Dicas para novos autores II
Sunday, May 17th, 2009Se esse texto fosse para uma rádio, o radialista começaria com um “No programa de hoje: elogio de mãe não vale”. É uma frase curinga daquelas que dizem tudo sem dizer nada, mas o caso aqui é literatura e a dificuldade que o novo escritor tem de balizar o próprio texto.
Quanto mais inexperiente o escritor, mais difícil saber se o tiro foi dado para o lado certo. Não se assuste com isso. Na verdade, muitos autores experientes passam pelo mesmo problema. Decidir se você escreveu algo de qualidade ou um texto que estragaria as engrenagens da máquina de reciclagem é uma missão árdua, até porque exigiu suor e dedicação e é custoso acreditar que depois de tanto esforço o resultado não presta. Pelo menos não precisamos amassar papel e mirar na lixeira, senão seríamos acusados por alguma ONG ecológica de ferrar com a natureza, pois parte da fórmula para se chegar a um bom trabalho é saber apagar e recomeçar, descartar sem dó nem piedade aquela frase que parecia genial e que já te fazia ter orgasmos sonhando com a Wikipedia.
Duas boas dicas têm a ver com frases que ouvimos comumente por aí. A primeira é a famosa “minha mãe adorou”. Se além de adorar sua mãe emendar com um “não sei de onde ele/ela tira tanta imaginação”, passe de alerta amarelo para vermelho imediatamente. Elogio é sempre bom, massageia o ego e o escritor tem o ego do tamanho do mundo. Sabe por que escritores não podem participar de campeonato de ping-pong? Porque a bolinha começaria a orbitar em torno do umbigo. É muito importante evitar essa armadilha, a síndrome do artista incompreendido. Saia dessa ou espere sentado. Nenhuma opinião é imparcial, a de mãe muito menos. Colocaria apenas uma exceção: sua mãe é escritora, editora ou faz análise de originais. Se a supermãe vira repentinamente uma profissional do meio editorial, aí o cenário muda de figura, ouvidos atentos. Ainda assim, existem outros artifícios a serem usados para decidir se um texto está bom ou não antes de levá-lo para um profissional, e eles não incluem feitiçaria nem sortilégios. Também descarte mães de santo que prometem trazer o primeiro contrato em sete dias. Ela pode ser boa em amarração e descarrego, mas o mercado editorial habita um círculo do inferno diferente.
A segunda frase que devemos evitar é praticamente um clássico: “ninguém é mais crítico do que eu com meu trabalho”. Essa é uma que me deixa tonto, no melhor estilo jab de direita. Sabe aquela luzinha do alerta vermelho? Vai estourar assim que você falar uma dessas. Não só é um jeito de massagear o próprio ego (o que não serve para nada), como é muito deselegante com seus possíveis leitores. Quer ver só algumas interpretações de improviso? “Se o texto está bom para mim, estará para você”. “O que importa é a minha opinião, pedi a sua para que você concordasse”. “Do alto da minha sabedoria te concedo a honra de ler o que escrevi, seu pobre ignorante”. A lista de possibilidades é infinita.
Dito isso, há dois caminhos complementares que são muito importantes para quem quer arredondar um texto. Primeiramente, passe-o para amigos que representam o leitor médio. Quero dizer, pessoas com o hábito de leitura, mas que não trabalham como críticos de um portal de arte, por exemplo. Se ele lê sem parar, ótimo. Dê preferência a um amigo que leia o gênero que você está escrevendo. Entregar um livro que conta o drama de uma menina órfã que solta pipa no Oriente Médio para alguém que adora guerras entre anões e elfos não é a melhor solução. Enriquecer-se com pontos de vida é válido, mas nessa etapa tente se concentrar, escolha um alvo e não desvie dele.
Por aí, esse “amigo” que ajuda na leitura é chamado de leitor beta. É o cara que lê a versão teste do seu livro. Escolher um leitor beta é admitir para si que o livro não está pronto. Você estará dando um grande passo, acredite. Muita gente não consegue.
O outro caminho é pedir uma leitura mais detalhada do livro. É a análise crítica ou leitura crítica. É provável que o leitor médio não saiba chegar até esse ponto e você precise de alguém mais imiscuído ao meio. Se você tem um amigo que é trabalha exatamente com isso, é escritor, crítico ou editor e está com um tempinho livre, essa é a hora de pedir o favor. Mas que fique bem claro que você não está pedindo elogios. O leitor crítico é seu advogado do diabo, seu amigo da onça. Como disseram para mim outro dia, o importante é entrar de sola. Ele vai revirar seu texto de cabeça para baixo e apontar tudo possível e imaginário que você tenha deixado passar, inclusive estrutura e lógica. Quando você recebe um texto de volta do leitor crítico e não fica deprimido, é sinal de que algo saiu errado. Ninguém gosta de ouvir críticas, por outro lado, como você bem sabe, elogio a gente mesmo faz. A leitura crítica vale ouro. E falando nisso…
Sabe aquela história de que em terra de cego quem tem um olho é rei? Infelizmente, há muitos caolhos soltos no mercado. A internet ajudou na proliferação, é pior do que Gremlins na água. Às vezes quem não tem bagagem nenhuma e não consegue achar nem os próprios erros numa sopa de letrinhas oferece serviços caríssimos de leitura crítica, aconselhamento editorial e outros nomes bonitinhos. Se você precisar pagar por um serviço profissional, espie antes as referências. Pergunte a outros escritores se conhecem a pessoa, leia os textos dessa pessoa, revire o Google do avesso, consulte listas de discussão, comunidades do Orkut, o que for, mas tenham cuidado. Nem todo pirata é um bom leitor. De repente, ele não perdeu aquele olho à toa.


Na condição de ficcionista in progress, endosso tudo o que foi exposto por Eric Novello.
O cara sabe do que está falando. E o melhor: o faz com senso de humor.
Abraço.
Eu tambem endosso a explicação do Eric. Afinal, ele já foi inclusive meu leitor beta.
Texto engraçado e preciso, gostei pra valer!