Um Vencedor
Wednesday, May 6th, 2009Depois que a polícia confiscou meu carrinho de pipoca (ah, quem me dera ter a dignidade de um pipoqueiro!), fui prestar os tais concursos. De novo. De volta aos concursos públicos. Àqueles livros e apostilas coloridos, sobre os quais nunca me debrucei como um Vencedor.
Cada um por si. No dia do exame, os candidatos se aboletam nos pátios e corredores da instituição de ensino onde as provas são aplicadas. Eles e seus cadernos, para uma última conferida na matéria. Seu riso nervoso. Sua cara de poucos amigos. Seus guarda-chuvas, seus óculos e seus estojos. Suas garrafinhas de água mineral, suas barras de cereal, suas balas de menta, seu chocolate. Sua determinação. Seu suor que poreja. Sua lógica conseqüente. Sardas, manchas de nascença, estrabismo, peles, pêlos, membros… Todos queremos um bom ordenado. A estabilidade e o conforto dos conjuntos de estofado e dos home theater.
Minutos antes de tocar a sineta para o início das provas, o nervosismo obriga muitos de nós a ir ao banheiro. Lavar o rosto, as mãos. Esvaziar a bexiga e / ou os intestinos. Depois a parada no bebedouro é certa para os que não compraram sua água mineral. Então desejar boa-sorte ou um até-breve ao colega; desejos que podem até ser sinceros, principalmente se dirigidos àqueles com que simpatizamos no curto período de convivência. Tempo de se situar geograficamente no prédio, rumar para a respectiva sala, apresentar-se ao fiscal, depois ouvir atentamente suas instruções (não pode isso, pode aquilo, quatro horas de prova, boa sorte). Respire fundo. São vinte candidatos por vaga. Você se preparou. Uma delas é sua. Não olhe para os lados, porque seus concorrentes sempre parecerão mais preparados que você. Se avistar algum japonês, não se desespere; isso só quer dizer que apenas uma das tantas vagas disponíveis está predestinada a ele. Ainda restam outras. Leia com calma os enunciados. As questões que suscitarem dúvida (e se forem todas?), deixe-as por último. Reserve ao menos vinte minutos para preencher a folha de resposta. Aquelas malditas bolinhas sempre nos colocam nervosos, mas é preciso preenchê-las com tinta preta. Não rasure a porra da folha. Celulares e demais aparelhos eletrônicos em cima da mesa do fiscal, ou dentro do saco plástico que você recebeu assim que entrou na sala, o qual terá de ser lacrado e reaberto somente ao término da prova. É permitido respirar fundo, bocejar, beber da sua água, coçar os olhos, a cabeça, e demais partes do corpo que lhe aprazer; é permitido chorar e pedir pelo amor de Deus, desde que sem perturbar os demais ocupantes da sala; flatular é permitido, muito embora contrarie as regras da boa educação. O candidato só poderá se ausentar da sala após uma hora de prova. E aquele que quiser levar o caderno de questões deverá permanecer na sala até faltarem quinze minutos para o final da prova. Quem precisar ir ao banheiro, acene que o fiscal o encaminhará. Uma boa prova a todos!
Após responder a todas aquelas questões capciosas que os elaboradores criaram pra te sacanear, você sai da sala pisando em falso, cheio de fome, com o corpo dolorido e a cabeça pesada. Nessas alturas, quando me perguntam quem eu sou, respondo não faço idéia. Que se f… Se fui bem na prova? Acho que sim. Todas as questões agora me parecem incoerentes, mas acho que sim. Geralmente saio muito tenso e irritado desse tipo de exame, e acabo sendo grosseiro com as pessoas que me perguntam – ingênua e afetuosamente, na maioria das vezes – como avalio meu desempenho.
A decepção (ou o triunfo) vem dias depois, com a divulgação dos gabaritos. Caso, depois de aferido o número de questões corretas, reste alguma esperança, a ansiedade reinará até a publicação dos resultados. Isso vale, em especial, para aqueles que, como eu, anseiam por se integrar ao sistema o quanto antes, e assim conseguir a independência financeira. Ou para os que estão desempregados há vários meses ou anos e clamam por um milagre. A clássica premissa aplicável a este caso é a seguinte:
- Ou a gente acaba com as saúvas, ou as saúvas acabam com a gente.
(Texto extraído do meu romance Paroxetina ou Crônicas de um Ansioso Crônico, ainda sem editora.)


Clareza invejável. Escrita polida e precisa. Preciso ler o livro todo, mas este trecho é excepcional.
Obrigado, Fernando.
Já fiz concursos. Essa é a melhor descrição da nossa penosa situação num dia de prova!!
abraço,
W.M.Carvalho
http://esquinasludicas.blogspot.com/
Também já prestei muitos concursos, Wellington. Por isso consegui elaborar o texto. Vida dura!
Abraço!
[...] This post was mentioned on Twitter by Bruno M. Oliveira. Bruno M. Oliveira said: Pequeno texto sobre Concursos Públicos que escrevi há cerca de dois anos: http://is.gd/bjm5z [...]