Chapéu de Palha

Tuesday, May 12th, 2009

Havia percorrido quase trezentos quilômetros desde o moderno monumento que anunciava sua partida até o antigo portão baixinho com detalhes em forma de coração, de um azul claro já desbotado e enferrujado. Bateu três palmas e como de costume, entrou sem precisar que o abrissem. Sentiu o mesmo cheiro de pão ao forno e paredes velhas que sempre sentia. Chegou cedo e os raios de sol ainda eram oblíquos e mornos. Tão logo cumprimentou aqueles que há muito não via, com certo pesar e talvez com certa satisfação, e conversaram junto à mesa posta.

Enquanto conversavam, mergulhava naquelas portas e paredes dentro de sua memória. Nada parecia ter mudado em dez anos. Lá estava a mesma mesa em madeira com adornos em sua volta, o piso avermelhado, o mesmo teto alto e sem forro. Algum aparelho aqui ou ali mostrava que o tempo não havia parado por completo, mas o sentimento de tudo aquilo ainda era o mesmo.

E foi levada até o quarto onde muitas vezes havia dormido. Estava exausta por conta da longa viagem. Fechou a porta, deixou as malas ao pé da cama e deitou-se sobre a colcha laranja feita em lã. No canto, junto à porta, uma imagem de Nossa Senhora prendia por instantes seus pensamentos até perceber o que havia sobre o armário. Levantou-se e ficou sobre a ponta dos pés, esticou o máximo que seu braço pôde.

Repousou a relíquia sobre a cômoda e sentou-se frente a ela, observando e atravessando-a em pensamentos perdidos sobre manhãs nas quais o sol refletia o vermelho da terra na parede alaranjada. Sobre o banco de madeira pintado de azul ele ficava sentado com suas calças batidas, nem por isso desalinhadas, fumando seu cigarro de palha, cujo aroma percorria toda a casa, revelando sua presença. Lembrou-se de como ele cuidava do grande pé de pocã e de mexerica com mãos já calejadas e marcadas do tempo; e como cantava com uma voz já rouca sobre pintassilgos, sertanejos e causos.

Não falava muito. Seu cabelo era ralo e liso, com um tom grisalho quase branco, tal qual seu bigode. Haviam muitas linhas, não sabia se era de alegria ou tristeza, mas era de uma vida vivida. Ela sempre recordava as pipocas e passeios pelo jardim junto à Igreja Matriz aos fins de tarde, acompanhados pelo truco, familiares e amigos, o que já era passado há muito, mas permanecia em sua mente. Também recordava a mulher que jazia nela, que tinha olhos fundos desde criança, cabelos negros ondulados e uma pele branca que vinha acompanhada de um sorriso gentil e agradável. Era a cara dela, Mesmo não a tendo conhecido, sabia. E ele também.

Escapou-lhe muitas lembranças num só relance, e se enchia de algo que nunca havia sentido em todos esses anos, e ainda olhava além.

Nos últimos anos, lágrimas caiam de seus olhos acinzentados sobre seu rosto marcado. Toda vez que se encontravam, e também quando se despediam. Mas ela não chorava, apenas sentia o pesar dos anos que lhe caíam sobre os ombros, e sabia que não o carregaria durante muito mais tempo. Ele também cantava mais e talvez ficasse mais triste com certa facilidade, mas ela mantinha as mesmas alegres lembranças em sua mente. E segurava com força sua mão até o dia que viesse encontrá-lo pela última vez.

Bateram na porta de seu quarto e voltou ao presente. Levantou-se sem desviar o olhar dele. Olhou pela janela para o pé de pocã e para as roseiras em flor brilhando sob o sol do meio dia. Suspirou, fitou-o novamente. Então devolveu ao seu lugar as lembranças retiradas daquele chapéu de palha esquecido sobre o velho armário.

[ Fernanda Fiamoncini ]

3 Responses to “Chapéu de Palha”

  1. Uau, essa é boa. Me fez lembrar do meu falecido tio-avô. É muito igual. Sério. Muito bom, muito… suculento, bem recheado com poucas palavras.

  2. Belo, Fernanda!

  3. Oba! Obrigada Victor!

    E obrigada Bruno!

    Que bom que gostaram…

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