Um esparrame de coletâneas. Nelas se alimentam os rodapés.

Wednesday, September 9th, 2009

por Tibor Moricz

Pipocam, cada vez mais, as coletâneas por aí. Menos bancadas pelas editoras, mais pelos autores no afã de entrarem no mercado literário ao preço que for.

Pilha de Livros2

Questiono, nesses casos, o mérito dos organizadores, já que não está em jogo a qualidade dos trabalhos e sim o poder econômico sustentado por contratos nem sempre tão claros. Autores na ânsia de ver trabalhos seus publicados, se sujeitam aos rigores desses contratos, garantindo antecipadamente os lucros da editora envolvida (que lucra duas vezes, uma pelas mãos dos autores, outra pelas mãos de leitores eventuais que adquirem os livros nas livrarias). Além do fato de que nessas coletâneas mais claramente se vê o joio que o trigo.

Mas independente disso, as iniciativas, todas elas, tem sua importância. Fazem agitar o mercado, trazem atenção sobre um mundinho ainda meio que ignorado (estamos aqui a falar da literatura de gênero, mais especificamente de ficção científica e fantasia) e acabam por revelar nomes antes desconhecidos, mas bastante talentosos.

Paradigmas, Ficções de Polpa, Portais, coletâneas promovidas pelas editoras Andross, Terracota e Giz (não vou citá-las uma a uma), Fábrica dos Sonhos, Pulp Ficcion a Portuguesa (embora lusa, abriu espaço para autores brasileiros) e outras mais.

Esses formatos têm-se mostrado dinâmicos, e inundado o mercado com contos que revelam o esforço dos autores em narrativas curtas nem sempre bem sucedidas. Se servem para fazer flutuar em sua superfície aqueles cujo resgate é obrigatório, também auxiliam no discernimento dos outros que afundam e a quem o mercado não estenderá a mão (em algumas coletâneas, muito mais esse caso que o outro).

Há lugar para mais dessas coletâneas? Claro que sim. Mas seria utópico almejar que fossem bancadas pelas editoras, com organizadores inteiramente voltados aos melhores trabalhos, fornecendo um padrão médio de qualidade mais elevado do que se vê hoje por aí? Fica a pergunta.

É bastante confortável organizar um livro que já sai lucrativo do prelo, independente do conteúdo que carrega no bojo. Melhor isso que se enervar, incerto se a tiragem alcançará venda que justificará a publicação. Pelo menos é assim que pensam as pessoas envolvidas no processo. E não quererão largar esse osso, depois de tê-lo roído um pouco.

Aos compradores eventuais fica a adrenalina de um esporte radical, onde não se sabe se o dinheiro investido resultará em benefício ou em irritação. Aos autores tudo é lucro, mesmo tendo enfiado a mão no bolso para garantir que o projeto não soçobrasse (e jamais soçobra) e com ele suas esperanças de entrar no fascinante mercado literário.

Quem mais se alimenta com tudo isso além das editoras e os organizadores envolvidos são os armários, os rodapés, os cantos de sala, os vãos sob as camas. Entulham-se neles os livros que o autor não pôde vender e os comprou ele mesmo por força de contrato.

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Nota do Editor: Este texto foi publicado sob autorização do autor. O Arlequinal respeita os direitos autorais e espera que todos façam o mesmo.

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