“Persona” de Ingmar Bergman
Friday, June 26th, 2009
Parece que as crises de identidade às vezes servem para algo produtivo. A de Ingmar Bergman em 1966 lhe valeu a ideia de fazer um filme em que se questionava, além da identidade do indivíduo, a do cinema. O resultado foi uma obra-prima: Persona.
Se Bergman tem a fama de ser admirado somente pelos “cools”, “cults” e “cabeçudos”, quem vir esse filme vai ter certeza dessa opinião — embora ela seja muito limitada. Persona é uma aventura pelo território imprevisível da personalidade humana: o que somos é uma máscara do que somos, portanto existir é atuar, e o mundo é um palco — ou uma tela. Duas mulheres compõem um duelo de máscaras em que a sinceridade pode não ser o oposto do fingimento, mas uma outra forma de fingir. Ou então as duas mulheres são apenas a frente e o verso da mesma máscara, e uma finge que é a outra de verdade.
A grande mestria de Bergman é pensar essa ideia, tão confusa e já tratada muitas e diversas vezes pelo teatro e pela literatura, cinematograficamente. E as soluções adotadas pelo cineasta sueco só podem tender mesmo ao radical: não há meios-termos quando o assunto é crise. A começar pela “semelhança” entre as atrizes Bibi Andersson e Liv Ullmann; tal semelhança, mais do que real, é construída de modo que o espectador a aceite e se desestabilize ao mesmo tempo. Se existe mesmo essa parecença, o quanto ela pode revelar da nossa própria ambiguidade? Então, desde que alguém saiba manipular as imagens, aceitamos a ilusão oferecida? (E como o talento dessas atrizes colabora para que aceitemos tudo!!!)
Então o cinema é um mecanismo que produz mentiras? O cinema é, antes de tudo, um mecanismo. É isso o que nos diz a primeira cena da antológica sequência inicial (confesso: é a minha parte preferida do filme). Um mecanismo que nos ilude mas que pode a qualquer momento entrar em colapso e se revelar como artifício (a cena em que o filme parece queimar é ilustrativa). Se o rolo de filme se queima e a máscara é descoberta, qual a nossa reação? Descoberta a trapaça, vamos em busca daquilo que ela disfarça ou tentaremos construir outra verdade, mesmo já sabendo da mentira que ela é?
Persona é, antes de tudo, a comprovação de que , caso não seja possível encontrar a essência das coisas, a Verdade, pelo menos temos o conforto de saber que a ausência Dela pode resultar numa obra como essa.

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