Clarisse para observar os girassóis nascerem – Da série “Girassóis sorriem dentro dela”
Tuesday, June 30th, 2009por André Moncaio
Os guindastes de Maria.
Bichos de sonhos.
Estimados.
“Queria ser um passarinho”
Semeou. As melhores sementes aqueles girassóis. Escolhidas. Semeou no tempo certo. Aguardou a época propícia. A temperatura. O dia. A hora. Antes de deixar cair as últimas sementes, parou. Respirou. Olhou para as montanhas ao sul. Pensou nos vales. Rios correntes. Imaginou memórias. Pensou. Pra onde ir. Por onde expressar suas simples impressões sem que a vida virasse câncer. O amor. Não havia trigo. Não havia ponte. Não havia orelha. Ouviu. O amor era um all star roxo. O tempo não estava em suas mãos. E o sol já despontava no horizonte. Olhou para as sementes em sua mão direita e deixou-as cair em câmera lenta. Puxou a terra. Molhou. Juntou os apetrechos e caminhou até a sombra da jabuticabeira. Sentou. Bebeu um gole da água fresca e abriu seu livro. Clarisse para esperar os girassóis nascerem.
Eu gosto de dia assim: branco. A chuva tá vindo. Entra, você vai se molhar. E ela via o amor nascendo e crescendo. Ali na sua cozinha. Imaginava como isso poderia ser. Vovó não via a gente. Tava cegueta de tudo. Chamava pertinho na hora de despedir. Enxergava só com o canto do olho esquerdo. Como você ta bonita! E ria. Adorava aquela risada. Não via nadinha com os olhos. Mas nos amava tanto. E um abraço gostoso de sentir. Era a parte boa de ir pra casa. Sair daquele lugar tão afetuoso. Casa de varanda. Terra de chão. Sabia tanto de tudo. E tudo de tão pouco. Sabia o cheiro das coisas. O tempo das folhas. E sentia nas mãos de linhas que podia costurar o mundo. Inventar milhares. Que as sementes floresceriam a cada dia. Que viver era aguar os sulcos. Alinhar os sonhos. Aliviar os pesos. Divergir as dores. Espantar as bruxas. Sabia tudo quando podia sentir seu corpo abraçado. Sabia vibrar com todo ele. Emanar. De olhos arregalados. De peito aberto. Enfaticamente lúcido. Que era respirar os cheiros de seu amor. E que era ainda poetar para o vento.
O branco fica mais branco perto do preto.
O preto fica mais preto perto do branco
O alto fica mais alto perto do baixo.
O baixo fica mais baixo perto do alto.
São estes contrastes que conduzem silenciosamente a vida. As vidas. Há tantas ávidas almas. Pessoinhas. Pessoonas. Pessoazinhas. Pessoazonas. Soam como erros. Soam como sinos. Soam como o amor. Imperfeito. Incompleto. Impróprio. Para que erremos mais. Eram suas palavras naquele livro. Ela quem havia escrito. Imprimido. Levado na editora. Negociado. Publicado. E não reconhecia o formato das letras. Encostou a cabeça na parede. Balançou para os lados. Fechou os olhos cegada pela forte luz da janela. Ficou aquela luzinha no escuro, sabe? E a senhora sentiu mais o quê? Mal-estar, tontura? Mais nada. Quer dizer senti uma fraqueza nas pernas. Uma fome esquisita. Tá, muito bem, pode levantar e se vestir. Abriu os olhos de uma vez. Viu no teto o branco do teto. Porque nunca havia pintado de outra cor? Um salmão. Verde. Azul. Fúcsia. Aurora boreal. O livro estava caído no chão de tacos. Entreaberto. Abriu na página 77. Começou de novo. Releu o título. Pegou o lápis e anotou ao lado puxando uma flecha: “Eu prefiro o mar”. Um pedaço de coisa. Um copo de água de filtro de barro.


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