um autor que não gosta de Bienal. Torço muito para que ela reencontre sua função. Contato entre editoras e autores (e desde quando editora quer ter contato com autor?). Contato do público com os livros, incluindo aí o ato da compra. Contato do público com autores que ele nunca ouviu falar na vida. Eu não sei, não sou eu quem organiza a Bienal.

É por isso que prefiro muito mais a Primavera dos Livros. É por isso que esse ano irei na off-Bienal do Rio de Janeiro, lá no Baratos da Ribeiro, sábado, dia 19. É perto do metrô, perto da praia, da cidade, dos ônibus, das pessoas. É um conceito incrivelmente inovador esse o de aproximar um evento das pessoas que, se supõe, irão até ele.E também é perto de bons hotéis, para quem vem de fora.

A de São Paulo ainda é boa, para caminhar. Gosto de andar por aí, bater perna, rever os amigos escritores. Comprar lá é prejuízo. A do Rio, é boa… ãhn, é boa para se perder, para se estressar, fazer programação de escola. Um monte de criancinha andando para lá e para cá, correndo atrás das celebridades (não-autores) nenhuma delas com livro na mão.

2 Responses to “Bienal?”

  1. Olás!

    Eric, também me questiono bastante sobre a função da Bienal, e também acho que ela se perdeu e acabou virando atração de final de semana pra quem não tem nada mais interessante pra fazer, como vc disse, é boa pra bater perna, andar por aí, etc.

    As promoções das editoras não são muito boas – ou talvez sejam péssimas comparadas por exemplo com a Feira do Livro da USP (aquela que rola todo ano no prédio da História). Acho que isso é uma forma bem mais eficaz de divulgar editoras, incentivar a leitura, novos bons escritores, livros e td mais… O que eu acho que talvez fosse a verdadeira função das bienais…

    Abraços!

  2. Amigo,tb detesto Bienais.Prefiro as Festas Literárias e feiras de livos,onde posso estar mais á vontade c/ o público.
    A tendencia dessas mega-festas é cair,pois,n/ cumprem seus objetivos,n/ querem pagar bem ao autor e ,além de receberem um dinheirão do governo,via Lei Rouanet,etc,ainda nos escorcham c/ stands caríssimos e preços altos de ingresso p/ o público.
    Sds

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