Diário de um chimpanzé (ficção)
Wednesday, July 22nd, 2009(I)
Mal a arquitetura do dia se forma, ele pensa em ir embora. Há pouco os cães ladravam e os pássaros chilreavam por atenção, sem sucesso. O mundo não está para eles nem para nós. E ele sentia um certo ódio à insistência do dia em nascer: queria amordaçar os cães e os pássaros que clamavam por atenção. Todos eles. Queria deter o sol, toldar a abóbada celeste. Mas o mesmo espetáculo que o atormentava o convidava a um passeio pelo que a vida pode oferecer de melhor àqueles a quem é dado vestir-se com o manto da existência. Os olhos queimando de curiosidade e rancor, o corpo mantido em stand by no espaço acolchoado entre o sono e a vigília. Fechou o livro, levantou do sofá, se espreguiçou e caminhou na direção do quarto.
Ao abrir a porta, sentiu um forte cheiro de mofo e desodorante for man. O irmão dormia na parte de cima do beliche, e a avó – com quem há anos eles dividiam o mesmo cômodo – dormia em posição fetal numa cama estreita pegada à janela. Ele caminha lentamente na penumbra a fim de não acordar ninguém; curva o corpo para deitar-se, estica-se bem, sente aos poucos o colchão moldar-se ao desenho do corpo, e procura em vão aquela sensação de relaxamento que sempre vem na esteira do sono.
Não encontrando posição confortável na cama, o corpo produz constantes sensações de contrariedade. Ele e o corpo (porque nunca pensou seu próprio corpo como um aliado) falham na tentativa de penetrar a esfera aconchegante e segura em que a avó e o irmão parecem repousar suavemente. Então decidem, após firmarem um acordo provisório de não-agressão, partir para uma outra empreitada, bem mesmo reconfortante que o sono porém muito mais auspiciosa. Salta da cama e corre a juntar-se aos cães e aos pássaros no coro algo desesperado por atenção – e redenção.
(II)
As abluções matinais contra as secreções produzidas pelo corpo à sua completa revelia. Depois três bolachas de água-e-sal e uma xícara de café como desjejum. Veste sua melhor camisa – herdada do avô materno -, sua calça jeans menos desbotada, seus sapatos pretos mal engraxados, e sai para a entrevista de emprego. Mais uma. Pega o ônibus semilotado; a cobradora negra de cinqüenta e poucos anos o cumprimenta com um sorriso complacente, que se analisado com frieza e distanciamento, revela-se simplesmente automático – o que é bom. Senta-se num banco ao fundo; divide-o com uma moça de uniforme verde-água, de uma rede de farmácias local. Ela tem os cabelos escovados, sua pele recende a sabonete de erva-doce. Ele tenta ensaiar mentalmente o que dirá ao recrutador, como causar boa impressão. Por que merece o emprego? O que o torna digno de confiança? Pensa nas contas que se acumulam sobre a escrivaninha. Pensa na barba hirsuta e grisalha que cresce no rosto do pai; no seu discurso inflamado contra tudo e todos, cujo contraponto principal era encontrado na inocência destemida do irmão caçula. Até quando ele não sabe. Caminha no centro da cidade como um fugitivo da polícia. Vive como um fugitivo. E é absurda mas inevitável a comparação com um criminoso refugiado sob a chancela do governo. Chega ao local da entrevista, uma grande loja de departamentos, confiante, esperançoso, ridículo. A avó vive dizendo que para quem está se afogando jacaré é tronco. O irmão do meio acha graça. Ele também tenta rir de tudo. Mesmo constrangido, ri de suas tentativas de fugir às perguntas de conhecidos sobre sua vida profissional. Da sua idéia boba e estapafúrdia de manter um blog na internet. Dos livros que tem vendido – a contragosto, na maioria das vezes – pela internet. De sua deplorável dependência da internet; da própria citação indiscriminada da palavra internet. Mas então pensa numa verdade alentadora: ele não precisa da internet; mas precisa dos livros. Precisa ler – porque é um animal que lê, acima de tudo. E pouco pode fazer para mudar isso, como em relação às secreções e excreções produzidas diuturnamente pelo corpo. Chega à recepção e diz a que veio para a moça que lixa as unhas pontudas. Ela o anuncia para o recrutador, que pede para que ele aguarde um instante, que em breve será atendido. Enquanto isso, um gato ronrona dentro do seu estômago, e um chimpanzé doido dá corda no seu coração, que passa a bater de modo desenfreado.
(Continua…)


Intenso. Como se cada palavra carregasse um lastro para garantir seu peso.