Uma opinião sobre Borges

Thursday, June 25th, 2009

Borges-IIUma vez li numa certa revista, a qual hoje deve se achar nalgum lugar escuro e úmido, num texto sobre Jorge Luis Borges, a opinião (publicada na seção “Cartas do Leitor”) de que o  escritor argentino não passava de um escritor pop (“o maior de todos” — esclarecia o autor do texto). Comentei tal juízo com um escritor amigo meu que parecia discordar da ideia — “é uma ofensa”, dizia ele, entre o constrangimento e a cólera. Indaguei dele qual seria o mal na alcunha de “escritor pop”, pois eu entendia que ser pop significava diminuir a distância entre o leitor que busca a simplicidade simpática do entretenimento e o leitor que requer o requinte seguro da erudição. Na minha opinião, Borges fazia isso com muita despreocupação. Mas meu amigo insistia em afirmar que um escritor da mais alta estirpe como Borges não podia ser considerado “pop”. “A alta literatura é inacessível à massa”. Eu, que nunca fui muito seguro disso, mas também nunca ousei tentar comprovar o contrário disso, me calei, e dei por encerrada a discussão.

Depois de uma semana revirando aquelas ideias na minha mente inquieta, resolvi escrever um texto (assinado com o pseudônimo Marcel Coelho) no qual a ideia central era a de que grandes artistas sempre se valeram dos elementos disponíveis, entre eles as manifestações populares e a subliteratura. A isso se juntava um pensamento, a meu ver não tanto problemático, de que as próprias distinções ”cultura popular” e ”subliteratura” só tinham interesse para críticos que se esforçavam para eles mesmos se notabilizarem por contribuir para a construção de um cânone. Assim,  nós nos lembraríamos menos do autor que do crítico que disse que tal autor é “excepcional”, “fundamental” etc. No final, o texto coube em duas folhas de sulfite impressas frente-e-verso com fonte Times New Roman tamanho 12, espaçamento 1,5, alinhamento justificado. Dobrei-as com certo cuidado e as depositei num envelope no qual, em letra de forma, escrevi o primeiro nome do meu amigo.

Durante um jantar, num momento em que ele se distraíra, coloquei a carta no meio de um livro de contos de Marcelino Freire que meu amigo deixara sobre a mesa. Passaram-se muitos dias sem qualquer menção ao texto.

Quase um mês depois, meu amigo, ao telefone, me dizia que tinha mudado de opinião e que, se eu quisesse saber o que ele pensava daquela discussão sobre Borges, comprasse a mais nova edição daquela mesma revista, pois haviam — os editores, sempre sagazes – publicado um artigo dele.  Ansioso, comprei a revista e, por acaso, abri-a exatamente na página em que Marcel Coelho defendia a irrelevância da distinção entre alta cultura e subcultura etc., citando o caso “emblemático e arquetípico” de Borges. E uma nota de rodapé em que meu amigo, em seu próprio nome, afirmava que tal texto era uma versão revista e ampliada de um texto da edição anterior que ele mesmo havia escrito com outro pseudônimo e que Marcel Coelho era apenas o seu pseudônimo menos medroso.

3 Responses to “Uma opinião sobre Borges”

  1. Essa é a minha primeira contribuição para o Arlequinal. Espero que gostem dela! Ou não.

  2. Binho, espero que Marcel Coelho seja o pseudônimo do pseudônimo. Ou poderemos identificar seu “amigo”.

  3. Eu gostei, bastante =)

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