Talento?
Friday, August 28th, 2009Por Fernando Torres
Esses dias a escritora Carol Bensimon desabafou no Twitter sobre os emails que ela recebe de escritores aspirantes que buscam, muitas vezes de forma atrapalhada, um apoio:
“Não li nenhum de seus livros, mas, sabe, eu escrevo uns contos, e adoraria que você lesse” = cansei. Nunca fiz, não façam comigo.
Antes de mais nada, para quem não sabe a Carol é uma promissora escritora iniciante. Publicou seu primeiro livro, o excelente Pó de Parede (Não Editora), de forma independente e está publicando agora o Sinuca embaixo d’água (Cia das Letras). Faz doutorado (salvo engano) na área de literatura em Paris.
Por outro lado, ela nasceu em 1982, tem aquela cara de girl next door (sabe? Aquela menina que você diz “até logo” quando sai do elevador mas não sabe em qual apartamento vive) e escreve em seu blog coisas interessante sobre o dia a dia dela na França.
Aí o rapaz ou rapariga aspirante a escritor lembra-se da dica que alguem se deu: “tente cair nas graças de um escritor experiente”, e manda um email de tal teor.
Se você for se aproximar de um escritor, primeiro leia um livro dele, ou pelo menos acompanhe o blog, ou seja, saiba quem é o cara. Ao contrário do Mito do Escritor, essas pessoas com afinidade com os livros não são pessoas desocupadas. A maioria tem profissões e atividades, têm vida social, obrigações familhares e uma pilha de livros para ler. É sério! Pense bem, um escritor vai parar sua jornada entre os sete volumes de Em busca do tempo perdido, que ele está enfrentando com muito afinco, para ler os contos de alguem que nem sequer leu o que ele escreve? Eu não leria.
Meu amigo Eric Novello já publicou por aqui algumas dicas para escritores iniciantes. Acho que estou tentando aqui ser instrutivo como ele, talvez sem a mesma competência. Mas eu vou tentar falar de algumas coisas que acredito, que adquiri por experiencia ou por observação de gente mais talentosa que eu.
Astes de mais nada, se você está escrevendo um livro ou um conto, você gosta de ler certo? Se você responder que não gosta de ler feche a janela do seu navegador e vá fazer qualquer outra coisa. Esse artigo não é para você. Quem não gosta de ler não é nem nunca será um bom escritor.
Bom se você gosta de ler, é provável que você tenha amigos que gostem de ler. Peça para eles lerem o que você escreveu e peça para comentarem em vermelho. Quanto mais eles descerem a lenha no seu texto, mais eles gostam de você. Comentários precisos, questionamentos desconfortáveis, sugestões radicais são verdadeiras provas de amor fraterno. Não que seja fácil lidar com essas críticas. Quando meu leitor beta devolveu um original comentado (agora em vias de ser publicado), eu fiquei desnorteado umas duas semanas.
Um aviso para quem se acha talentoso antes dos 30 anos: Você não é tão talentoso assim, ninguem sente inveja do seu talento e a maioria das pessoas que te elogiam não entendem rigorosamente nada de literatura (a menos que sua mãe seja professora do departamento de teoria literária de uma respeitada faculdade).
Dito isso, você perceberá uma coisa: eu não quero te estimular a escrever. E estou sendo teu amigo quando te digo isso, pois se você vai escrever e não aguenta críticas ao seu “talento”, se você acha que é perseguido por gente invejosa e frustrada, você provavelmente não tem peito para aguentar críticas verdadeiras ao seu livro se um dia ele vier a ser publicado.
Quem sou eu para dizer te dizer tudo isso? se você leu até aqui essas linhas desse escritor frustrado que tem inveja do seu talento, bom, melhor dizer que não sou ninguem.


Perfeito. Nada a acrescentar. Se todos os “escritores” com menos de 30 (e alguns com mais também) tomassem uma dosezinha diária de chá de semancol, as vidas de todos nós – escritores, aspirantes a, e aqueles que nunca serão – seriam tão mais felizes.
Fábio, eu acho que existe um limite tênue entre a cara-de-pau necessária e a falta de noção. Existem muitos mitos de escritores que se sairam bem por que não tinham muito semancol.
Eu assumi uma cruzada épica de combater o “mito do artista”, como um ser que flana, com inspiração e talento que independem de dedicação.
No fim fiquei pensando, por que uma pessoa pediria para um escritor ler algo, se essa pessoa nem sabe se respeita a obra do escritor? Como vai respeitar sua opinião? Não irá, só quer ser elogiado e alçadoao “estrelato”.
Fernando, você tem toda razão. E acrescento: conheço outro tanto de pretensos escritores que nem pedem para escritores de verdade lerem seus textos – pois não acham necessário, vistos que eles se bastam a si mesmos.
Tenho tomado a mais absoluta ojeriza a esse tipo de falso profeta que, como você muito sabiamente aponta, só quer mesmo o tal “estrelato”. Agora, o gozado é que justo esse tipo de pessoa não saberá o que fazer com tal benesse se um dia esta lhe for dada…
Me lembrou uma coisa que o Daniel Galera (que escreveu e publicou coisa boa antes dos 30) disse numa entrevista:
“Nunca esqueça que não há evidência nenhuma de que qualquer ser humano na face da terra esteja minimamente interessado no que você tem a dizer.”