Prêmio Portugal Telecom e a viagem de Saramago
Thursday, May 21st, 2009Foi divulgada ontem a lista com os 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009.
O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa contempla os três vencedores com R$ 100 mil ao primeiro colocado, R$ 35 mil ao segundo e R$ 15 mil ao terceiro.
O resultado final do concurso será anunciado no fim do ano.
Este escriba confessa (meio envergonhado) que leu apenas quatro das cinqüenta obras classificadas. São os romances: A Viagem do Elefante (Cia das Letras), do português José Saramago; e os brasileiros Acenos e Afagos (Record), de João Gilberto Noll; A Arte de Produzir Efeito Sem Causa (Cia das Letras), de Lourenço Mutarelli; e Animais em Extinção, de Marcelo Mirisola.
Desses quatro, o que mais me entusiasmou foi A Viagem do Elefante, definido pelo autor como conto, embora se trate de uma narrativa longa. Numa linguagem aparentemente simples, Saramago narra o périplo de um elefante asiático (o afável Salomão) que é enviado de Lisboa a Viena pelo rei de Portugal, João III, que o presenteia ao primo, o arquiduque Maximiliano d’ Áustria.
A caravana do elefante percorre vários povoados e é recebida de maneira entusiasmada pela população em geral. Salomão e seu tratador (ou cornaca, como é designado no livro), porém, enfrentam desconfiança e até aversão de algumas personagens com que topam no caminho, sendo a mais irascível delas um sacerdote que cisma de exorcizar o elefante por julgá-lo possuído por alguma força maligna. Além da suspeição de alguns, os viajantes ainda têm de lidar com intempéries, impasses políticos, caprichos, falta de estrutura, e vários outros imprevistos e impedimentos que uma jornada dessa ordem poderia suscitar.
Ao final, saímos todos enriquecidos dessa experiência. Apaixonados pelo doce e corajoso Salomão (ou Solimão, o modo como os austríacos o chamam); satisfeitos e maravilhados com o talento narrativo e dissertativo de Saramago; e críticos em relação à idéia defendida por muitos de que todas as boas histórias já foram contadas
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A seguir, um pequeno trecho do romance, em que o Nobel português demonstra o tom jocoso que perpassa toda a narrativa:
Não que fosse essa a intenção nossa, mas, já sabemos que, nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só pelo bem que soam juntas, assim muitas vezes se sacrificando o respeito à leviandade, a ética à estética, se cabem num discurso como este tão solenes conceitos, e ainda por cima sem proveito para ninguém. Por essas e por outras é que, quase sem darmos por isso, vamos arranjando tantos inimigos na vida.


Envergonhado?
E eu que não li nenhum?rss
w.m.carvalho
Não há dop que ter vergonha Bruno, já superei minha crise que jamais leria tantos livros quantos os que forem lançados. Se lermos um livro por semana, leremos somente àqueles que foram selecionados para o prêmio e deixaremos de ler outras tantas coisas interessante.
Minha pergunta é: Será que Marcelino Freire chega às rodsadas finais dos prêmios tais como esse, Jabuti e outros?
Não há dúvida, Fernando: a quantidade de livros interessantes ou mesmo imperdíveis que chega às livrarias todo mês é assombrosa.
Na mesma calçada do escritório onde trabalho, funciona um pequena livraria. Quase todos os dias gasto cerca de dez minutos do meu horário de almoço folheando alguns títulos que me apetecem, e não são poucos. Digamos que, se eu resolvesse comprar todos os livros que despertam meu interesse num período de 30 dias, por exemplo, meu salário não seria suficiente – tirante o fato de que eu levaria meses, anos para ler todos eles.
Ou seja, a única “saída” é ser bastante seletivo, fiar-se nas indicações de entendidos e na mais confiável delas, as retiradas de outras leituras.
A “palavra de ordem” é resignação.
Abraço.
PS – Acho pouco provável que o Marcelino Freire consquiste o Portugal Telecom, muito embora seus últimos trabalhos tenham agradado a boa parte da crítica. Não duvido, contudo, que seu livro (que não li)chegue às finais. Os jurados desses prêmios costumam premiar a ousadia com segundos, terceiros e quarto s lugares.