Budapeste

Friday, July 10th, 2009

budapeste071Com uma primorosa fotografia, atuações certeiras e soluções cinematográficas bem calculadas, “Budapeste”, o filme, é uma obra a que vale a pena assistir. Walter Carvalho, que há muito tempo trabalha predominantemente como diretor de fotografia junto a outros cineastas, fez uma adaptação muito bem sucedida do romance homônimo de Chico Buarque publicado em 2003.

Leonardo Medeiros incorpora competentemente José Costa/Zsose Kósta, o homem que se divide entre duas mulheres, duas pátrias e duas línguas — todas elas antagônicas entre si. Wanda e Kriska são duas mulheres que vivem suas vidas de maneiras que sequer se tangenciam: à superficialidade daquela contrapõe-se a poeticidade desta. O português brasileiro (carioca, especificamente) possui uma musicalidade que o húngaro aparenta não ter e transparece aquela famosa lábia tão afim a uma imagem de Brasil (a boa e velha “cordialidade” local?). Quanto às pátrias… Se Brasil e Hungria são países que se diferem em muitos aspectos, a fotografia do filme, sempre tendendo para as cores neutras e para os tons de marrom, parece denunciar que existem mais semelhanças que diferenças entre ambos os cenários. José/Zsose é um homem que não se localiza, qualquer que seja o local onde habite, e jamais se sentirá em casa: em qualquer lugar, ele será sempre um estranho.

Desse modo, a adaptação fílmica dá conta de uma ideia que no livro se perde, pois o desejo do autor de tornar experimental um tema já tão tratado (e com muito mais desenvoltura por tantos outros autores) pela literatura encaminhou-se para uma metalinguística pretensamente revolucionária, correndo o risco de se tornar um tratado sobre a relação identidade pessoal X identidade linguística. Não que o livro seja ruim, pelo contrário. Mas seu tom ensaístico não comporta sequer a ironia borgeana adequada à proposição do autor (hemos de concordar que a abordagem de Chico Buarque é calcada nas ficções de Borges).

O diretor do filme soube transformar em imagens aquilo que o livro não soube dizer com palavras: o homem contemporâneo, essa existência que se multiplica em várias existências que não existem, não possui um ser, por mais que se desloque de um lugar para outro, de uma vida para outra, e assim por diante. Tudo é encenação, uma questão, talvez, de nomenclatura ou de apropriação (isso é meu porque eu digo que é meu, mas isso não passa de uma questão de linguagem, não de realidade (?), tudo é construção). A última cena do filme é a mais importante do filme, nesse sentido (e ninguém me tira da cabeça que há um dedo do Bergman de “Persona” nesse artifício usado pelo diretor).

E que significativa é aquela cena em que o rio que corta Budapeste serve de passagem para a estátua de Lenin… Estamos mesmo num mundo dividido, em que os discursos se perderam e em que as pessoas revelam-se como máscaras… Tudo é recorte, seleção, versão. O tema, como já dito, não é novo, mas ainda é possível se surpreender com certas escolhas bem feitas.

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