Dicas para novos autores
Monday, May 4th, 2009Para novos autores e também para os antigos, uma lembrança de que etiqueta nunca é demais na eterna mesa de apostas literárias.
Faz tempo, mas tem umas que a gente não esquece.
Quando terminei minha especialização em Bioquímica de Alimentos, decidi dar um tempo na indústria e trabalhar com assistência farmacêutica, já que em drogaria o horário de entrada e saída é fixo e assim eu poderia fazer escola de cinema, curso noturno. Já estava inscrito, não sabia se teria dinheiro efetivamente, mas sem confiança não se chega a lugar nenhum. Pois parte dessa busca é passar por entrevistas de emprego onde pessoas estúpidas te perguntam coisas estúpidas que você precisa responder de forma a transformar estupidez em algo que chame atenção para as suas qualidades. Pois a primeira foi na Drogaria Papaya e eu não consegui. Todos têm seus limites do impossível. Pois mesmo assim liguei uma semana depois para saber o que tinha acontecido:
- Você veio aqui dia tal, não foi?
- Isso.
- Eu disse que ia te ligar quando tivesse a resposta, não foi?
- Foi sim.
- Eu te liguei?
- Não.
- Então por que você está me ligando?
Foi nesse dia que descobri que desespero tinha limite também. Um mês depois entrei para a Drogaria Macheto, simplesmente a maior rede no Rio de Janeiro. Não precisava trabalhar no sábado, recebi um salário maior e ainda escolhi o bairro onde queria trabalhar, o que fez toda a diferença para poder estudar e em todos os eventos que se seguiram. Na Macheto eu criei com um grupo o primeiro programa de treinamento em atendimento e informações técnicas sobre cosméticos e medicamentos. Foi para a rede inteira, duzentas lojas, mais? Da última vez que soube, o treinamento tinha ido para a segunda fase. Quem trabalha na área sabe o quanto custa encomendar algo desse porte. Quem trabalha na área sabe quanto a Macheto economizou. Foi esse funcionário que a grossa e despreparada ali de cima perdeu. Sorte minha.
Como escritor, ao mandar originais para as editoras, me vi nessa posição outras vezes e soube evitar o papel de desesperado. É muito fácil insistir quando você conhece o editor, quando tem o e-mail, os contatos e um mínimo de intimidade, fora isso, não faça esse papelão.
Como resenhista, me vejo na situação inversa. Sei que a ansiedade é grande. A impressão que se tem é que aquela resenha, aquela ali que você está esperando, vai te revelar para o mundo e aí tudo de bom vai acontecer, você vai parar no Jô, a Veja vai falar mal de você, o Estadão vai fazer aquela matéria especial de meia página e assim virá a fama. Resenho há um tempinho para o Aguarrás, um veículo respeitado pela qualidade e que me dá total liberdade com o texto. Por ter essa liberdade, direciono meus textos para públicos diferentes. Às vezes só tenho um feeling de que fiz a coisa certa, outras vezes tenho a certeza, porque há retorno, chegam os comentários, há a recirculada de informações que uma resenha deve criar, fechando (ou ampliando) o ciclo de um livro, filme ou obra de arte. Produção, Absorção, Pensamento.
Então, conselho de quem subiu um degrau ou dois e que ainda tem uma longa trilha para caminhar: quando mandar seu livro para um site de resenhas, não fique cobrando, não escreva pedindo prazos. Além de ser uma queimação de filme sem tamanho, um dia você pode esbarrar com alguém que tenha a mesma delicadeza da mulher que me atendeu ao telefone, e ter uma Drogaria Macheto esperando adiante não torna a experiência mais agradável.
ps. sim, os nomes das drogarias foram inventados, mas para bom entendedor.


Belíssimo texto Eric. Paciencia é palavra de ordem. A construção de uma carreira é feita aos poucos.